Comunicação aquando da inauguração da exposição A Segunda Pele, de Balbina Mendes, no Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros, em 7 de Fevereiro de 2026. Exposição com a curadoria de Ana Rita Ribeiro e patrocínio da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, com a presença do seu Presidente, Sérgio Borges. A música que acompanhou o acto de abertura, de Telleman e de Piazzola, foi executada por Diogo Mendes, em flauta transversal.
A imagem é um fragmento dum dos óleos sobre tela de Balbina Mendes, Uma Outra Pele II, 2016, que consta no livro.
Muito obrigado, Balbina Mendes…
O Senhor Presidente da Câmara não
levará a mal que … o protocolo…
É muito bom estarmos aqui…
Diogo Mendes….
Ana Rita Ribeiro…
A cultura é o melhor e mais excelente
dos indicadores do desenvolvimento duma comunidade, dum povo. E estamos num
acto cultural de excelência, em que se encontra uma boa convergência entre a
arte, a sua criadora, Balbina Mendes, os seus intérpretes e fruidores, nós
todos, e muitos outros elementos fundidos neste pequeno/grande momento no
espaço e no tempo das nossas vidas: a música e um seu executante, a literatura,
a pintura, até a escultura, todos abrigados sob o manto diáfano da fantasia
com a nossa nudez crua da verdade, aqui sentados, com o som da chuva de
fundo!
Foi muito perigoso convidar-me (muito
obrigado, Balbina…)… porque há uma obrigação que me impele, suscitada pela sua
pintura (que é o duma artista que sempre quis ir mais além de si e o consegue),
e, por isso, perdoe-me se eu for mais além nesta obrigação agradável, talvez
longe demais, talvez, nas palavras que vou dizer…
Há uns anos, comecei a escrever um
ensaio sobre a pintura e o percurso de Balbina Mendes, e socorri-me, para hoje,
dalgumas breves notas que fui coligindo, mas não os quero maçar muito, o
importante é este livro e a exposição, belíssima exposição, em que poderão e
deverão demorar o vosso olhar. Podem e devem ir vendo o livro enquanto falo,
assim não prestarão tanta atenção às minhas asneiras!
Para ir mais além, nada melhor do que
começar por um mote dado por uma das poesias do seu livro, excepcional livro, e
socorro-me de Fernando Pessoa […pág. 130…],
Quantas máscaras
Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
(…)
E podemos, assim, ir na corrente…
Adolfo Correia da Rocha, Camilo de
Mendonça, Adriano Moreira, Graça Morais, Cândida Florinda Ferreira, Beatriz
Arnut, são todos transmontanos nas suas raízes e no seu húmus. Não temos que
lhes saber os nomes nem conhecer em pormenor a sua vida, porque os sabemos na
sua segunda pele: a de Miguel Torga, nas suas linhas; a do Engenheiro Camilo,
no masterplan do Nordeste; a do Ministro de Salazar, na biblioteca de
Bragança; a de Graça Morais, nas cores e traços iniludíveis do Centro de Arte Contemporânea
de Bragança; a de Cândida Florinda Ferreira, numa vida discreta, cheia de
sabedoria, de alguém injustiçada, que assinava os seus poemas como “Ninguém”,
e foi uma investigadora, pedagoga e escritora notável; Beatriz Arnut, uma
autora de textos sérios e de quadras populares de manjericos, mas também de uma
literatura mais robusta e dum prémio para promoção de raparigas.
Como transmontano, começo por referir
transmontanos, mas não é exclusivo dos transmontanos, é inerente aos seres
humanos: saber dar sempre um passo de transcendência cuja metamorfose começa ou
acaba numa segunda pele. Estes, acima referidos, são um escassíssimo exemplo mais exuberante, deram
o passo para a terem de forma especial.
E de alguns, Balbina Mendes já a
pintou. Balbina Mendes detecta-a, capta-a, interpreta-a, constrói-a. A Segunda
Pele. E muito mais do que tudo isso.
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A biografia de Balbina no programa da
exposição refere que nasceu em Malhadas….[ver e citar a biografia…]….
Mas o que essa nota biográfica não
diz é que uma das brincadeiras da criança que nasceu em Malhadas, num verão com
o calor do Planalto Mirandês, era rabiscar no chão com um pau, garatujas
impelidas por um sentimento interior que muito cedo se revela inconscientemente…
e era entreter-se a observar a Mãe a manobrar um tear.
Não sei se algum dos presentes sabe o
que é manobrar um tear, eu ainda vi várias mulheres a fazê-lo: em Bousende, em
Vinhas, em Morais, em Bagueixe, em Vilar de Ouro, uma das actividades mais
fascinantes a que se pode assistir: a construção da teia, a armação do
bastidor, a lançadeira, a escolha criteriosa das cores, o percurso das mãos, o
pente a bater, o movimento dos pedais, o resultado que vai acontecendo….
Também não sei se algum dos
presentes, mas com certeza que o sabem bem, assistiu ao que é colocar os óleos
numa paleta, misturar cores para obter novas cores e conseguir tons e
cambiantes, transferir para a tela e arrumar os pigmentos de acordo com a ideia
que nos vai no cérebro, fazer todos os gestos necessários, até à náusea ou até
à obra acabada, para que a ideia se concretize e finalize, quer de acordo com a
intenção inicial da pintora, quer com os caminhos que a alquimia e a arte
resolvem por vezes exprimir por si próprios e a atormentam (à pintora) como
obsessão e insónia…
Não era fácil a vida em Malhadas. Não
é fácil a vida dos trasmontanos. Passamos uma parte dessa vida a querer sair de
cá. A pequenez e a pobreza da aldeia, a professora que dava reguadas, o
seminário ou o liceu que deixou marcas, o padre que de padre tinha pouco, o
sufoco, o atraso. Passamos depois uma outra parte da vida a querer arrumar toda
a nossa inquietação e a querer voltar ou pelo menos vir cá, a esta terra para a
qual adoptámos a máscara de quem lhe chamou “Reino Maravilhoso”… (que
bela máscara!...), e, afinal, a aldeia é que era, era autêntica vida, o padre
deixara saudades, a professora ensinara bem, a escola e o liceu tinham sido óptima
aprendizagem, a lareira o locus amoenus confortável, e a comida a continuar
a ser como mais nenhuma outra.
Somos tramados, os trasmontanos, nesta
fuga/regresso, no que dizemos ou calamos, numa certa falsidade, no orgulho
escondido na máscara da humildade, na pobreza disfarçada na franqueza da
generosidade, na pequena/grande inveja que nos faz puxar para baixo quem tem
êxito, no apoucarmos os grandes como se fosse escândalo poderem-no ser, na
grande sobranceria que nos faz querer puxar para cima algum de nós, mesmo que
seja o mais medíocre, porque achamos que a justiça é a igualdade do
incomparável. Como se o pudesse ser! Somos tramados. Não somos portugueses
suaves.
Há aqui uma aparente e grande
contradição, em tudo o que estou a dizer, por isso vou arrumar um pouco estas
ideias para que se entendam. Porque tem de haver uma base de entendimento na
arte, não basta dizer-se que se gosta ou não se gosta.
As telas da Balbina Mendes
impressionam pela emoção mas têm muito mais do que emoção. Têm um imenso
trabalho, tempo em horas e dias e meses, não são um fruto dum click
fácil. Têm um manifesto intrínseco, e muito de génio, ao transmiti-lo com a
liberdade com que cada um o pode ver. Com muito mais liberdade do que aquela
com que a pintora as fez. Tem que se entender senão a pintura e a pintora, pelo
menos a nossa ideia da pintura e da pintora.
Que tem tido, toda a vida, uma
persistência, quase uma obsessão, pela sua terra que é a nossa, pela paisagem,
natural e humanizada (que não é a conceptual ou abstrata: é a nossa, com os
nossos montes e monotonias, as nossas cores e temperaturas e ventos ou
calmarias), a nossa gente, a quem uns dias nos apetece abraçar e dar sorrisos
mas noutros viramos as costas pela vontade de o fazermos, bem no nosso íntimo, ao
que de negativo reconhecemos a nós próprios. Somos tramados, os transmontanos.
Não pensem que o estou a dizer apenas depreciativamente: estou a dizer que
somos tramados, feitos pela mesma trama com a genética e a terra que nos
condicionaram aqui, entre serras, planaltos e vales, ao longo dos séculos.
No fundo, BM tem tido uma
persistência e obsessão pela máscara, com todos os seus significados. Que são
um pouco de cada um destes que tenho mencionado sobre os trasmontanos.
A máscara, como uma composição da
personalidade, tem sido até mais do que essa constante na pintura da Balbina: tem
sido uma tentativa de compreensão do mais recôndito que exista na nossa vocação
mais arcana. Uma máscara esconde, é
importante por quem a usa porque lhe dá sensação de imunidade, de poder, de
se transcender de forma mágica, de exercer uma forma de poder sobre o
observador que, por ela, e, portanto, por quem a usa, é surpreendido. Só que
o material duma máscara é inerte, sem vida. Uma máscara não representa nada
para além da máscara, por muito que se queira e diga, e nisto estou em
desacordo com os que defendem o contrário. De lata, colorida ou não, de madeira,
mais ou menos elaborada, de barro cozido, de pano remendado, seja do que for.
E a magia da máscara não existe, não é mais do que um truque, de
sobrenatural tem apenas o que se lhe quiser atribuir por fantasia, o poder de
quem a usa não passa duma convenção, duma exploração das sensações do
observador, mais ou menos assustado, mais ou menos fascinado. Uma máscara
quase chega a ser uma forma de cobardia (embora não o sendo), de ocultação dos
nossos medos e ansiedades interiores, uma espécie de brincadeira séria.
O António Tiza observou, estudou,
coligiu e escreveu tudo isso ou quase. E se repassarmos o belíssimo livro das Máscaras
Rituais de Balbina Mendes, está lá tudo isto também, com uma forma e
conteúdo de génio que eu não me atrevo a comentar mais, porque é desnecessário:
a Balbina Mendes interpretou a cores todo o drama e vazio que está numa
máscara, dessas nossas máscaras de trasmontanos.
A única coisa que não é vazia numa
máscara é a pessoa que a porta. E a Balbina sabe-o e pintou-o como ninguém. O
importante é a pessoa, não é a máscara. O importante são os olhos que nos fitam
da máscara ou os nossos com que fitamos a máscara.
[poesia em mirandês lida pela Balbina,
que a explica e dá a razão de ter escolhido uma do Padre Mourinho]
E aqui chegamos a um outro nível. O
da Segunda Pele.
Porque uma pele é viva, não é lata
nem madeira nem barro nem pano. Sente o frio, o calor, o repelão ou o afago, o
amor. A pele exprime, encanta, revela, deixa-se ler, diz tudo, por si só ou
maquilhada. Sobretudo se for a segunda pele.
Era Agosto[1],
passava da meia-tarde e eu rumava a Miranda do Douro para assistir à
conferência de abertura da Exposição de Balbina Mendes, A Segunda Pele. Preguiça
de Verão, em vez de pela estrada mais directa, segui pelo IP2 e IC5, subi
Bornes e desci a Vilariça, atravessei o Sabor, atingi o Planalto e cheguei ao ímpeto
parado dos muros e arcos do Paço Episcopal que Miranda não houve. Mais do
que entretido com a paisagem, fui-o com a emoção que inspira catadupas de
trasmontanices, como se todo aquele conhecido trajecto não fosse a experiência
dum repetente mas uma iniciação com o despertar próprio de reminiscências
caladas. Trás-os-Montes tem este dom: muda de cor, de céu, de tudo, conforme a
distância e o tempo. Todos nós o sabemos: quando passamos uma segunda vez pela
mesma estrada transmontana, parece que tudo mudou em relação à vez anterior: a
luz, a cor, o som, a temperatura, o que nos vai na mente e na alma.
Exposição sobre uma Segunda Pele?
Que seria uma segunda Pele?! Fiquei ao fundo da sala e pude ter uma perspectiva
da cor, dos olhares, dos gestos, das atitudes, do afirmado. Estavam a Alexandra
Machado, o Zé Ribeiro, outros ainda cuja presença me fez sentir mais familiar e
amigo com o momento. Estava a Balbina, pois claro.
E da sua presença, das suas
explicações, do seu prevenir sobre o imprevenível – a sua arte. Cores, os
retratos, os temas, as interpretações, os cumprimentos, apertos-de-mão, abraços
e beijinhos. A música, interessante aparição intemporal e inefável, fez, então,
com que dentro me mim se começasse a gerar um pensamento, imperfeito, por
certo, mas insidioso e, até hoje, inapagável. “E se a segunda pele?!…”.
Tumultuoso no que me ocorria, balbuciei qualquer coisa à pintora sobre a
pintura e calei-me para não me sair uma torrente impreparada de coisas que
poderiam ser tomadas a despropósito. Era um momento de parabéns. Era um momento
de celebração. Ainda assim, entrevi algo no que Balbina me disse então e num
telefonema, sobre a sua Mãe, o seu Pai, os seus irmãos, as doenças, os
acidentes, as mortes, a gente da aldeia, o suicídio no fundo dum poço, a ida
para Bragança, a ida para o Porto, a redescoberta, na arte, por via da pintura,
do way out de si própria.
E ficámos pela promessa de voltar ao
tema, sem que eu lhe dissesse, com receio, qual era o tema. Saí de lá, de
Miranda, para o regresso a casa. Então, rota feita por Ifanes, Alcanices,
Quintanilha e A4, era como se procurasse mudar já de mundo, para encontrar o
que o instinto me começara a segredar nesse dia e nessa tarde. “E se a
segunda pele?!...” Anoitecia rapidamente, e do dia restava só uma fímbria
trasmontana no ocaso, como se um pincel da Balbina estivesse a passar no
horizonte para que me não esquecesse desse destino. Ou seria o
vermelho-sangue-violeta duma pele a separar-se do seu corpo para se entrever
outra pele? Havia uma segunda pele, afinal, mesmo na paisagem!...
Esta segunda pele depende de nós, do
nosso livre arbítrio, dos nossos sonhos, das nossas realizações, dos nossos
modos de ver, sentir e estar.
Tal como dependeu a de Torga, de
Camilo Mendonça, de Adriano, da Graça Morais, da Cândida Florinda Ferreira, da
Beatriz Arnut, de tantos outros…
não se trata duma segunda pele do corpo, como
se fosse um vestido ou despido de passadeira vermelha ou uma ecdise como a
dalguns répteis que a deixam para trás para poderem crescer.
Trata-se de que é dos olhos que parte
toda a tecedura dessa segunda pele artística. Não é das mãos, nem dos pés, nem
de qualquer outra parte do corpo. É da cabeça, onde se pensa e cria, onde se
existe, de onde se perscruta e para onde se perscruta o abismo capaz da nossa
vertigem e de nos fazer voar para o sonho que nos impele. Da cara, a nossa
identidade.
O acrílico – plexiglas – é um golpe
de génio que acrescenta uma dimensão… que permite separar mas continuar a ver!
Balbina Mendes não é uma pintora a
construir uma ficção de si própria mas a libertar-se da sua densidade mirandesa
e transmontana, a transferi-la para todo o mundo. O sentimento de amor e fuga à
terra dos transmontanos, a sua ânsia da vertigem da liberdade, o seu uso da
máscara para fascinar, ainda que de forma arcana e rude, mas não para esconder,
com uma paleta caleidoscópica que faz o efeito dum shot, tudo isso
Balbina Mendes mistura para nós, sempre distraídos nas nossas vidas, e nos
pincela a lembrar-nos, de forma genial, que todos temos uma Segunda Pele.
Saibamos reconhecê-la – e usá-la bem!
Balbina Mendes vai surpreender-nos
num passo seguinte. Se conseguiu pintar-nos no nosso vazio e momentos de fuga com
as máscaras; na nossa dimensão humana com a Segunda Pele; como irá ser
extraordinário quando nos colocar na tela com a nossa alma? Sei que será capaz
de o fazer!...
Muito obrigado a todos, muito
obrigado Balbina Mendes, é muito bom estar aqui!
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