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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2007

O VINHO DAS ARCAS

© Manuel Cardoso

Nas noites de inverno nas aldeias da Terra Fria de Trás-os-Montes, desde tempos imemoriais que se afugenta o gelo com um copo de um vinho excelente que acalenta a mais necessitada das almas. É um vinho que surpreende. Um forasteiro desprevenido, dado o primeiro golo e sentido o sabor forte e aromático, imediatamente é assaltado por uma dúvida evidente: se nestas aldeias altas e frias as vinhas não passam de pequeníssimas manchas nalguma encosta mais soalheira e mal dão uns cachos de uva miúda e agridoce na maioria dos anos, como é possível um vinho destes, graduado, rescendente? “Comprado!”. Mas o dono da casa exprime, orgulhoso:
- Esse foi pisado na nossa casa!
- Ah, tem vinhas...
- Não, não. Compramos as uvas.
Ainda hoje, nas aldeias da Serra de Nogueira se mantém este costume de comprar as uvas lá em baixo, em zonas da Terra Quente, e trazê-las para cima para fazer o vinho.

Ora, conta uma lenda antiga que, certa vez, levado um pipo com as primícia…

O rapto da Tia Dores

© Manuel Cardoso

(As cenas passaram-se com o século XIX já a bem mais de meio.)

Uma manhã de caça a salto e extraviada arrastou o José Manuel desde Alvites até ao Brinço. As perdizes tinham saído de feição, tal como o compadre as prometera, a esvoaçar nas restolhadas, à frente do focinho dos perdigueiros. Parecia que adivinhavam o caminho. Uma vez aqui, outra vez ali, o bando passava sobre os freixos do ribeiro, atravessava o valezito para além, subia pela encosta a desaparecer nos adagues de uma vinha amarela.
- Ó compadre, de quem é esta vinha?
- Isto já é do casal do senhor Abade...
- Então tem um grande casal!
- Grande?! Tem muitas terras aqui, olivais em Alvites, em Vilarinho do Monte, em Vale de Lagoa e na Açoreira, sortes no Vimieiro e na Carrapatinha, lameiros em Ala e em Meles...
- Caramba!
- Tanto como ele só o casal grande, de Ala! O lagar do Brinço só para a casa trabalha ao mês!
Um tiro, logo mais outro, ele mesmo descarregou a espingarda. Com o segundo caiu uma, das do b…

As folhas de chá

© Manuel Cardoso

O senhor morgado tinha ido a banhos. Estivera uma semana no Moledo do Douro e antes de regressar a casa dera ainda uma saltada de dois dias ao Porto para ver as vistas e trazer uns embrulhos para as senhoras. Já no fim da volta ainda passara na Chinesa e comprara chocolate, café e uma lata de chá, um chá oriental cujo aroma - “cheire só, senhor morgado, depois de o provar a sua netinha não vai querer doutro!” - já produzia efeito. Fizera as compras, despachara uns assuntos, telegrafara para casa a dizer que já ia e metera-se no trem na Campanhã, depois de meia hora de caleche desde a baixa. Tinha tido um tempo esplêndido mas a partir da Régua o céu cobrira e o ar, apesar de Setembro estar no início, arrefeceu. O trasbordo no Tua fez-se já com uma chuva persistente e depois até Mirandela, noite entrada, foi um crescendo de pingos que não esmoreciam. De fora da estação, num negrume que não se distinguia do vapor do combóio em manobras, esperava já a diligência, veículo …

A Pulseira de Prata

© Manuel Cardoso

Quando foi preciso reparar o fecho do cordão de ouro e os brincos de esmeralda da D.Josefa, o senhor morgado, Bernardino José, aproveitou a boleia e comprou no ourives uma pulseira de prata de dois aros torcidos para uma das suas favoritas de travesseiro, a Custódia do Vilar.
Ofereceu-lha numa noite especial para aplacar os cuidados e medos em que ela andava porque sabia que o seu irmão, de maus bigodes para aquele romance, apregoara na praça que, na próxima vez que o morgado fosse lá a casa, lhe daria a ele desanda tamanha que a D.Josefa demoraria uns mêses para lhe consertar os ossos.
E com efeito, nessa noite, em casa da Custódia, ainda mal aquecido o colchão, ouviu-se um burburinho nas escadas da varanda. Ela começou com lamúrias baixinho mas ele, espadaúdo de ombros e mais ainda de alma, levantou-se, vestiu-se, ajeitou o coldre do St. Étienne para o ter à mão, pôs o chapéu de abas e apertou calmamente os alamares de prata do vasto capote de saragoça. Desenfiou do…

trovisco

TROVISCO
Daphne gnidium L.


Há duas plantas diferentes com este nome. Uma chama-se trovisco-macho, existe na Madeira e é muito diferente da que nos interessa e sobre ela nada aqui dizemos.

O trovisco que existe em Trás-os-Montes é um arbusto da família das Timeliáceas cujo nome científico é Daphne gnidium L (1). Há ainda duas plantas muito parecidas, também da mesma família e que têm os mesmos nomes vulgares em diversas regiões do país: trovisco-fêmea, trovisqueira, gorreiro (Alentejo), erva-de-João-Pires, mezereão, mezéreo-menor, mezereão menor. O mezereão, Daphne mezereum L., e a Daphne Laureola, são esses outros elementos desta mesma família. O sabor deste vegetal é muito amargo e, em geral, os animais evitam-no. Contudo, se for ingerido por cavalos pode ser mortal e o mesmo acontece com as galinhas, como se pode avaliar pelo seu nome no país vizinho.

Sinonímia internacional:
- Castelhano: torvisco, matapollos, bufalaga, matapulgas, matagallina, torbisca, trovisco;
- Gale…

A NOITE DAS BRUXAS

Era o dia de Todos-os-Santos. A aldeia estava mergulhada numa cerração completa. A água escorria pelos telhados devorando as coberturas de telha velha e remexia a terra levando-a regatos abaixo, deixando as árvores chupadas de solo. Clarões magníficos alternavam com estrondos que estremeciam o sobrado, as paredes, a alma. O vento enfiava-se pelas frinchas, enovelava os pingos que caíam nas ruas, juntava aos trovões um chiar lúgubre que nascia nas ramarias já descarnadas dos carvalhos e dos freixos. Um raio desfizera parte do campanário da igreja e o negrilho grande do quintal dos tios.
Desde o início deste misterioso temporal que deixara de haver electricidade e os telefones eram uma ruideira inaudível. As estradas, com o alcatrão esventrado, estavam semeadas de pedregulhos que a água arrastara, com o aterro desfeito pela enxurrada. Algumas casas de curral mal seguras tinham desabado fragorosamente, andando os animais por aí, perdidos ao vento.
Ninguém tinha na memória a recordação d…

The meaning of Azibo. Everything has a begining...

No one knows for certain what's the meaning of the word Azibo.
It's an ancient word for "earth"? And if it is, why?
It's the forgotten name of a plant? Which one?
Perhaps it's time to go for a quest for it!...

Today, Azibo is the name of a small river and a beautiful artificial lake.
In Portugal. You may see it at http://www.azibo.org/

This blog is an experimental one. Too see what it comes. Like fishing at Azibo lake. A misterious one.