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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2007

Os últimos e os outros

© Manuel Cardoso



- A casa é velha, filhos, um dia arranjem mas é outra, moderna, com máquinas, fácil de arrumar e de limpar!

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Um dos esqueletos mais bem guardados nos antigos armários da casa era loura, tinha olhos azul-água e a cara estampada dalgumas das nossas antepassadas. Dizem que foi despachada para o Brasil com a mãe, levando na bagagem um dote condicionado a não voltar a aparecer. Nunca nenhum de nós soube dela a não ser por uma frase aqui e ali, em momentos mais graves de discussão e temor.
Parece que a avó lhe fez referências, uma vez por outra, naqueles instantes de viuvez em que ainda lhe vinham à flor da alma as sombras do seu casamento com o avô, nem sempre feliz. Quase não me lembro da avó!
Mas houve outros, mais patentes, que ainda hoje se cruzam comigo na rua, com aqueles traços de família que são mais do que um vestígio genético – a evidência flagrante de antepassados comuns e muito mais recentes do que Adão e Eva. Destas e destes, não houve nenhum que me const…

O caixote

© Manuel Cardoso

- Já veio o caixote!
Chegara o caixote! Ainda não a casa mas à estação do combóio, lá longe mas já cá tão perto. Quase um mês antes tinha partido de Lourenço Marques, em Moçambique, e viera num navio a flutuar até Lisboa. Aí tinham-no descarregado de um porão com um guindaste que o pousara no chão do cais com outros caixotes, amarrados por uma rede gigante. Os estivadores arrumaram-no num vagão do combóio de mercadorias.
- E daí veio até cá!
- Não - dizia o pai, alongando a explicação para se assemelhar ao tamanho da viagem – ainda foi preciso mudar na estação de Alcântara, onde distribuem as mercadorias pelos destinos. Depois foi despachado cá para Macedo mas no Tua tiveram de transbordá-lo outra vez para um vagão mais pequeno, dos da nossa linha. Os que vêm de Lisboa e seguem pelo Douro são mais largos.
- Pois, a nossa linha é estreita. Mas o combóio é tão grande!
- Grandes são os de lá de baixo, os expressos e os foguetes, esses é …

O frasco azul

© Manuel Cardoso


Nunca pude pegar no frasco azul que estava na prateleira de cima do armário fechado à chave. Era diferente de todos os que estavam na mesma fila e, durante muitos anos, foi mais do que um frasco, foi o centro dos mistérios daquela farmácia porque o doutor Alves, grave e rabugento quando eu lhe falava nele, só me advertia:
- Naquele frasco nunca se mexe!
E eu chegava a pensar em Aladinos escondidos porque, de outro modo, para que se havia de querer um frasco em que nunca se mexe?

A farmácia era um mundo maravilhoso. Armários de cerejeira com portas de vidrinhos forravam todas as paredes e serviam de divisória a vários compartimentos. Tinham linhas esguias com movimentos arte nova que lhes acentuavam mistérios e encantos. O balcão ficava ao centro do salão de entrada onde as pessoas eram atendidas. Sobre ele, havia duas balanças: uma de precisão, dentro de uma caixa de vidro, e outra de pratos de latão reluzente onde o ajudante Julinho pesava cartuchos com folhas de…

O Kaladrium

© Manuel Cardoso


Em Safres, pequeno lugar agreste encastoado nos penhascos de granito sobre o Tua, brotou uma família de clérigos. Entre todos, o António desconcertava e sobressaía. Logo pela manhã, rezada a hora prima, ar ainda frio e promessa ainda da luz nascente, saía a caminho dos seus pobres e com tal entusiasmo – ele amava o próprio amor! – que se diria antes ter Deus à sua espera. Era essa a sua oração íntima: “um dia, meu Deus, fazei-me ir ter convosco nesta hora!”.
Nesse afã se demorava mas sem faltar a qualquer obrigação, de modo que se murmurava que alguém mais o ajudava a calcorrear as distâncias e a não ser notado nas ausências. Não faltava sequer quem jurasse que, na ponte de Sabrosa, num ápice atravessava aos saltos de ameia em ameia.
De tal modo que, apesar do recôndito do sítio, a ele chegou o olhar arguto de D.João de Sousa, Bispo do Porto e Arcebispo Primaz de Braga, fazendo dele seu pagem e capelão – e abrigando-o assim de uma penumbra de superstição que sobre ele se…

FOGO!

© Manuel Cardoso


- Deixa arder! Deixa arder, que é do Menéres!
- Sai daí que ainda te chamuscas, ó palonço!, deixa arder, que é do Menéres!
O incêndio lavrava feroz na encosta de cá do rio, um mato denso de tojo e de estevas em que pontificavam umas dezenas de sobreiros, tochas gigantes a sumir-se num estralejar mirífico e portentoso que se fundia na noite. Um grupo assistia, cá de longe, encavalitado numa fraga vasta a servir de balcão ao espectáculo, armado de pás, machadas e sachos, sôfrego às labaredas a consumirem, uma a uma, as árvores centenárias. De onde em onde viam-se os pirilampos azuis dos carros de bombeiros vogando no meio do negrume sobreposto no laranja. Um rapaz, camisa meia rasgada por alguma ponta de esteva, chegava ofegante, olhar suado:
- Não se consegue fazer parar! O vento voltou e agora não se segura deste lado!
- Mas tu que andas praí armado em valente? Deixa arder que ninguém te paga para isso! Os bombeiros não andam aí?
- E…

textos transferidos

Por uma questão de coerência e uniformidade, vou transferir para adriveinmycountry alguns textos que se encontram também no blog d'O Sol, afim de estarem de algum modo compreendidos pelo mesmo conjunto espacial, tal como o estiveram na concepção. Não o vou fazer com os que foram repescados de textos publicados e que trunquei propositadamente aqui e ali conforme fui necessitando naquele espaço.
Aliás, vou deixar o blog d'O Sol para meros apontamentos ou alguma intervenção propositada - o que não faz com que sejam menos importantes! Às vezes um apontamento é tudo!
Estarão entre esses trasladados o Fogo!, Os Foguetes, O Kaladrium, etc., todos os que têm um cunho mais familiar ou conterrâneo.
A ideia é ir revendo-os e daí que, ao longo do tempo, possam vir a sofrer algumas modificações que as sucessivas revisitações venham a fazer...

Ontem fui à Travessa da Espera

Anteontem e ontem estive em Lisboa a tratar de assuntos diversos relacionados com uma das minhas actividades e, mesmo em cima da hora de me vir embora, passei pelo Bairro Alto onde me aguardava o meu filho Vicente por causa de uma mudança de móveis. Uns cunhados meus foram viver para Nova Iorque e deixaram vago um terceiro andar/águas furtadas na Travessa da Espera. Ficam num edifício com história, familiar e não só, e no qual a Mariana e eu, no rés-do-chão, passámos os dois primeiros anos depois de casarmos. Chega-se ao dito terceiro andar por umas escadas que existem no miolo do prédio, sobre as quais uma enorme clarabóia deixa cair luz a jorros. Já junto ao telhado, todos os aposentos são cheios de luz, também, com janelas grandes, mirantes sobre as telhas e vidraças de trapeira. Havia sol e, dentro, todos os aposentos estavam e estão com aquele ar de abandono, falhos de móveis, trastes espalhados, restos de papelada, algumas estantes e armários vazios. Na entrada há ainda o espaç…

um dia de inverno

Tem sido um dia de Inverno. O primeiro, este ano. Chuva, vento e frio. Até agora tínhamos tido um Outono de esplendor marroquino: frio à noite com estrelas, calor de dia de sol, céu límpido até onde o horizonte chega. Hoje mudou tudo. Ficou afastada a que já se temia ser uma seca. Estamos a passar os meados de Novembro, hoje já são 19, verdade seja.
Tem sido um dia de neura. Contratempos logo de manhã, mais contratempos durante a manhã e mais ainda à tarde. Os da manhã foram de serviço, burocracias que me puseram especado na secretária a resolver problemas e me alteraram a agenda, já de si alterada por ter tido que mudar as aulas que deveria dar hoje, e me impediram de estar em representação numa visita de estudo sobre castanheiros, do Centro de Investigação de Montanha, do IPB. À tarde os contratempos foram mais chegados e mais difíceis: primeiro, o Vasco: caiu na escola ao escorregar com uma das canadianas com que anda por ter partido o joelho esquerdo. Fui buscá-lo, chovia a potes e…

O PEDIDO DE CASAMENTO

© Manuel Cardoso


Ensolarado e com calor, o doutor Carvalho subiu suavemente as escadas de cantaria da casa e disse a uma criada que o anunciasse ao senhor morgado. Vinha pedir a mão de uma das filhas de Sua Excelência. A conversa passava-se no salão grande e apanhava o morgado desprevenido.
- Oh, senhor doutor Carvalho, tenho que ouvir o que pensa a minha Josefa. Ó Josefa, ó Josefa!
Uma das criadas apareceu.
- O senhor morgado chamou?
- Chamei pela senhora. Onde está?
- A senhora foi só lá abaixo. Eu chamo-a já.
- Chama e diz-lhe que venha que está aqui o senhor doutor Carvalho. E arranja-nos aí qualquer coisa... o senhor doutor toma um chá frio com rodelas de limão? Talvez uma água acidulada... Eu também. Olha! Serve aí na sala de dentro que está mais fresco!
A Josefa chegou sem estranhar a presença do doutor apesar de ser a primeira vez que vinha ali a casa sem ser numa tarde de procissão e festa.
- Olhe, está aqui o senhor doutor Carvalho a pedir uma das nossas filhas para casar co…

Latães

©Manuel Cardoso

A aldeia é pequena mas tem um nome erudito. Virá de “latanes”, em latim, aquilo que está escondido.

Já foi há uns anos. Manhã de novena de bofarra (diz-se por aqui que a bofarra, o nevoeiro, quando vem com o frio do inverno, dura uma novena!), tinha ido à aldeia tratar de um animal qualquer. Não me lembro qual, porque o que se passou a seguir apagou-me essa memória. Nesse tempo, eu deslocava-me de jeep nas deambulações pelas aldeias, um UMM Alter II cheio de audácia, capaz de façanhas de que tenho saudades. Como tivesse que seguir para Corujas, aldeia vizinha, e por alcatrão fosse uma grande volta, perguntei como poderia atravessar pela serra, poupando caminho. Lá me explicaram. Mas, ou porque não visse a derivação com a bruma, de tão densa que estava, ou porque me parecesse mais batido o caminho que subia – quer-me parecer hoje que uma providência feliz, de qual trasgo benfazejo!, me dirigiu então – fui seguindo por umas rodeiras, no meio de giestas, que em breve esmore…