Ensaio
©Manuel Cardoso
Redigido sem recurso à IA.
Trata-se dum primeiro ensaio, apresentado nas XXIX Jornadas Culturais de
Balsamão, em 2 de Outubro de 2026, e haverá um segundo, em preparação, sobre a Feira de São Pedro em Macedo de Cavaleiros no
Século XXI.
Esta versão é uma versão de
trabalho e será acrescentada, corrigida, etc. ao longo do tempo.
Se alguém pretender fazer sugestões, pode escrever nos comentários ou utilizando o email: mcardoso.mmacedo@gmail.com
Fotografias antigas serão bem-vindas.
A Feira de São Pedro é um dos
acontecimentos principais de Macedo de Cavaleiros e é uma fusão de antigas
tradições de mercado e economia, de festa e de celebração. Representa comércio,
história, trabalho, cultura, turismo, política e vontade de futuro, além dum sentido
de encontro, aprazado entre pessoas, e de uma ideia de alegria. Com um
esplendor que se tornou notável a partir dos anos oitenta do século XX, tem um
passado bem mais antigo. E pode ter um longo futuro!
O tempo anterior
No território que hoje é ocupado pelo
concelho de Macedo de Cavaleiros, houve e há diversas feiras, algumas com
antigas tradições e que ainda persistem, tendo, noutros casos, ido desaparecendo.
As feiras de Chacim, que eram a 19 de cada mês e que adiante explicaremos; de
Podence, no segundo Domingo do mês, tendo havido uma antiga junto à capela de
Santo António que entretanto se arruinou,[1]
e sendo muito importante como feira de gado; de Morais, que era nos dias 8 ou no
primeiro Domingo do mês, conforme as épocas, tendo havido um tempo em que se
fazia uma anual, a 30 de Novembro; de Bagueixe, mercado mensal de almocreves
com barros e quinquilharias, realizando-se uma anual em 13 de Dezembro; de
Grijó, que anualmente era muito concorrida no dia de Santiago e no dia 15 de
Agosto, mais tarde no dia de São Bartolomeu, com venda de sedas e casulos e
todo o tipo de apetrechos e necessidades para a produção de bichos da seda e
seu manuseamento, assim como de amoreiras e folhas de amoreira[2];
dos Cortiços, “faz-se nesta villa uma feira franca no dia vinte e um de cada
mês e finda no mesmo dia”.[3] conheci
As feiras de Chacim eram das
principais, não só mensalmente, a 19, como dissemos, mas também com especial
relevo a Feira de S. José, dita de ano, a 19 de Março, pelo
comércio de tudo, mas principalmente de gados e de cavalos, cabedais e artigos
de barro, e a de 10 de Setembro (realizada a 8 em alguns períodos), hoje em dia
conhecida como das cebolas, chamada também de Azinhoso por
coincidir com a do mesmo dia dessa antiga povoação, e que era notável pela
quantidade de gente que juntava, relacionada com a produção e comércio de sedas,
ourivesaria e tudo o que estivesse relacionado, secularmente esplendorosa pelos
muitos carros carregados de cabos de cebolas que lhe davam e dão o nome. Nas
Memórias Paroquiais de 1758, subscritas pelo Abade Gaspar da Rocha Ferreira, o
texto é muito expressivo e há duas frases que ilustram bem esta faceta da
realidade de Chacim: “O que mais há são muitas amoreiras de folha preta e
algumas brancas que não há outra povoação na Província [Trás-os-Montes] mais
natural nem igual para semelhantes árvores. E pela dita abundância se cria
bastante seda a que podem administrar os moradores e sempre se vende muita
folha a diferentes pessoas de diversas partes e lugares, e também é fértil de
cebolas, as melhores da Província”.[4]
Com a crise relacionada com a
produção de seda em Chacim, ao longo do século XIX, e que aqui não vamos
dissecar, terá caído a importância financeira dos seus mercados e feiras, a que
se veio juntar a política anticlerical dos governos a seguir à nossa guerra
civil e cujo impacto negativo em Balsamão se reflectiu, em todos os níveis,
inevitavelmente, no concelho e na vila de Chacim.
Umas das minhas recordações de
infância tem a ver com as feiras de Chacim, aonde eu ia com o meu Pai: a
multidão e as vozes, os carros de bois e algumas camionetas carregadas de
produtos, os cabanais onde havia de tudo, as cebolas na de Setembro, encabadas
e entrançadas e empilhadas com arte, os cheiros, e, inesquecível, o almoço no Napoleão,[5]
o meu prato feito, que eu segurava na minha mão antes de me ir sentar,
retirando-se na lareira, de grandes potes de ferro, os estufados de coelho, de
galinha, de vitela, ou o que fosse, tudo tão aromático e bom, a desfazer-se com
o garfo numas batatas como já não há, e uma voz de avental a sobrepor-se, a
perguntar ao grupo sentado à mesa, coberta de oleado, segurando numa panela: “alguém
quer arroz?”.
§
Macedo dos Cavaleiros crescia
naturalmente pela importância da
centralidade e fecundidade do seu vale, sendo cruzado pelas diligências
e todo o trânsito animal entre o sul e o norte do Distrito, o leste e oeste da Província.
Almocreves, viajantes, gente de todas as categorias se encontrava em Macedo. Para
quem partia de Bragança, ou para se mandarem mercadorias, como vinho e cortiça,
na segunda metade do século XVIII e primeira metade do século XIX, uma das
rotas preferenciais entre esta cidade e o Pocinho, para se atravessar para as
Beiras, ou na Foz do Sabor, onde se apanhavam as barcas e rabelos do Douro e se
punham a boiar as almadias de cortiça para se ir ter ao Porto, essa rota
passava por Macedo, ainda antes das estradas do fontismo[6].
Também a Igreja escolhia Macedo para assembleias e encontros pela centralidade
de São Pedro de Macedo dos Cavaleiros, sendo uma Reitoria que regia três
aldeias à sua volta, Travanca, Nogueirinha e Gradíssimo. Por isso, em Macedo,
paulatinamente, com movimento nas tabernas e albergues, animados de
forasteiros, com as aposentadorias dos viajantes mais ilustres nos seus
solares, tudo concorria para que a população fosse crescendo, a ponto de,
chegados a meados do século XIX, a aldeia de Macedo ser equiparável,[7]
em edificado e em número de habitantes, a Chacim.[8]
A centralidade geográfica e resiliência populacional, mau grado todas as crises
do século XIX, fizeram com que a partir de 1853 tivesse passado a somar-se mais
um factor ao seu crescimento: o ser a sede de serviços administrativos e
judiciais duma vasta área que aglutinava
os antigos concelhos de Cortiços e Chacim.[9]
Embora não tenhamos encontrado uma
insofismável fonte escrita que no-lo confirme, é tradição que em Macedo se
realizava um mercado de tendeiros e almocreves, uma vez por mês, no adro
lateral e fronteiro à antiquíssima igreja matriz de São Pedro. Mas já se encontra
documentado nas Memórias Paroquiais, respondidas pelo Reitor, Padre Aleixo
Borges de Carvalho, em 15 de Abril de 1758, que “neste lugar se faz uma
feira dia do Apostolo Sam Pedro que hé livre e nam dura senam hum dia e nam
completo”, e este facto é importante. Tratando-se duma feira no dia do
orago da paróquia, radica, assim, já de há muitos anos, a realização duma feira
anual nesta data e em honra de São Pedro. Anos depois, esta feira ocorria
mensalmente nos dias 29, vendendo-se nela gados, géneros, ferragens, carne
seca, etc. e, na de Agosto, eram vendidos artigos de seda[10].
O local da realização destes mercados
e feiras foi variando ao longo do tempo. Se imemorialmente era no espaço junto
da igreja, o mais natural e comum era que fosse nalgum sítio propício junto do
casario da terra, uma vez que a igreja ficava algo afastada, e a terra era
ainda relativamente pequena. O Largo “de dentro” no Prado dos Cavaleiros terá
sido eventualmente o seu cenário e, depois, mudou-se para o espaço fronteiro ao
solar Costa Macedo (a que hoje chamamos Casa Falcão), então chamada a Praça de
Baixo, uma vez que aí paravam as diligências, havia um quiosque para os
viajantes poderem beber água, vinho ou capilé, estavam as tabernas, para
emborcarem alguma vitualha, e uma alquilaria com forja e mantimentos, que
prestava atenção aos cavalos e à mecânica desses veículos[11].
Era um local ideal para uma feira. Mas, a já vila desde 1863, ia crescendo, e a
Câmara mandou construir umas bancadas para o mercado, mais abaixo, no espaço em
que habitualmente se faziam os medeiros e servia de eiras comuns,
disponibilizado pelo Morgado Oliveira (Bernardino José d’Oliveira), na área
fragosa e lisa em que o caminho de Travanca se desviava da estrada real para os
Cortiços. A mais antiga fotografia panorâmica conhecida de Macedo mostra bem
essas bancadas para os vendedores do mercado.[12]
Sendo que é do conhecimento geral que as feiras dos animais se faziam num local
diferente, durante muito tempo por isso denominado toural, correspondente aonde
é hoje a Alameda Nossa Senhora de Fátima.
Macedo de Cavaleiros na segunda metade do século XIX. No lado esquerdo desta foto vêem-se as bancadas de pedra, que eram em cantaria de granito, para os vendedores, na Praça das Eiras. Muita coisa mudou desde há cento e cinquenta anos! Foto do meu arquivo pessoal, já publicada noutros locais e livros.
É muito interessante saber-se que até
aos anos oitenta do século XX as feiras foram realizadas habitualmente na Praça
das Eiras e ocupando a Rua Pereira Charula (durante dezenas de anos chamada Rua
Direita) consoante as necessidades de espaço para que os feirantes e tendeiros
pudessem montar as suas tendas e expor no chão, directamente ou em cima de
mantas ou palha, ou em cestos e canastras, os seus produtos. Excepcionalmente,
por obras ou outra necessidade, as feiras também se realizaram quer na Praça do
Prado de Cavaleiros), quer na Rua da Estação (Avenida D. Nuno Álvares Pereira),
quer nas imediações do edifício do mercado, ou ainda noutros locais de
conveniência.[13]
A Praça das Eiras nos anos oitenta/noventa do século XX, antes de efectuadas as obras que a reconfiguraram como é hoje. Fotografia do arquivo de João Ferreira Pires.
Como a vila atraía pessoas e era
passagem de forasteiros, não escapou ao radar dos almocreves que há séculos o
Rei D. Manuel permitira que se fixassem na zona raiana de Vimioso, e algumas
famílias, que começaram por vir com o seu macho, tenda e artigos, se fixaram com casa aberta e negócios de tudo,
inclusive de ouro e dinheiro. Mudaram-se de Chacim mas foi de Argoselo e,
sobretudo, de Carção, que a maioria veio e representou um incremento populacional e de
grande movimento na praça de Macedo. Um crescimento enorme para a época, com
casas e arruamentos, a que não foi estranho o íman que representou a construção
do caminho de ferro e a abertura da estação de passageiros e mercadorias, a
partir de 1905.
É interessante saber-se que qualquer
pessoa podia ir comprar ou vender à feira, mesmo que não fosse um almocreve ou
feirante de profissão. Bastava-lhe pagar uma senha a um fiscal da Câmara e
adquiria o direito a ali estar, ordeiramente e num lugar a isso destinado, a
vender os seus ovos ou galinhas ou o que fosse. Várias vezes fui lá vender
coelhos e comprá-los, também, com grande excitação e alegria.
Nos finais do século XIX e início do
século XX as feiras passaram a ser a 18 e 29 de cada mês e os mercados de
géneros e animais menores às quintas-feiras e Domingos.[14]As
principais produções do concelho, nesse tempo, eram o azeite, castanhas,
batatas, cereais e lã. Já não se referia a seda…
Nos meados do século XX mantinham-se
os dias do mercado e passara a haver feiras também nos dias 6.[15]
O dia de feira era antecipado um dia, se calhava ao Domingo (mais tarde os que
calhavam ao Domingo passavam para Sábado e os que calhavam ao Sábado, para
sexta-feira). Mas os regulamentos e posturas referentes às feiras foram muitas
vezes ajustados e modificados, sempre com polémicas entre os comerciantes da
terra, que, apesar de nesses dias verem aumentados os seus lucros pelo afluxo
de pessoas à vila, também experimentavam ciúmes e algumas mágoas por causa dos
negócios que lhes eram subtraídos pelos negociantes ambulantes, muitas vezes
acusados de deslealdade e especulação. Inter duos ratio incerta est…[16]
“As feiras daquele tempo! Tudo se
concentrava na Praça das Eiras. As hortaliças fresquinhas, biológicas avant la
lettre, trazidas das veigas fecundas das aldeias vizinhas. A fruta – a boa maçã
bravo-de-esmolfe, a pêra e a ameixa, a nêspera e o diospiro, o melão da
Vilariça, os raminhos de cerejas a quinze tostões na novidade. As tendas onde o
aldeão encontrava todas as alfaias e ferragachos para a casa e o amanho das
terras. As louças churras artesanais. Os tamancos. As samarras com gola de
raposa e os capotes alentejanos. Um outro ourives, com o seu mostruário
especioso. E, em torno de tudo isto, o fervilhar do povo atarefado nas mercas,
cada qual buscando os precisos para o seu governo. Brueghel, o Velho, não teria
desdenhado tanto bulício e colorido. Desfeita a feira, a Praça das Eiras
esvaziava-se, devolvia-se à pacatez dos plátanos e das recordações dos anos
vinte: os bancos, o coreto e o tanque de três bicas, onde as raparigas vinham
encher o cântaro para fazer o jantar”.[17]
A feira principal do ano era a Feira
dos Segadores, como lhe chamaram depois da República para a destacar da romaria
do nosso São Pedro. Era uma Feira que marcava um compasso do ano, por ser o
ponto focal para a contratação dos ranchos que fariam, a partir daí, as ceifas.
Durante anos e anos, Macedo foi um concelho produtor de apreciáveis quantidades
de trigo, centeio, cevada e aveia, e, sobretudo os dois primeiros cereais, a
área enorme que era coberta pelas searas obrigava a uma contratação de
numerosos ceifeiros e ajudantes.[18]
No dia dessa feira, logo de manhã, pela alva, chegavam ao Largo Central (a
Praça Agostinho Valente) e à Rua Direita, os ranchos com os seus capatazes,
sentando-se em magotes pelas soleiras das portas, nas escadas do Solar do
Morgado, encostados às paredes das casas mais expostas ou mais à sombra,
conforme o dia, aguardando que se seguissem as conversas e os ajustes com os patrões
que os contratavam. Aperto de mão, “está tudo pronto, vamos à robra!”, copo
ou merenda na Corina, no Contins[19]
ou noutra taberna das imediações, e levantavam-se a passo, pegando nas trouxas
e apetrechos e seguindo o seu destino. Nem sempre de forma pacífica. A
rivalidade nos ajustes e negócios, invejas, ciúmes e copos, uma mistura
perigosa que provocou numerosas zaragatas e crimes.[20]
Impossível não dar a reler aqui mais um
texto de António Manuel Pires Cabral: “(…) acudiam à vila os segadores em
busca de quem os justasse. Vinham todos os anos de terras longínquas para
aproveitarem a oportunidade sazonal de ganhar umas jeiras que lá nas suas
terras não avezavam nessa altura do ano. E com eles vinha uma alegria desusada
às ruas de Macedo, sobretudo na Feira de São Pedro, a 29 de Junho. Não tinha
nada a ver com o grande certame agro-industrial e gastronómico e não sei que
mais em que se transformou. Era feira de um dia só, também chamada Feira dos
Segadores, pois eram estes efectivamente os protagonistas da jornada. Estou a
vê-los: em bandos numerosos e garridos, a que se chamava camaradas, cada bando
como que arregimentado sob o seu pendão, desfilavam pelas ruas centrais da
vila, entre cantigas e o seu pezinho de chula, à espera de lavrador que os
apalavrasse.
Feito o ajuste, lá iam no dia marcado
para o calvário imenso da segada, também ela feita entre cantigas – mas agora
dolentes, como se a música fosse o único queixume de andar dias inteiros,
dobrado pelos rins, curtindo sóis e sedes, a segar o pão”.[21]
§
Não era todos os anos, mas quer o São
João (23 e 24 de Junho), quer o São Pedro (29 de Junho), quer a Santa Bárbara
(28, 29 e 30 de Julho), quer, ainda, a Santa Casa da Misericórdia (24, 25 e 26
de Agosto), eram comemorados em festa de romaria em todos esses dias, em
Macedo.[22]
Havia sempre uma dimensão religiosa, com missa e procissão, nalguns casos. A
que se somavam as bandas de música, que as acompanhavam e depois davam concerto
no Coreto ou nalgum palco montado para o efeito, os foguetes, as verbenas,
mobilizando estas um numeroso grupo feminino que cozinhava caldo verde, rancho
e feijoada, assavam carne e sardinhas, sendo tudo consumido e pago, revertendo
os lucros para as comissões organizadoras, que depois os entregavam à Igreja,
aos Bombeiros, à Santa Casa da Misericórdia, ao Clube Atlético[23],
conforme os objectivos previamente anunciados. Também havia baile, ou em
arraial ou num salão de festas. E outros eventos simultâneos que serviam de
cartaz e chamariz para atrair visitantes e mobilizar as pessoas da nossa terra:
gincanas, tiro-aos-pratos, corridas de bicicletas, desafios de futebol,
concursos (por exemplo, o Concurso das Janelas Floridas).
No caso de São Pedro, parece, dito
assim, que tudo ficava resumido a um dia, mas não: na realidade, em muitos anos
a festa começava com o São João, em cuja noite se acendia uma fogueira e havia
arraial ou, quando o Jardim em frente à Câmara Municipal passou a ser um palco
privilegiado, a partir do final dos anos quarenta e nas décadas seguintes, nessa
mesma noite se dava início às verbenas, em tendas provisórias e em mesas
montadas para o efeito, com a retaguarda de serviço a ser montada no portão que
o edifício da Câmara tinha (e tem) no largo detrás dos Correios, mesas
enfeitadas instaladas no “cimento”, nada de se pisarem os canteiros![24]
Durante essas noites havia festa, contínua ou com um ou outro dia de intervalo,
a que se seguiam os sábados à noite até à Santa Bárbara. Cantava-se, ouvia-se
música nos altifalantes, dançavam-se tangos, valsas e pasodobles.
Cada uma das festas, na realidade,
tinha comissões separadas, embora pudesse haver um ou outro elemento
coincidente, e reflectiam as diferentes visões políticas do momento. A noção de
muitos, de que antigamente se vivia numa sociedade uniforme e cinzenta, é
enviesada e incompleta: mesmo no regime do Estado Novo havia diferentes
tendências e sensibilidades, comprometidas ou não com o regime, e que tinham
expressão social. Não havia diferentes partidos políticos mas havia diferentes
maneiras de se expressarem as aspirações de cada grupo. No plano de Macedo,
simplificar a coisa como havendo monárquicos e republicanos, no período antes
do 28 de Maio, ou que, depois, só havia a União Nacional e os do reviralho,
assim como, já na Democracia, dividir entre esquerda e direita ou entre
socialistas e pêpêdês, é ignorar o conhecimento das pessoas que os
protagonizaram – e isso foi importante!
Até nas festas, além do plano
religioso, se manifestam capacidades que visam não só o Bem-Comum mas a ideia
em particular do Bem-Comum que determinado grupo tem. E não há só a
boa-vontade, há a ciumeira ou rivalidade ou desejo pelo poder dos que assistem
a esse jogo social e resolvem nele associar-se com o seu desígnio, e dar o
corpo ao manifesto, sendo o motor que leva a que haja inovação, se siga em
frente e se crie uma ruptura criadora na forma de se empreender e realizar a
festa e a feira.
Tinha sido assim que, no Ano de 1922,
um grupo visionário de gente da praça macedense levara à prática a vinda do
primeiro avião que aterrou em Trás-os-Montes, e daqui decolou, na comemoração
de Santa Bárbara em Macedo de Cavaleiros. Um acontecimento extraordinário a que
deveríamos dar muito mais importância.[25]
Cinquenta anos depois, em 1972, haveria festas em Macedo a comemorar esse feito
histórico.[26] Entre
umas e outras, houve outras festas e feiras memoráveis em Macedo, que deixaram
no imaginário e nas realizações uma pegada indelével: os Cortejos de Oferendas
da Santa Casa da Misericórdia de Macedo de Cavaleiros (19 de outubro de 1947,
18 de Novembro de 1951, ), as Jornadas Religiosas (Jornada Mariana em 4, 5 e 6
de Outubro de 1946), as Festas de Inauguração do Hospital Sub-Regional da Santa
Casa da Misericórdia (19 de Julho de 1953), as Festas de Comemoração do
Centenário, em 1963. [27]
E nos anos setenta estava em crescendo uma festa religiosa em Setembro,
entrado o Outono, que atraía milhares de pessoas e para a qual havia serviço
combinado de transporte ferroviário e rodoviário, com comboios especiais a
pararem na estação do Azibo (Vale da Porca), realizando-se paralelamente, pelos
romeiros, múltiplos pic-nics pelos lameiros à volta. Com proibição expressa de haver
feirantes a exercer actividade dentro do recinto ou de nele se dançar ou ouvir
música profana. Com os anos, acabou por ser mudada para Agosto, e por surgir uma
“feira” na estrada confinante e tendas de petiscos e bebidas com a
tradição recente de, na véspera da festa, se ir “comer a vitela”. Esta
festa de Santo Ambrósio tinha um grande impacto na vila pelo movimento gerado
na véspera e no dia em que se faziam as cerimónias religiosas, geralmente a
culminar uma novena preparatória, na aldeia de Vale da Porca.
É sintomática a nota do
correspondente do Mensageiro de Bragança, Manuel Ferreira, sobre a Feira de S.
Pedro de 1970: “O dia 29 de Junho, dia de S. Pedro, é aproveitado pelo
comércio, para a realização da feira de ano. E, como é de tradição, o movimento
era intenso. O dia convidava a bons negócios. E, nem faltavam os artigos de
cerâmica, para que os namorados troquem os seus “S. Pedros”. Feira de ano e,
também, dia dos segadores. Nota-se um movimento desusado de segadores, que
vindos de vários pontos do Distrito, fazem os seus contractos de ceifas, mas,
devido à mecanização, os segadores já não são em número que outrora o foi. E à
emigração. E tudo aproveitou com a feira de S. Pedro”[28].
Ainda a década de setenta viria aí e já há um sentimento de mudança provocado
pelas próprias alterações sociais, o progresso da mecanização, a emigração, que
modificavam as circunstâncias do acontecimento, assim como há uma notória
ausência de referência aos animais, já há anos que o toural era pouco
preenchido nas feiras e iriam mesmo desaparecer de todo os negócios
relacionados com os suínos e o gado de qualquer espécie, na vila de Macedo,
meia dúzia de anos depois substituída definitivamente pela ascenção de
importância da feira de Podence, que passaria a ser a mais importante feira de
gado da região, ainda antes do fim do século. A nota do jornal prossegue com um
lamento pelo local em que nesse ano se realizaram as verbenas de S. João e de
S. Pedro, já que o não foram no Jardim Doutor Oliveira Salazar, “o local
mais apropriado”, mas num recanto que “em nada viria a beneficiar os
organizadores, os Bombeiros Voluntários”.[29]
Esta referência às festas mais
memoráveis, que não se circunscrevem à feira propriamente dita nem ao
cerimonial religioso duma invocação do Santo, vem a propósito deste pequeno
ensaio sobre a Feira de São Pedro de Macedo de Cavaleiros, porque tal terá sido o que esteve em mente
daqueles que, cerca duma década depois das últimas grandes festas de 1972
(embora depois tenha havido as habituais, anualmente, quer na vila quer nas
aldeias, que aqui não tratámos), vieram a incorporar o espírito multifacetado
duns mordomos que, embora não a referindo, assumiram a herança do que foi o
tempo anterior à Feira de São Pedro nas décadas e séculos que a antecederam.
Com uma forte, muitas vezes inconfessada, componente política.
Nesse princípio da década de setenta,
sopravam por todo o Nordeste Trasmontano os novos ventos das ideias do Eng.º
Camilo de Mendonça, que à sua volta tinha congregado uma plêiade de técnicos e
jovens quadros, a quem tentava insuflar uma nova mentalidade, voltada para o
estrangeiro e para imitar dentro de portas o que de melhor se fizesse lá fora.
Macedo era palco frequente das reuniões que se faziam quer da Federação dos
Grémios da Lavoura do Nordeste Trasmontano, quer dos convidados que vinham
expor ideias e projectos aos presidentes das Casas do Povo e aos dirigentes
Cooperativos e de demais organismos de carácter social.
Existia, por isso, o combustível para
que surgisse uma nova chama e para o que viria a ser, em 1983, a primeira
tentativa da Feira de São Pedro de Macedo de Cavaleiros. Entramos, desde esse
ano, no Tempo de Agora. Mas com antecedentes.
O Tempo de Agora
Na década de 70, o crescimento do PIB
de Portugal era de 14%, 13%, 22%, 34% ao ano, respectivamente em 1970, 1971,
1972 e 1973[30]. E esta
taxa de crescimento, apesar de termos emigração, apesar de termos o serviço
militar obrigatório e a mobilização para a Guiné, Angola, Moçambique e outros
territórios, reflectia-se também na nossa região. Ter um carro deixara de ser
um luxo só para alguns e aumentava o nosso parque automóvel, quer de ligeiros
quer de pesados para mercadorias, quer de tractores e máquinas e alfaias
agrícolas. Construía-se, em Macedo, e abriam-se novas ruas. Havia investimentos
em curso em unidades de produção agro-industrial, como a da Cooperativa
Agrícola de Macedo, os ovis de Travanca, as novas barragens (tinha sido feita,
em Macedo, em emergência para suprimento de água à vila, a da Carvalheira, por
iniciativa da Federação dos Grémios da Lavoura, e aguardava-se a adjudicação da
Barragem de Santa Combinha no âmbito da execução do Plano de Fomento ou duma
linha de investimento próprio, proveniente dos lucros obtidos com a exportação
dos produtos agrícolas produzidos no Nordeste, já que o Governo de Marcello
Caetano celebrara, em 9 de Fevereiro de 1972, um acordo de associação de
Portugal com a CEE, denominado Acordo de Comércio Livre entre Portugal e a
Comunidade Económica Europeia)[31].
Tinham vindo técnicos estrangeiros para trabalhar, e que residiam em Macedo, ou
outros que vinham aqui frequentemente, ligados à produção de plásticos e de
cogumelos, à mecanização agrícola e à produção pecuária, para além dos que se
encontravam já cá, fruto da captação que deles fazia o Eng.º Camilo de
Mendonça, tentando fixar na nossa terra os recém-licenciados e diplomados,
preferencialmente conterrâneos. Havia um sentimento de que estávamos a cavalgar
um novo progresso e tal reflectia-se no estado de espírito das pessoas e no dia
a dia. Em Macedo tinha surgido o primeiro supermercado moderno da região, o
Novo-Dia, com um snack-bar ao lado que nos fazia pensar estarmos numa grande
cidade, e inauguraram-se novos cafés e salões de bilhar, como o Apolo. Abria ao
público uma agência bancária por ano, o que dava empregos, trazia mais gente e
produzia optimismo. Faltava imenso, claro, desde infraestruturas de
comunicação, electrificação rural, saneamento básico e abastecimento de água
potável, estruturas de saúde e de ensino, mas estava tudo em marcha e as
inaugurações e, sobretudo, inovações,
sucediam-se a bom ritmo. Havia entusiasmo e optimismo.
Um dos locais frequentados pela elite
pensante da época, era a Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros, ponto
focal quase obrigatório e ímpar, e local de passagem para os que, de fora,
demandassem a nossa região. No ambiente da Estalagem respirava-se, nas
conversas, o ambiente social progressivo e optimista desse tempo. Ora, certo
dia, em 1971,[32] numa
das mesas em que coincidiram Álvaro Miranda Guedes[33],
Eduardo Saldanha[34], Nuno
Venceslau[35], José
Mascarenhas[36] e José
Manuel Dias Liberal[37],
surgiu ventilada a ideia, e foi desenvolvida, da realização duma feira de
âmbito regional, em Macedo de Cavaleiros, que se denominaria Feira
Agro-Industrial do Nordeste. Chegaram a ser feitas diligências nesse sentido,
enviadas cartas de desafio e convite. A ideia só viria a ser concretizada,
contudo, na década seguinte.
Primeiro, por iniciativa da Câmara
Municipal de Macedo, em 1982, mas tal revelou-se um flop e não foi organizada a
Feira de São Pedro como viria a ser conhecida no futuro, apesar das festas
terem decorrido da melhor forma, a feira de ano ter atraído muitos forasteiros
e as festas terem sido muito participadas pela população.[38]
Assim como no ano seguinte, não
passou das intenções. Pelo que no final desse mesmo ano, a autarquia, com
bastante frisson político, decidiu finalmente dar nova dimensão à tradicional
Feira Anual de São Pedro, associando-a em simultâneo às Festas da Vila como
vinha fazendo, mas abrindo-a às novas ideias que se discutiam e para a
concretização das quais nomeou uma comissão e um secretariado.
Uma dúzia de anos depois das
tentativas de 1971-72 (embora sem o mencionar) e das falsas partidas de 82-83, emperradas
por tricas políticas, pretendia-se conseguir uma projecção regional para um
evento que se revelasse de grande impacto e promoção da vila e do concelho,
atraindo visitantes duma forma multidisciplinar e moderna. Foi criada uma
Comissão Organizadora da Feira de São Pedro e Festas da Vila. Com cinco
sectores: Feira, Publicidade, Cultura, Desporto e Finanças. Havia um Secretariado
da Feira propriamente dita, com José Manuel Dias Liberal como coordenador e
mais dois outros elementos, Manuel Luís Gomes Vaz[39]
e Fernando Rui Castanheira Pinto,[40]
sendo ainda membros da Comissão, mas sem fazerem parte do Secretariado
autónomo: José Mascarenhas, José Coutinho[41],
António Baptista[42],
Alfredo Augusto Vaz[43]
e António Afonso[44]. A
Câmara Municipal prometia e viria a cumprir mobilizar para tal os recursos
possíveis e necessários e o apoio foi unânime.
A Câmara Municipal[45]
apoiou a Feira desde o seu início[46]
e politicamente fez passar a imagem duma grande Feira
Agro-Pecuária-Industrial de São Pedro.[47]
O secretariado organizador,
verdadeira comissão executiva, tinha autonomia e apresentava contas das suas
despesas e receitas. 1984 (de 23 de junho a 1 de Julho), 1985 (de 22 a 30 de
Junho) e 1987 (de 24 de Junho a 1 de Julho) repetiram o modelo e tudo correu
bem para o público e para a organização. Não se realizou a de 1986.
É muito interessante estudar o cartaz da Feira de S. Pedro – 84. Contém um Programa Geral detalhado com os horários e actividades: inauguração oficial “com membros do governo”, com visita aos stands e sendo “guiada para a imprensa”, conferências e projecção de filmes sobre temas agrícolas, provas de tractores, concursos entre os expositores; e um destaque para Actividades Culturais e Recreativas (em que constam os arraiais noturnos, um desfile etnográfico, actuações de ranchos folclóricos e da artista Alexandra – no dia 29 – e, até, uma exposição filatélica), Actividades Religiosas (pregações, bênção e inauguração do Centro Paroquial S. Pedro, Missa campal no Jardim – no dia 29 – e procissão às 18.00h pelas ruas da vila) e Actividades Desportivas (torneios de tiro aos pratos, prova de perícia automóvel, um jogo de hóquei em patins entre Macedo e Bragança, prova de corta-mato, ginástica e, claro, futebol, incluindo futebol feminino!). Decorreria ainda, durante o período da feira, o 2.º Concurso de Radioamadores do Nordeste Transmontano.[48]
Ficava, assim garantido que, desde o
início, a Feira de São Pedro tivesse um carácter comercial, cultural, festivo e
religioso e, desse modo, procurava atingir, no bom sentido, a todos, e a todos
atrair para a novidade, para a festa, para o núcleo aglutinador e centrípeto de
Macedo de Cavaleiros moderno e do antigo Macedo dos Cavaleiros. Não seria só
uma comemoração: seria uma proclamação duma terra que ansiava crescer e
dotar-se o melhor que pudesse e soubesse, aspirando a muito mais.
Não se esgota nos empresários
expositores, uma centena, o que foi um enorme sucesso para uma primeira vez!, que
tiveram de mobilizar meios e recursos para estar presentes nos stands e espaços
de automóveis, tractores, máquinas e alfaias, nem no secretariado, que mal
dormiu nesses dias, nem nas hospedeiras, incansáveis no seu afã e sorrisos, nos
operários que montaram os stands, transportaram materiais, colocaram cartazes e
toldos, alinharam mesas e cadeiras, electricistas, que acorriam às quebras e
interrupções do fornecimento de energia eléctrica duma instalação provisória,
nem em todos os que concorreram para tornar possível o certame. Nestes casos há
sempre um prévio trabalho invisível de todos os que tiveram de organizar e
cuidar de que na terra se pudessem receber os visitantes na Estalagem, nas
Residenciais e Pensões, nos restaurantes e cafés. Tudo teria de estar
impecável. E ainda o trabalho do Pároco, a coordenação com a Comissão
Fabriqueira e Zeladoras para o arranjo dos altares e andores, dos figurantes na
procissão, da necessidade de se programar horas, trajectos e locais para as
cerimónias de culto.
Quase todos os jornais fizeram
referência antes, durante e depois desses dias frenéticos, alguns enviando
jornalistas para fazer a cobertura e as notas e títulos elogiosos foram
frequentes. É documental ler os Mensageiro de Bragança de 13 de abril (capa e
págs. 8 e 9), 22 (capa e págs. 8 e 9) e 29 de Junho (pág. 3), e o de 6 de Julho
de 1984 (págs. 6 e 7).
A Feira de S. Pedro 1984, “grande
Feira Agro-Industrial do Nordeste”[49],
foi inaugurada no dia 23 pelo Secretário de Estado das Obras Públicas, Eugénio
Nobre[50],
na presença do Presidente da Câmara, Governador Civil, de outros autarcas de
concelhos vizinhos, todas as autoridades civis do concelho, PSP e GNR, da
Comissão Organizadora da Feira, das bandas de música de Lamas e a Fanfarra dos
Bombeiros, Eng. Menéres Manso (Presidente do Conselho de Administração do CAICA
– Cachão), e de toda a população em geral. Após os discursos e corte de fitas,
avalanche geral, encanto de todos!
Entre os pavilhões institucionais
mereceram destaque os do CAICA – Complexo Agro-Industrial do Cachão, o da
Direcção Geral das Florestasn., o da Direcção Regional de Agricultura de
Trás-os-Montes e o da Estação Aquícola de Vila do Conde[51].
Como refere uma das reportagens do MB, “seria um nunca acabar, se
pretendêssemos trazer para aqui referências a todos os pavilhões que se
apresentaram com dignidade”.[52]
Houve colóquios importantes, assim
como a projecção de filmes, no salão nobre da Câmara Municipal.
O Ministro da Educação, Professor
José Augusto Seabra, também visitou esta Feira de S. Pedro, assim como o
Ministro da Saúde, Maldonado Gonelha. Um do PSD e outro do PS, estávamos no
tempo do Bloco Central[53]
e ambos os partidos não queriam deixar que o povo notasse a omissão de qualquer
deles… Aliás, a partir dessa primeira vez, a Feira de São Pedro
transformar-se-ia, e até hoje, num hotspot para políticos de todos os
quadrantes e são centenas os nomes de Dirigentes Partidários Nacionais,
Primeiro-Ministros, Ministros e Secretários de Estado, Deputados, Dirigentes
Distritais dos Partidos, etc. a cumprir com a sua presença a visita à Feira de
S. Pedro, normalmente acompanhados dos seus acólitos locais.
Tal como se tornaria num hotspot para
cantores e artistas.
§
O trabalho de planeamento e contactos
para a Feira começava muitos meses antes, alguns ficavam já do ano anterior. O
Secretariado tinha de iniciar funções quanto antes e proceder às reuniões
necessárias.
Era da praxe que o Presidente de
Honra fosse o Presidente da Câmara e, por isso, até 1993 foi-o António Joaquim
Ferreira.
O Secretário Coordenador para as
Feiras de 1985 e 1987 foi José Liberal, assim como Luís Vaz se manteve para as
Conferências e José Mascarenhas para a publicidade. Para as “Relações com o
comércio local” aparece Tozé Vaz[54]
em ambos os anos, e, para a planificação, Fernando Rui Castanheira Pinto e
António Correia Pires[55].
Em 1987, a acrescentar aos nomes anteriores, há os de João Lopes[56],
António Pimentel[57] e
Albino Pires[58],
responsáveis por “Obras”, “Actividades Recreativas/Culturais” e “Serviços
Administrativos”, respectivamente.
As três feiras foram um sucesso,
deram saldo financeiro positivo e cumpriram a sua função de ser um vento novo a
soprar sobre Macedo, a atrair gente e a levar nome, granjeando capital de fama
como era o objectivo dos organizadores e enchendo de orgulho todos os
macedenses.
§
Entretanto, tinha havido um
acontecimento que é importante não esquecermos de referir e situarmos no
contexto da época, sobretudo no campo político: no dia treze de Agosto de 1987,
no Cartório Notarial de Macedo de Cavaleiros, tinha sido constituída a
Associação dos Amigos da Feira de S. Pedro, tendo comparecido como associados
fundadores: António Albino Choupina Pires, António José Rodrigues Vaz, José
Manuel Dias Liberal, António Joaquim Ferreira, João Lopes, Manuel Luís Gomes
Vaz, Fernando Rui Castanheira Pinto, José Adriano Carneiro Mascarenhas, António
Tomaz Correia Pires e António Manuel Ferreira Pimentel. A AAFSP teve por
objectivo, desde esse seu início: promover, realizar e coordenar as
actividades que visem dotar a Feira de S. Pedro dos meios necessários ao pleno
desenvolvimento técnico, cultural e económico-social da Região Transmontana.
Relendo nos jornais as notícias autárquicas da época, transparece uma alteração
que tinha havido na política local de Macedo de Cavaleiros. Na sequência das
eleições autárquicas de 15 de Dezembro de 1985, o PSD perdera a maioria de
mandatos de que dispunha na Câmara Municipal (até aí houvera 4 vereadores pelo
PSD, 2 pelo CDS e 1 pelo PS), já que o resultado dera 3 vereadores para o PSD,
3 para o CDS e 1 para o PS. Ora, sem que ninguém o antecipasse em campanha
eleitoral, o PSD e o PS fizeram um acordo de governação da autarquia em que o
vereador eleito por este partido (Luís Vaz) passaria a sê-lo a tempo inteiro e,
assim, a garantir a maioria necessária a António Joaquim Ferreira, Presidente
pelo PSD, para prosseguir na sua política. Este acordo vigorou por ano e meio,
a partir de Janeiro de 1986, tendo, em meados de 1987, sido denunciado pelo
Partido Socialista.
§
Em 1988, a Feira foi “municipalizada”
e passou a ter uma Comissão Executiva cujo coordenador foi António Afonso; João
Lopes, responsável pela “Estrutura”; José Francisco Pedro, pela “Animação”;
Alberto Elísio Vaz[59],
“Publicidade e Actividades Sócio-Educativas”; João Afonso Gonçalves[60],
“Actividades Agro-Pecuárias”; Albino Pires, “Serviços Administrativos”; Manuel
Duarte Queijo, “Planificação”; Francisco Castanheira Pinto[61],
“Secretário Administrativo”.
Em 1989 quase se mantém o esquema,
mas sem João Lopes nem Albino Pires: de novo surgem no cartaz José Liberal nas
“Conferências”[62], Manuel
Duarte Correia[63] nas
“Actividades Desportivas” e Humberto Trovisco[64]
na “Publicidade”.
Na realidade, os secretariados
funcionavam em articulação com um numeroso grupo de ajudantes, quer contratados
a prazo para os dias da Feira, os de preparação e os de abertura ao público,
quer funcionários da Câmara Municipal que eram postos ao serviço expressamente
com o fim em vista. E contavam com a mobilização duma parte da população que,
voluntariamente, aceitava participar e ajudar nas tarefas que lhe fossem
pedidas, muitas vezes graciosamente. Fica aqui o registo da ACRIGA-Associação
de Criadores de Gado e dos seus trabalhadores, Médicos Veterinários,
funcionários da secretaria e auxiliares técnicos de pecuária que, de forma
inesquecível, trabalharam imenso na organização dos Concursos de Gado de Raça
Mirandesa, na preparação das Lutas de Touros, na manutenção dalguns dos espaços
com animais e na promoção dos diferentes eventos pelas aldeias dos concelhos
vizinhos.
§
A partir de 1990, inclusive, a
realização da Feira de S. Pedro passou a ser feita pela ACIMC – Associação
Comercial e Industrial de Macedo de Cavaleiros, e isso leva-nos a querer
continuar este ensaio mas de modo diferente, e que já não cabe no espaço duma
primeira abordagem. Há imenso que contar! A assunção da organização da Feira de
São Pedro pela ACIMC veio a revelar-se uma decisão acertadíssima para o sucesso
do certame e para o retorno significativo que foi gerado para a vila.
Aqui ficam os nomes dos que vieram a
presidir aos destinos da Feira de S. Pedro nas duas décadas e meia seguintes:
António José Rodrigues Vaz
Rui Manuel Rodrigues Vaz[65]
António José Teixeira Cunha[66]
Após o mandato de António José
Teixeira Cunha, a Presidência da ACISMC deixou de ter acção directa sobre a
Feira de São Pedro, durante os exercícios dos Presidentes da Câmara Dr. Duarte
Moreno e Dr. Benjamin Rodrigues. Mas toda a história deste período nosso
contemporâneo será objecto do trabalho posterior.
A concluir
A Feira de São Pedro não surgiu do
nada, nem dum mero impulso (foi preciso mais do que isso!) nem se concretizou
por simples vontade.
O pensamento e a acção tiveram que
coincidir com a necessidade de todo o povo de Macedo de Cavaleiros em
manifestar, mais uma vez, vontade de avançar rumo à modernidade. Para manter a
vida no nosso chão.
O futuro não é profetizável – mas
pode-se trabalhar para ele! E este trabalho deve começar, num mundo de uma
rapidez de inovação e mudanças avassaladoras, por cultivar os valores que
sempre nos caracterizaram: dar importância ao que é nosso, prezar sermos
delicados e hospitaleiros, termos orgulho em que nos distingam pelo bom e bem
que fazemos.
As feiras estão rapidamente a ganhar
novas formas de utilidade. As feiras temáticas e profissionais, que só abrem ao
público depois do tema trabalhado pelos seus profissionais; as feiras com
presença física e virtual e com difusão online; as feiras que conseguem
distinguir-se pela sua raridade e que fazem desta raridade e genuinidade o
motivo de atracção de pessoas.
Precisamos de trabalhar bem o tema,
de o estudar, de o tornar útil para as nossas feiras do futuro. Porque este
futuro, por muito vislumbrável que seja, uma coisa vai precisar de certeza: do
nosso trabalho e do nosso amor pela terra...
…E duma outra coisa, absolutamente
importante: da nossa devoção a São Pedro, o pescador de homens, que, com
certeza, nos vê, sempre que, em nome do que o fez pescador de homens, nos
reunimos, ou em seu nome, ao dizermos que realizamos das melhores feiras que se
fazem, no Nordeste de Portugal.
Bibliografia indicativa
A.M. Pires Cabral, Macedo de
Cavaleiros, Folheando o Tempo, Lema d’Origem, 2019.
Carlos Mendes, Macedo de Cavaleiros
Cultura, Património e Turismo, 2005.
Manuel Cardoso, Macedo de Cavaleiros
Rua a Rua, 2005.
Abade de Baçal, Memórias
Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, reed.
Armando Pires, O Concelho de Macedo
de Cavaleiros, 1963.
Carlos Baptista, Pela Noite dos Tempos, 2007.
Jornais e publicações periódicas:
Diário de Notícias
Notícias de Mirandela
O Comércio de Macedo
O Comércio do Porto
O Primeiro de Janeiro
O Mensageiro de Bragança
Notícias do Interior
Terras de Bragança
O Cipreste
[1] MAHDB,
Abade de Baçal, X, 248, edição de Junho de 2000.
[2]
Memórias Paroquiais, Grijó, 1758: “neste povo há hua feira dia de São
Bartholameu suposto principiou por romaje hoje está hua grande feira por nella
se vender muita seda que hé do que consta”. Pelo Reitor de Grijó de
Valbemfeito, Manuel Carneiro de Barros Pereira. Vide tb. MAHDB, Abade de Baçal,
II, 454.
[3] Memórias
Paroquiais, Cortiços, pelo Reitor Jozé Fernandes, 1758.
[4]
Nas referidas Memórias Paroquiais, o parágrafo referente às Feiras de Chacim é
muito revelador: “Nesta referida villa há uma feira cada mês no dia dezanove
e feira de anno em os dezanove de Março, dia do castissimo São José pai
putativo de Christo Senhor Nosso, com a duração somente de hum dia, não é
captiva mas franca. E pagam os vendedores somente pello lugar que ocupam com
suas fazendas dez réis, para gastos da cera da Semana Sancta, por ser o campo
de igreja aonde ella se faz, que hé no fundo da ditta villa, no campo da
capella de São Caetano, em que já assima e atraz se descreveo. Algum dia se
fazia dentro da villa, mas pelo discomodo do terreno se mudou pello respeito do
Excelentissimo Dom Thomaz de Almeida, Principal na Sancta Igreja Patriarchal e
sendo nesta villa abade vigilantíssimo no culto e augmentoi de sua igreja,
mandando ededicar novos portais no referido campo para as fazendas dos mercadores,
que rendem para fabrica da mesma igreja, que reformou com nova sacristia,
concorrendo para a sua febrica que he uma das milhores do Bispado, a que também
ajudaram os fregueses movidos das suas zellozas instancias, augmentando-lhe
também maior trebuna no altar maior e outros reparos bem necessários nesta
referida igreja”.
[5]
Napoleão: Casa de Pasto que ficava ao cimo do acesso à feira, no lado direito.
[6]
Fontismo: política de Fontes Pereira de Melo, que na segunda metade do século
XIX levou a que houvesse um grande investimento do Estado em infraestruturas
rodoviárias, ferroviárias, portuárias e edifícios.
[7]
Da leitura dos livros de assentos paroquiais se infere que já nessa altura
Macedo tinha quem ensinasse gramática e música, e a indicação de outras
variadas profissões, nos baptismos, óbitos e casamentos, permite ter uma visão
duma terra autónoma nas diversas artes e ofícios, nomeadamente botica
[farmácia].
[8]
Vide Carlos Mendes, in Macedo de Cavaleiros - Cultura, Património e Turismo,
Ed. Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, 2005, págs. 43 a 83.
[9] Vide
Carlos Mendes, ibid. e Armando Pires, O Concelho de Macedo de Cavaleiros, 1963.
[10]
Assim consta no Relatório apresentado à Junta Geral do Distrito de Bragança
pelo Conselheiro Governador Civil Jerónimo Barbosa de Abreu e Lima, Coimbra,
1871, citado por Abade de Baçal, MAHDB, I, 237.
[11]
Esta alquilaria, que tinha um vasto cabanal e onde se ferravam cavalos e
bestas, ficava no mesmo sítio em que veio a ser construída a primeira Estalagem
do Caçador.
[12]
Em várias publicações esta foto surge datada de 1868 por um erro de
interpretação de que fui responsável. Ponderados vários pontos de referência,
penso que será da década de setenta ou oitenta do século XIX.
[13] E nos
anos oitenta viriam a realizar-se no sítio agora ocupado pelas piscinas… mas
esse período ficará para ser contado noutro ensaio…
[14] In
Portugal, Vol. IV, pg. 632, Ed. João Romano Torres, Lisboa, 1909.
[15] In
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XV, 740.
[16]
Tradução: Entre os dois, incerta é a razão…
[17]
António Manuel Pires Cabral, texto gravado na placa toponímica que assinala a
Praça das Eiras, ao pé do Coreto, em frente ao Muchacho.
[18]
O trabalho das ceifas era todo feito à mão. A mecanização com as
ceifeiras-debulhadoras apenas chegaria com os anos sessenta, e mesmo durante
esta década e as seguintes se manteve um número, embora decrescente, de ranchos
de ceifeiros a vir trabalhar nos campos já que as características dalguns deles
não permitia o acesso e manobra das novas máquinas. A diminuição da produção de
cereais e o seu confinamento aos campos onde a mecanização é possível, fez com
que deixassem de aparecer ceifeiros a trabalhar, mantendo-se apenas a
actividade, hoje, século XXI, com fins turístico-etnográfico-culturais, como é,
por exemplo, a que é realizada anualmente em Morais, com a festa da Ceifa e a
Malha de Morais.
[19]
A Corina era o nome por que era conhecida uma taberna onde hoje é o
Bibau Bar e o Contins onde é o Hotel Muchacho, mas ficava duas portas antes
da esquina.
[20]
Tanto nas feiras de Macedo como nas de Chacim ou noutras. Na Feira dos
Segadores de 1894, em Macedo, ceifeiros dos Cortiços pegaram-se com os de Vale
Benfeito e morreram vários: um no local e outros em consequência dos ferimentos
(in O Nordeste, 12.07.1894 citado por MAHDB, I, 231).
[21]
A.M. Pires Cabral, Macedo de Cavaleiros, Folheando o Tempo, pág. 14, Lema
d’Origem, 2019. Este texto encontra-se reproduzido na placa do pedestal de
bronze que se encontra na Praça dos Segadores, em Macedo de Cavaleiros. Esta
praça pode induzir erradamente os visitantes, já que não era nela que se
juntavam os segadores mas na Praça Agostinho Valente, Rua Pereira Charula e no
Largo Manuel Pinto de Azevedo. Mas a Comissão de Toponímia da CM fez bem em dar
este nome de homenagem aos segadores a esta praça, para não alterar o das
anteriores, já que assim se perpetua a sua memória.
[22]
In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XV, 740. Interessante que,
se se consultarem, na Biblioteca Nacional ou na Hemeroteca ou nas bibliotecas
de Bragança e Mirandela, jornais desses dias, em quase todos aparecem as
notícias respectivas sobre como as festas iam decorrer ou tinham decorrido, com
pormenores curiosos e alguns muito descritivos. É interessantíssimo ler esses
jornais antigos!
[23]
Só a título de exemplo, aqui fica um excerto duma notícia do Mensageiro de
Bragança de Julho de 1958: “Integrado num programa de festas que se estende
por todo o Verão – verbenas aos sábados com tômbolas, barracas de petiscos,
bailes, etc., com o fim de angariar fundos, o Clube Atlético desta vila
realizou ontem o anunciado concurso de tiro aos pratos. Disputado com grande
animação, pois reuniu elevado número de bons atiradores, teve o seguinte
apuramento: Poule de Honra, Taças “Comissão Venatória”, “Fernando Durão”,
“Manuel Mascarenhas”, “Júlio Lopes e Companhia de Seguros Império”,
respectivamente os senhores Dr. Alexandre Faria, António Afonso, Júlio Lopes,
António Rabal, Filho, e Dr. David Costa; Iniciados, “Taça Estalagem do Caçador”
e percentagem nas arrematações, respectivamente os Senhores Dr. Urze Pires e
Alcino Saldanha.”
[24]
No ano de 1971, o Padre António Sousa, coadjutor na Paróquia, que substituía o
Padre João Baptista Morais, que, por razões de saúde, tivera que diminuir a sua
intensidade de trabalho pastoral, publica os valores auferidos dos festejos a
S. João e a S. Pedro, 32278$00 de receita e 20049$50 de despesa, com um saldo
positivo de 12229$50 que reverte para as obras da Igreja Paroquial. In MB,
23.07.1971.
[25]
Veja-se https://adriveinmycountry.blogspot.com/search?q=o+primeiro+avi%C3%A3o
ou a Revista Brigantia, Arquivo Distrital de Bragança, 2007, em que este artigo
foi publicado pela primeira vez.
[26]
Estas festas geraram um sururu porque foram antecipadas dum programa que tudo
faria prever fossem grandiosas (vide Mensageiro de Bragança, 5 de Maio de 1972,
pág. 5) e o “sector cívico” da terra queria mostrar que poderia haver “Festejos
Cívicos” sem qualquer pendor religioso… o que fez com que o sentimento final
fosse agridoce, no seu balanço, e a inteligentzia da terra apontasse o
fracasso nas conversas de café… fracasso que também não foi, bem pelo
contrário. Das Comissões fizeram parte: da Executiva, Dr. José Garcia, Hamilton
Seixas, Fernando Brás, Licínio Pires, João Borges e Manuel Alberto Mascarenhas;
da Desportiva, José Mascarenhas e a Direcção do Clube Atlético; da Comissão
Cultural e Recreativa, Fernando Jorge e Alfredo Castanheira Pinto. In
Mensageiro de Bragança, 12 de Maio de 1972. Do programa estava omissa qualquer
referência a São Pedro, assim como o termo “cívicas” era usada como se
estivéssemos nos tempos da Primeira República!... No dia 4 de Agosto de 1972 o
Mensageiro de Bragança publica um artigo a duas colunas, “Festas: Um fracasso?
Análise objectiva”, assinado por M.A. Pires Ferreira (para nós, macedenses, o
Manuel Barnard!), em que faz um balanço do sucedido e podemos inferir
que, digam o que disserem, foram umas grandes festas! Nesse artigo há uma
referência ao São Pedro… “Feira anual de São Pedro. Feira bastante concorrida”.
Nada de referências nem à Missa Solene, nem à procissão, que houve, mas não
constou do programa. Interessante que, numa local do Mensageiro de Bragança
tinha aparecido, em 28 de Abril desse ano, uma referência: “Consta-nos que a
simpática, bairrista e progressiva vila de Macedo de Cavaleiros, seguindo o
exemplo de Mirandela e de Mogadouro, vai ter, este ano, grandes festas (em
Honra de Santa Bárbara). Será um mês de festejos animados e vários, que terão o
seu apogeu por alturas do S. João. Macedo de Cavaleiros até é capaz de grandes
coisas, se quiser. Avante!”. Honi
soit qui mal y pense.
[27]
Absolutamente extraordinárias para Macedo e para a época, não cabe aqui fazer a
sua descrição mas uns números do Mensageiro de Bragança cuja informação dá uma
ideia bastante rigorosa do que então se passou, se bem que lhes falte a petite
histoire que apimenta um evento destes numa vila como a nossa…MB. ; MB 5.07.1963.
[28] In MB,
3.07.1970.
[29] Ibidem.
[30]
Wikipedia, Evolução do PIB de Portugal.
[31] Pode
ser consultado no Diário do Governo: https://files.diariodarepublica.pt/1s/1973/06/15100/11091119.pdf
[32]
In Discurso proferido por José Manuel Dias Liberal aquando da inauguração do
monumento existente na Rotunda da Rua de São Pedro com a Rua Dr. Oliveira Cruz,
em 28 de Junho de 2023. Este monumento foi pago pelo saldo positivo das três
primeiras edições da Feira de São Pedro, em 1984, 85 e 87, para o efeito
decidido pela Associação dos Amigos da Feira de São Pedro. O testemunho do
autor do discurso, em conversa com o autor deste Ensaio, foi essencial para
complementar algumas das informações aqui descritas. JMDL estagiou e trabalhou
na então Federação dos Grémios da Lavoura do Nordeste Trasmontano, sendo
próximo do Eng.º Camilo de Mendonça e colaborador directo do Eng. Miranda
Guedes. No âmbito da sua experiência profissional, nesses anos sessenta e
setenta fez viagens ao estrangeiro, nomeadamente a feiras e exposições e
visitas a fábricas internacionais, como Jaén, Córdova, Sevilha, Bilbau, Madrid,
Rocester, Verona, Saragoça, Montpellier, etc. Será importante e decisiva a sua
participação nos secretariados da Feira de São Pedro, como mais adiante se
verá. Vide Camilo de Mendonça, Uma Biografia e Um Testemunho, de Álvaro
Mendonça, págs. 169, 216 e 219, entre outras. Bragança, 2023.
[33]
Álvaro Maximiano da Silveira Sampaio de Miranda Guedes, n. 20.03.1926, Mesão
Frio, m. 4.07.1999, Mesão Frio, da Federação dos Grémios da Lavoura do Nordeste
Trasmontano, Engenheiro Agrónomo, foi responsável pelos Serviços de Mecanização
da FGLNT. Vide Camilo de Mendonça, Uma Biografia e Um Testemunho, de
Álvaro Mendonça, págs.135, 169, 215 e 216, entre outras. Bragança, 2023.
[34]
Macedense Industrial de Panificação e ex-vereador da Câmara Municipal,
ex-piloto da Força Aérea e empresário. Nas suas deslocações usava
frequentemente uma avioneta Cessna.
[35]
Empresário em Macedo de Cavaleiros e Chaves, era o representante, entre outras,
da marca Massey Ferguson. Nas suas deslocações também usava frequentemente uma
avioneta Cessna e outros aparelhos.
[36]
José Adriano Carneiro Mascarenhas, o Zé Mascarenhas, n. 5.04.1939
Amendoeira, f. 27.11.2001, 62 anos. Toda a vida ligado a Macedo de Cavaleiros,
desenvolveu uma intensa atividade
profissional, cívica e associativa. Empresário de comércio, restauração e
hotelaria, nomeadamente nas empresas Manuel Mascarenhas & Filhos e REMER,
Lda. Dirigente e entusiasta associativo, fez parte do Clube Atlético de Macedo
de Cavaleiros e, desde 1967, segundo-comandante, comandante e Presidente da
Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Macedo de
Cavaleiros. Em 2001, incentivou o processo do novo quartel, e a sua dedicação à
instituição e à comunidade foi posteriormente reconhecida em homenagem póstuma,
em 2023, tendo o seu nome a via onde se encontra o quartel. Político,
protagonizou diversos cargos no Partido Socialista e fez parte da Câmara
Municipal de Macedo como Vereador, sendo ideologicamente próximo de Raul Rego. De
carácter humanista, democrático e solidário com a comunidade.
[37]
José Manuel Dias Liberal, Engenheiro Técnico Agrário, n. 27.11.1944 em Macedo
de Cavaleiros, estagiou e trabalhou na então Federação dos Grémios da Lavoura
do Nordeste Trasmontano, tendo sido convidado pelo Eng.º Camilo de Mendonça e sido colaborador
directo do Eng. Álvaro Miranda Guedes. No âmbito da sua experiência
profissional, nesses anos sessenta e setenta fez viagens ao estrangeiro,
nomeadamente a feiras e exposições e visitas a fábricas internacionais, como
Jaén, Córdova, Sevilha, Bilbau, Madrid, Rocester, Verona, Saragoça,
Montpellier, etc. Será importante e decisiva a sua participação nos
secretariados da Feira de São Pedro, como mais adiante se verá. Vide Camilo de
Mendonça, Uma Biografia e Um Testemunho, de Álvaro Mendonça, págs. 169, 216 e
219, entre outras. Bragança, 2023.
[38]
Muitíssimo significativa, a página do “Diário” (inédito, cito do original que
me foi facultado pela Professora Helena Lopes) de João Lopes (vide nota 56) em
que consta o discurso de agradecimento a todos os que contribuíram para a
realização das festas de 1982, e que transcrevemos: “Aproxima-se o términus
dos festejos desta vila em louvor a S. Pedro, padroeiro desta terra. É também
por coincidência este mesmo dia o feriado municipal deste vasto concelho,
concelho que labuta e se esforça para que o seu nome seja cada vez mais conhecido
por este País fora. Não quer a Câmara Municipal organizadora destes festejos, e
a sua Comissão de Festas, não quer dizíamos nós que estes mesmos festejos
terminem sem muito sinceramente agradecer a toda a população da vila, a toda a
população do seu concelho e a todos aqueles que muito nos honraram com a sua
visita, a maneira amiga e carinhosa como nos ampararam, estimularam e nos
ajudaram neste período de preparação de festas. Para todos o nosso muito
obrigado. Esperamos que elas prossigam e que no próximo ano o seu brilho seja
mais intenso. (…) Vamos continuar, a nossa terra bem o merece, ela será aquilo
que nós, Macedenses, quisermos, todos juntos mas sem excepção seremos capazes
de levar a bom termo o que neste ano de 1982 iniciámos. (…) Neste momento, e
aqui publicamente, queremos agradecer muito reconhecidamente: ao Atlético Clube
e ao Clube de Caça e Pesca, à Fanfarra dos nossos Bombeiros Voluntários, aos
nossos Escuteiros, à PSP que esteve sempre a nosso lado, à nossa Banda de
Música de Lamas que tão desinteressadamente colaborou nestes festejos, ao
Rancho Cultural e Recreativo da nossa Casa do Povo, ao Rancho Infantil da
Freguesia do Lombo, a dois macedenses, Carlos Batista e Aníbal Pereira que nos
ajudaram em diversos trabalhos. E por fim queremos agradecer a todos aqueles
que por diversas formas tentaram criar-nos dificuldades tentando impedir que a
nossa região prosseguisse. Foram eles que nos obrigaram a estar mais atentos a
tudo quanto se fez. Talvez sem esses mesmos obstáculos nós tivéssemos
esmorecido um pouco. Uma vez mais o nosso obrigado sincero. 29 de Julho de
1982, J.L.Ginja“.
[39]
Manuel Luís Gomes Vaz, n. 5.10.1951 Angola, m.18.08.2015. Funcionário do
Ministério da Agricultura, militante do Partido Socialista, viria a ser membro
e Presidente da Assembleia Municipal, Vereador e Vice-Presidente e, entre 1993
e 2002, Presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros por este partido. Também
foi dirigente associativo, nomeadamente Presidente da Ordem dos Engenheiros
Técnicos. Deputado pelo PS, o seu CV mais detalhado encontra-se online: https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=423
[40]
Fernando Rui Castanheira Pinto, n. 1.05.1961 em Macedo. Engenheiro Civil e de
Gestão Industrial, Mestre em Gestão Sustentável da Água. Executivo de empresas do
sector água, saneamento e energia, em Portugal e África. Vereador da Câmara
Municipal de Macedo entre 1993 e 2001. Membro e Dirigente associativo, do Clube
de Caça e Pesca e da Federação de Caçadores.
[41]
José Maria Peixoto Coutinho, n.
2.01.1949 em Alvarães, Viana do Castelo. Licenciado em História (FLUP),
Pós-Graduado em Gestão Escolar. Professor do Ensino Secundário e Superior.
Delegado do FAOJ e do Instituto da Juventude. Director da Residência de Estudantes
do IASE em Macedo. Militante do PSD, membro da Assembleia Municipal de Macedo
de Cavaleiros, Deputado à AR pelo PSD, círculo de Bragança. Presidente da Mesa
da Assembleia Geral da Santa Casa da Misericórdia de Macedo de Cavaleiros.
[42]
António Manuel Baptista, n. 19.07.1943, em Macedo de Cavaleiros, escritor,
empresário, contabilista e gestor. Reside em Macedo, tendo vivido em Angola
alguns anos. Dirigente associativo: Clube Atlético, Rádio Onda Livre, Liga dos
Combatentes, Associação Humanitária dos Bombeiros de Macedo de Cavaleiros,
Associação Comercial e Industrial de Macedo de Cavaleiros, Clube de Caça e
Pesca, tendo presidido durante anos nalgumas das agremiações. Autor de: Canhões
de Noqui; O Colono; Os Retornados.
[43]
Alfredo Augusto Vaz, 1929-2013, Presidente da Junta de Macedo entre 1982 e
2008, pelo PSD. Comerciante. A ele se deve a existência duma estátua de
homenagem a D. Nuno Álvares Pereira na Avenida que conduz a Castelãos, onde o
Santo Condestável esteve acampado com o seu exército, tendo a avenida tal nome
por nela terem passado as relíquias do Santo, nas comemorações em sua honra, em
meados do século XX.
[44]
António dos Santos
Pires Afonso, n. Vimioso em 19.08.1954, Professor Primário e Mestre em Administração
e Planificação da Educação. Delegado Escolar de Macedo de Cavaleiros (1975 a 1988),
Subdiretor Escolar de Bragança (1988 a 2002), Presidente da Região de Turismo
do Nordeste Transmontano (2002 a 2006). Vereador da Câmara Municipal de Macedo
de Cavaleiros. Membro da Assembleia Municipal e seu Presidente. Deputado à
Assembleia da República (1992 e 1995).
[45]
António Afonso foi o elemento de ligação com a Câmara Municipal, de que era
então o Vereador da Cultura. Mais tarde, como veremos, viria a coordenar dois
anos a realização das feiras, em 1988 e 1989.
[46]
Era Presidente António Joaquim Ferreira, o muito popular Pescadinha,
n.1.04.1927, Macedo de Cavaleiros, m. 8.01.2013. Desde 1976 até 1993 foi
Presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros pelo PPD-PSD. Comerciante,
Comandante dos Bombeiros Voluntários da AHBVMC desde 1960. Vide Macedo de
Cavaleiros Rua a Rua, Manuel Cardoso, ed. CMMC, Setembro 2005, pág. 77. A
vida política em 1984 em Macedo de Cavaleiros era uma tômbola entre o PPD-PSD,
o CDS e o PS. A Feira de São Pedro serviu ao primeiro e ao último para tentarem
erodir o eleitorado do partido do centro e havia uma dialética constante entre
os dois principais protagonistas, António Joaquim Ferreira e Zé Mascarenhas,
algo que já vinha muito de trás, dos anos sessenta, e que aqui não cabe neste
ensaio. Mas fica registado, porque é bem evidente no distinto tom e alinhamento
das reportagens do Mensageiro de Bragança, de antes e depois da Feira de 1984,
nomeadamente entre o número de 13 de Abril e o de 22 de Junho, no que foi uma
antecipação do PSD para contenção de danos, e ainda a de 29 de Junho, em que o
jornalista evita cuidadosamente citar o nome dos protagonistas… e mais haveria
que dizer, das entrelinhas!
[47]
A declaração de José Mascarenhas ao MB de 22.06.1984, pág. 9, de que estava a
“Feira de São Pedro há muito pensada mas como não havia apoios, nunca se
conseguiu concretizar” é entendível no espírito da política da época mas não
cremos que a sua não realização se tenha ficado a dever a falta de apoios. Pensamos,
de acordo com o que foi a evolução desse tempo, que tal terá tido mais a ver
com falta de iniciativa e ter sido dada prioridade a outras preocupações com
que o município e os macedenses se debatiam e que os absorviam. Quer a Feira de
Ano quer a Missa e procissão a São Pedro, com verbenas e um ou outro arraial
mais ou menos modesto ou mais exuberante, como os de 82 e 83, foram sendo
realizadas. Literalmente, contudo, a frase de José Mascarenhas era correcta.
[48] Cartaz
impresso a preto e verde na Tipografia da EPSA de Izeda, 7.06.1984.
[49] Assim é
designada na notícia da inauguração do MB de 29.06.1984 e esta designação, que
não era a oficial, também com uma variante de “grande Feira Regional Agro-Industrial
do Nordeste”, foi usadíssima em notícias e nos discursos, tanto deste ano como
nos seguintes...
[50] Que
viria a merecer a atribuição do título de “Cidadão Honorário da Vila” pela
Câmara Municipal, pelos “relevantes serviços prestados e interesse manifestado
pelo desenvolvimento do concelho”, por proposta do Vereador social-democrata
João Ferreira Pires.
[51]
Este, por empenho pessoal do Eng.º Carlos Alberto Pereira, n.14.02.1949 em Vale
Benfeito, Eng. Técnico Agrário e Eng. de Recursos Florestais, responsável pelas
Instalações Aquícolas da DGF em Portugal, que teve a seu cargo um colóquio no
âmbito da feira, “A Truticultura em Portugal”, muito participado.
[52] MB de
29.06.1984, pág. 3.
[53] IX
Governo Constitucional, 1983-1985.
[54]
António José Rodrigues Vaz, n. 25.01.1958 em Macedo, licenciado em Gestão e em
Psicologia, bancário, empresário de ourivesaria e no sector da saúde,
Presidente da ACIMC, de que foi fundador, assim como da AAFSP, Provedor da
Santa Casa da Misericórdia de Macedo de Cavaleiros.
[55]
António Tomás Martins Correia Pires, Arquitecto, n.23.10.1954, veio para Macedo
em 1980, indicado pela empresa projectista do Lar da Terceira Idade da Santa
Casa da Misericórdia para acompanhar as
obras tecnicamente, por parte da SCMMC. Ingressaria posteriormente nos quadros
da Câmara Municipal, vindo a ser Chefe de Divisão de Urbanismo. Sócio fundador
da AAFSP.
[56]
João Lopes, n.24.02.1922 e m.23.03.1998 em Macedo de Cavaleiros. Empresário e
empreiteiro de obras públicas e particulares, proprietário da SOCONSTRUÇÕES,
Lda., conhecido por João Lopes Ginja (que o próprio chega a usar no
papel timbrado da sua empresa) ou João Ginja. Vereador e Vice-Presidente da
Câmara Municipal, Membro da Assembleia Municipal de Macedo de Cavaleiros. Militante
do PSD, de que foi Presidente da CPC. Presidente da Direcção da Associação
Humanitária dos Bombeiros Voluntários e da Direcção da Banda de Música dos
Bombeiros Voluntários, assim como da Associação de Socorros Mútuos dos Artistas
Macedenses. Sócio fundador da AAFSP. Membro da JOC, da Comissão da Fábrica da
Igreja de S. Pedro, Irmão e mesário da Santa Casa da Misericórdia, Cursista de
Cristandade.
[57]
António Manuel Ferreira Pimentel, n. 16 de Junho de 1956, Cedofeita, Porto.
Médico em Macedo de Cavaleiros, dirigente associativo: Lyons Club, Ordem dos
Pobres Cavaleiros Templários, Rádio Onda Livre Macedense, Associação dos Amigos
da Feira de S. Pedro.
[58]
António Albino Choupina Pires, n. 8.04.1960 em Macedo. Licenciado em Economia.
Director Financeiro da Sodinorte e empresário. Contabilista. Director do
Hospital de Macedo de Cavaleiros, Presidente da Direcção da Associação de
Socorros Mútuos dos Artistas Macedenses, do Conselho Fiscal da Santa Casa da
Misericórdia de Macedo de Cavaleiros, membro da Comissão da Fábrica da Igreja
de São Pedro de Macedo de Cavaleiros, Cursista de Cristandade. Sócio Fundador
da AAFSP.
[59] Alberto
Elísio Vaz, n.18.06.1950. Professor do Ensino Secundário. Dirigente associativo,
Vereador na Câmara de Macedo de Cavaleiros, membro da Assembleia Municipal.
[60]
João Afonso Gonçalves, n. 8.02.1938 em Macedo de Cavaleiros, m. 29.04.2002. Eng.º
Técnico Agrário, funcionário na Junta de Colonização Interna – Instituto de
Reestruturação Agrária do Ministério da Agricultura e Pescas, militante do PSD
e deputado por este partido na Assembleia da República, membro da Assembleia
Municipal de Macedo de Cavaleiros pelo CDS, dirigente associativo, Cursista de
Cristandade.
[61]
Francisco José Castanheira Pinto, n.13 de Dezembro de 1962, em Macedo de
Cavaleiros. Presidente da Assembleia de Freguesia de Macedo de Cavaleiros.
Irmão da Santa Casa da Misericórdia de Macedo de Cavaleiros. Federação das
Associações de Caçadores. Militante do PPD-PSD. Adjunto do Gabinete da
Presidência da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros.
[62] Embora
na prática estas tenham sido organizadas por outrem.
[63]
Dirigente associativo no Clube Atlético de Macedo de Cavaleiros, empresário do
ramo automóvel.
[64] Humberto
Trovisco, n. 22.08.1958, empresário proprietário da TROVIDOCE, representante de
marcas importantes de hotelaria e restauração, e da empresa de combustíveis na
Zona Industrial, representante da MOEVE.
[65]
Rui Manuel Rodrigues Vaz, n. 15.07.1961 em Macedo de Cavaleiros, licenciado em
Psicologia Organizacional, empresário de mobiliário, gestor e dirigente
associativo: NERBA, ACIMC. Vereador da Câmara Municipal de Macedo. Técnico
superior na ULSNE.
[66] António
José Teixeira Cunha, n. 15.08.1958 nos Cortiços, Macedo de Cavaleiros,
empresário de hotelaria e restauração, imobiliário e automóveis. Presidiu à
ACIMC.

