terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A Segunda Pele


Comunicação aquando da inauguração da exposição A Segunda Pele, de Balbina Mendes, no Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros, em 7 de Fevereiro de 2026. Exposição com a curadoria de Ana Rita Ribeiro e patrocínio da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, com a presença do seu Presidente, Sérgio Borges. A música que acompanhou o acto de abertura, de Telleman e de Piazzola, foi executada por Diogo Mendes, em flauta transversal. 

A imagem é um fragmento dum dos óleos sobre tela de Balbina Mendes, Uma Outra Pele II, 2016, que consta no livro. 

 

Muito obrigado, Balbina Mendes…
O Senhor Presidente da Câmara não levará a mal que … o protocolo…
É muito bom estarmos aqui…
Diogo Mendes….
Ana Rita Ribeiro…

A cultura é o melhor e mais excelente dos indicadores do desenvolvimento duma comunidade, dum povo. E estamos num acto cultural de excelência, em que se encontra uma boa convergência entre a arte, a sua criadora, Balbina Mendes, os seus intérpretes e fruidores, nós todos, e muitos outros elementos fundidos neste pequeno/grande momento no espaço e no tempo das nossas vidas: a música e um seu executante, a literatura, a pintura, até a escultura, todos abrigados sob o manto diáfano da fantasia com a nossa nudez crua da verdade, aqui sentados, com o som da chuva de fundo!

 

Foi muito perigoso convidar-me (muito obrigado, Balbina…)… porque há uma obrigação que me impele, suscitada pela sua pintura (que é o duma artista que sempre quis ir mais além de si e o consegue), e, por isso, perdoe-me se eu for mais além nesta obrigação agradável, talvez longe demais, talvez, nas palavras que vou dizer…

 

Há uns anos, comecei a escrever um ensaio sobre a pintura e o percurso de Balbina Mendes, e socorri-me, para hoje, dalgumas breves notas que fui coligindo, mas não os quero maçar muito, o importante é este livro e a exposição, belíssima exposição, em que poderão e deverão demorar o vosso olhar. Podem e devem ir vendo o livro enquanto falo, assim não prestarão tanta atenção às minhas asneiras!

 

Para ir mais além, nada melhor do que começar por um mote dado por uma das poesias do seu livro, excepcional livro, e socorro-me de Fernando Pessoa […pág. 130…],

Quantas máscaras

Ah quantas máscaras e submáscaras,

Usamos nós no rosto de alma, e quando,

Por jogo apenas, ela tira a máscara,

Sabe que a última tirou enfim?

(…)

 

E podemos, assim, ir na corrente…

 

Adolfo Correia da Rocha, Camilo de Mendonça, Adriano Moreira, Graça Morais, Cândida Florinda Ferreira, Beatriz Arnut, são todos transmontanos nas suas raízes e no seu húmus. Não temos que lhes saber os nomes nem conhecer em pormenor a sua vida, porque os sabemos na sua segunda pele: a de Miguel Torga, nas suas linhas; a do Engenheiro Camilo, no masterplan do Nordeste; a do Ministro de Salazar, na biblioteca de Bragança; a de Graça Morais, nas cores e traços iniludíveis do Centro de Arte Contemporânea de Bragança; a de Cândida Florinda Ferreira, numa vida discreta, cheia de sabedoria, de alguém injustiçada, que assinava os seus poemas como “Ninguém”, e foi uma investigadora, pedagoga e escritora notável; Beatriz Arnut, uma autora de textos sérios e de quadras populares de manjericos, mas também de uma literatura mais robusta e dum prémio para promoção de raparigas.

 

Como transmontano, começo por referir transmontanos, mas não é exclusivo dos transmontanos, é inerente aos seres humanos: saber dar sempre um passo de transcendência cuja metamorfose começa ou acaba numa segunda pele. Estes, acima referidos, são um escassíssimo exemplo mais exuberante, deram o passo para a terem de forma especial.

 

E de alguns, Balbina Mendes já a pintou. Balbina Mendes detecta-a, capta-a, interpreta-a, constrói-a. A Segunda Pele. E muito mais do que tudo isso.

 

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A biografia de Balbina no programa da exposição refere que nasceu em Malhadas….[ver e citar a biografia…]….

Mas o que essa nota biográfica não diz é que uma das brincadeiras da criança que nasceu em Malhadas, num verão com o calor do Planalto Mirandês, era rabiscar no chão com um pau, garatujas impelidas por um sentimento interior que muito cedo se revela inconscientemente… e era entreter-se a observar a Mãe a manobrar um tear.

Não sei se algum dos presentes sabe o que é manobrar um tear, eu ainda vi várias mulheres a fazê-lo: em Bousende, em Vinhas, em Morais, em Bagueixe, em Vilar de Ouro, uma das actividades mais fascinantes a que se pode assistir: a construção da teia, a armação do bastidor, a lançadeira, a escolha criteriosa das cores, o percurso das mãos, o pente a bater, o movimento dos pedais, o resultado que vai acontecendo….

Também não sei se algum dos presentes, mas com certeza que o sabem bem, assistiu ao que é colocar os óleos numa paleta, misturar cores para obter novas cores e conseguir tons e cambiantes, transferir para a tela e arrumar os pigmentos de acordo com a ideia que nos vai no cérebro, fazer todos os gestos necessários, até à náusea ou até à obra acabada, para que a ideia se concretize e finalize, quer de acordo com a intenção inicial da pintora, quer com os caminhos que a alquimia e a arte resolvem por vezes exprimir por si próprios e a atormentam (à pintora) como obsessão e insónia…

 

Não era fácil a vida em Malhadas. Não é fácil a vida dos trasmontanos. Passamos uma parte dessa vida a querer sair de cá. A pequenez e a pobreza da aldeia, a professora que dava reguadas, o seminário ou o liceu que deixou marcas, o padre que de padre tinha pouco, o sufoco, o atraso. Passamos depois uma outra parte da vida a querer arrumar toda a nossa inquietação e a querer voltar ou pelo menos vir cá, a esta terra para a qual adoptámos a máscara de quem lhe chamou “Reino Maravilhoso”… (que bela máscara!...), e, afinal, a aldeia é que era, era autêntica vida, o padre deixara saudades, a professora ensinara bem, a escola e o liceu tinham sido óptima aprendizagem, a lareira o locus amoenus confortável, e a comida a continuar a ser como mais nenhuma outra.

Somos tramados, os trasmontanos, nesta fuga/regresso, no que dizemos ou calamos, numa certa falsidade, no orgulho escondido na máscara da humildade, na pobreza disfarçada na franqueza da generosidade, na pequena/grande inveja que nos faz puxar para baixo quem tem êxito, no apoucarmos os grandes como se fosse escândalo poderem-no ser, na grande sobranceria que nos faz querer puxar para cima algum de nós, mesmo que seja o mais medíocre, porque achamos que a justiça é a igualdade do incomparável. Como se o pudesse ser! Somos tramados. Não somos portugueses suaves.

Há aqui uma aparente e grande contradição, em tudo o que estou a dizer, por isso vou arrumar um pouco estas ideias para que se entendam. Porque tem de haver uma base de entendimento na arte, não basta dizer-se que se gosta ou não se gosta.

As telas da Balbina Mendes impressionam pela emoção mas têm muito mais do que emoção. Têm um imenso trabalho, tempo em horas e dias e meses, não são um fruto dum click fácil. Têm um manifesto intrínseco, e muito de génio, ao transmiti-lo com a liberdade com que cada um o pode ver. Com muito mais liberdade do que aquela com que a pintora as fez. Tem que se entender senão a pintura e a pintora, pelo menos a nossa ideia da pintura e da pintora.

Que tem tido, toda a vida, uma persistência, quase uma obsessão, pela sua terra que é a nossa, pela paisagem, natural e humanizada (que não é a conceptual ou abstrata: é a nossa, com os nossos montes e monotonias, as nossas cores e temperaturas e ventos ou calmarias), a nossa gente, a quem uns dias nos apetece abraçar e dar sorrisos mas noutros viramos as costas pela vontade de o fazermos, bem no nosso íntimo, ao que de negativo reconhecemos a nós próprios. Somos tramados, os transmontanos. Não pensem que o estou a dizer apenas depreciativamente: estou a dizer que somos tramados, feitos pela mesma trama com a genética e a terra que nos condicionaram aqui, entre serras, planaltos e vales, ao longo dos séculos.

 

No fundo, BM tem tido uma persistência e obsessão pela máscara, com todos os seus significados. Que são um pouco de cada um destes que tenho mencionado sobre os trasmontanos.

A máscara, como uma composição da personalidade, tem sido até mais do que essa constante na pintura da Balbina: tem sido uma tentativa de compreensão do mais recôndito que exista na nossa vocação mais arcana.  Uma máscara esconde, é importante por quem a usa porque lhe dá sensação de imunidade, de poder, de se transcender de forma mágica, de exercer uma forma de poder sobre o observador que, por ela, e, portanto, por quem a usa, é surpreendido. Só que o material duma máscara é inerte, sem vida. Uma máscara não representa nada para além da máscara, por muito que se queira e diga, e nisto estou em desacordo com os que defendem o contrário. De lata, colorida ou não, de madeira, mais ou menos elaborada, de barro cozido, de pano remendado, seja do que for.

E a magia da máscara não existe, não é mais do que um truque, de sobrenatural tem apenas o que se lhe quiser atribuir por fantasia, o poder de quem a usa não passa duma convenção, duma exploração das sensações do observador, mais ou menos assustado, mais ou menos fascinado. Uma máscara quase chega a ser uma forma de cobardia (embora não o sendo), de ocultação dos nossos medos e ansiedades interiores, uma espécie de brincadeira séria.

O António Tiza observou, estudou, coligiu e escreveu tudo isso ou quase. E se repassarmos o belíssimo livro das Máscaras Rituais de Balbina Mendes, está lá tudo isto também, com uma forma e conteúdo de génio que eu não me atrevo a comentar mais, porque é desnecessário: a Balbina Mendes interpretou a cores todo o drama e vazio que está numa máscara, dessas nossas máscaras de trasmontanos.

A única coisa que não é vazia numa máscara é a pessoa que a porta. E a Balbina sabe-o e pintou-o como ninguém. O importante é a pessoa, não é a máscara. O importante são os olhos que nos fitam da máscara ou os nossos com que fitamos a máscara.

 

[poesia em mirandês lida pela Balbina, que a explica e dá a razão de ter escolhido uma do Padre Mourinho]

 

 

E aqui chegamos a um outro nível. O da Segunda Pele.

Porque uma pele é viva, não é lata nem madeira nem barro nem pano. Sente o frio, o calor, o repelão ou o afago, o amor. A pele exprime, encanta, revela, deixa-se ler, diz tudo, por si só ou maquilhada. Sobretudo se for a segunda pele.

 

Era Agosto[1], passava da meia-tarde e eu rumava a Miranda do Douro para assistir à conferência de abertura da Exposição de Balbina Mendes, A Segunda Pele. Preguiça de Verão, em vez de pela estrada mais directa, segui pelo IP2 e IC5, subi Bornes e desci a Vilariça, atravessei o Sabor, atingi o Planalto e cheguei ao ímpeto parado dos muros e arcos do Paço Episcopal que Miranda não houve. Mais do que entretido com a paisagem, fui-o com a emoção que inspira catadupas de trasmontanices, como se todo aquele conhecido trajecto não fosse a experiência dum repetente mas uma iniciação com o despertar próprio de reminiscências caladas. Trás-os-Montes tem este dom: muda de cor, de céu, de tudo, conforme a distância e o tempo. Todos nós o sabemos: quando passamos uma segunda vez pela mesma estrada transmontana, parece que tudo mudou em relação à vez anterior: a luz, a cor, o som, a temperatura, o que nos vai na mente e na alma.

 

Exposição sobre uma Segunda Pele? Que seria uma segunda Pele?! Fiquei ao fundo da sala e pude ter uma perspectiva da cor, dos olhares, dos gestos, das atitudes, do afirmado. Estavam a Alexandra Machado, o Zé Ribeiro, outros ainda cuja presença me fez sentir mais familiar e amigo com o momento. Estava a Balbina, pois claro.

E da sua presença, das suas explicações, do seu prevenir sobre o imprevenível – a sua arte. Cores, os retratos, os temas, as interpretações, os cumprimentos, apertos-de-mão, abraços e beijinhos. A música, interessante aparição intemporal e inefável, fez, então, com que dentro me mim se começasse a gerar um pensamento, imperfeito, por certo, mas insidioso e, até hoje, inapagável. “E se a segunda pele?!…”. Tumultuoso no que me ocorria, balbuciei qualquer coisa à pintora sobre a pintura e calei-me para não me sair uma torrente impreparada de coisas que poderiam ser tomadas a despropósito. Era um momento de parabéns. Era um momento de celebração. Ainda assim, entrevi algo no que Balbina me disse então e num telefonema, sobre a sua Mãe, o seu Pai, os seus irmãos, as doenças, os acidentes, as mortes, a gente da aldeia, o suicídio no fundo dum poço, a ida para Bragança, a ida para o Porto, a redescoberta, na arte, por via da pintura, do way out de si própria.

 

E ficámos pela promessa de voltar ao tema, sem que eu lhe dissesse, com receio, qual era o tema. Saí de lá, de Miranda, para o regresso a casa. Então, rota feita por Ifanes, Alcanices, Quintanilha e A4, era como se procurasse mudar já de mundo, para encontrar o que o instinto me começara a segredar nesse dia e nessa tarde. “E se a segunda pele?!...” Anoitecia rapidamente, e do dia restava só uma fímbria trasmontana no ocaso, como se um pincel da Balbina estivesse a passar no horizonte para que me não esquecesse desse destino. Ou seria o vermelho-sangue-violeta duma pele a separar-se do seu corpo para se entrever outra pele? Havia uma segunda pele, afinal, mesmo na paisagem!...

Esta segunda pele depende de nós, do nosso livre arbítrio, dos nossos sonhos, das nossas realizações, dos nossos modos de ver, sentir e estar.

Tal como dependeu a de Torga, de Camilo Mendonça, de Adriano, da Graça Morais, da Cândida Florinda Ferreira, da Beatriz Arnut, de tantos outros…

 não se trata duma segunda pele do corpo, como se fosse um vestido ou despido de passadeira vermelha ou uma ecdise como a dalguns répteis que a deixam para trás para poderem crescer.

Trata-se de que é dos olhos que parte toda a tecedura dessa segunda pele artística. Não é das mãos, nem dos pés, nem de qualquer outra parte do corpo. É da cabeça, onde se pensa e cria, onde se existe, de onde se perscruta e para onde se perscruta o abismo capaz da nossa vertigem e de nos fazer voar para o sonho que nos impele. Da cara, a nossa identidade.

O acrílico – plexiglas – é um golpe de génio que acrescenta uma dimensão… que permite separar mas continuar a ver!

Balbina Mendes não é uma pintora a construir uma ficção de si própria mas a libertar-se da sua densidade mirandesa e transmontana, a transferi-la para todo o mundo. O sentimento de amor e fuga à terra dos transmontanos, a sua ânsia da vertigem da liberdade, o seu uso da máscara para fascinar, ainda que de forma arcana e rude, mas não para esconder, com uma paleta caleidoscópica que faz o efeito dum shot, tudo isso Balbina Mendes mistura para nós, sempre distraídos nas nossas vidas, e nos pincela a lembrar-nos, de forma genial, que todos temos uma Segunda Pele. Saibamos reconhecê-la – e usá-la bem!

 

Balbina Mendes vai surpreender-nos num passo seguinte. Se conseguiu pintar-nos no nosso vazio e momentos de fuga com as máscaras; na nossa dimensão humana com a Segunda Pele; como irá ser extraordinário quando nos colocar na tela com a nossa alma? Sei que será capaz de o fazer!...

Muito obrigado a todos, muito obrigado Balbina Mendes, é muito bom estar aqui!   



[1] 19 de Agosto de 2022.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Efeito das Alterações Climáticas na Agricultura em Trás-os-Montes

 


ACADEMIA PORTUGUESA DA ÁGUA

Manuel Cardoso

Novembro 2025

 Comunicação feita nas Jornadas da Academia Portuguesa da Água no dia 8 de Novembro de 2025, na Ecoteca de Mirandela, no âmbito da Comemoração do Dia Internacional Contra as Alterações Climáticas e Protecção dos Glaciares.

 

 

Boa tarde a todos. É tão bom estar aqui!

Muito obrigado pela consideração em me convidarem para vir falar sobre um tema tão interessante quanto desafiante, em que se pede que nos ocupemos, duma assentada, de cinco coisas: de Trás-os-Montes, de Agricultura, de Clima, da alteração deste e do efeito desta alteração precisamente sobre a Agricultura e em Trás-os-Montes. Convidaram a pessoa errada se o que tinham em ideia era sair daqui com certezas sobre o assunto!

A não ser quanto a, pelo menos, duas coisas: precisamos de água e de caminhos rurais!

Diz-se que a agricultura terá começado a ser praticada pelo Homem há pouco mais duma dezena de milhares de anos e há várias teorias fascinantes sobre o seu início, algures no Médio Oriente ou na Ásia Menor. Acreditamos que sim. E que estaria e estará ligada à sedentarização das populações, aos primórdios das cidades. Mas…

…Mas ninguém consegue afirmar se não terá havido uma agricultura anterior, entre períodos glaciares, num intervalo mais quente. Ou mesmo antes da última glaciação mais recente, cujo máximo de gelo, e, como tal, de frio, terá sido há cerca de vinte e seis ou vinte e sete mil anos. Ninguém sabe, porque ainda ninguém o estudou, se não terá havido agricultura em Trás-os-Montes antes dessa fase, e que tenha desaparecido pelas baixas temperaturas então ocorridas, só reaparecendo numa época muito mais recente, há meia dúzia de milhares de anos.

Uma coisa pensamos: poderá a existência dessa agricultura ancestral não passar duma mera hipótese absurda, como certamente dirão e até concordaremos, mas já quanto a existir pecuária, temos, para nós, que existiu já nesse tempo. As gravuras, não só do Coa mas do Sabor e tantas outras, são representações de caça, sem dúvida, com finalidades xamânicas, também não duvidamos, mas cremos bem que muitas delas são a expressão pura e simples de grupos humanos que se dedicavam à pecuária. Não serão apenas o fruto de elucubrações artísticas de caçadores!

Hoje, os pastores (hoje!...um hoje retórico que cobre gerações e que ainda conheci[1]) também as fazem nas cascas das árvores, nalguma rocha mais favorável, pelo que podemos, numa extensão de raciocínio antropológico, imaginar que também os pastores de então, de há muitos milénios.

As gravuras e petroglifos com figurações animais da nossa região não são apenas um documento relativo a caça e a actividades de recolectores-caçadores: são a expressão perdurável de grupos para os quais a actividade pecuária proporcionava o sedentarismo necessário para haver tempo para as deixar para a posteridade. Penso, por isso, que essa actividade pecuária terá sido influenciada pelos fortes efeitos não só dos frios que se fizeram sentir, como, depois, do aquecimento climático que, há mais duma dúzia de milhares de anos, permitiu uma mais exuberante produção de factores de sobrevivência das comunidades humanas e da complexidade ecológica que resultou dessa transformação, proporcionando as melhores condições ambientais para Gobekli-Tepe, para a agricultura da Anatólia e do Crescente Fértil – e da nossa!

Essa actividade pecuária, extensiva, lançaria mão de estratégias de produção que chegaram aos nossos dias, como, por exemplo, a do uso do fogo para renovação dos pastos. Ainda assisti muitas vezes, na minha actividade profissional, ao acto de pastores que, com um fósforo ou um isqueiro, faziam arder amontoados de folhas secas e espaços em que silvas, giestas, estevas, tojos e carquejas revestiam encostas mas, transformando-se em cinzas, permitiam fazer brotar mantos verdes que as ovelhas e as cabras tasquinhavam nos meses a seguir. Normalmente eram queimadas que ocorriam em Janeiro ou Fevereiro, mansamente, nos dias frios, antes que as chuvas de fim de Inverno e de início de Primavera viessem entumescer as sementes, sobreviventes às chamas e abrigadas no chão frio, das gramíneas, trevos e outras plantas selvagens.

O degelo, a subida das temperaturas médias e a sucessão anual da vida vegetal e animal, transformaram a paisagem, e a agricultura ter-se-á instalado e propagado aqui por Trás-os-Montes há meia dúzia de milhares de anos, no seu sentido mais convencional de haver plantações e multiplicação de espécies de cereais e de fruteiras, domesticadas. A agricultura terá brotado de forma autóctone (?) mas com forte influência dos povos que vinham chegando de leste e/ou do litoral mediterrâneo.

[Seria bom que as Câmaras Municipais, empresas e outras entidades oficiais dedicassem um pequeno orçamento dumas dezenas/centenas de milhares de euros a patrocinar estudos universitários e de investigação científica sobre estes assuntos, a fomentar a ciência pura e fundamental para o conhecimento da nossa terra. Arqueologia moderna. Há tão bons exemplos de trabalhos, de Senna-Martinez, de Maria de Jesus Sanches, de João Tereso, da ATQ-Associação Terras Quentes e de outros, que têm possibilitado vislumbres sobre essa vida de há milénios e de que Carlos Aguiar iniciou a sistematização em vários trabalhos e nos seus capítulos nos volumes Bragança[2] – e não me vou alongar… mas não posso deixar de frisar da necessidade desses estudos de ciência de investigação no terreno. Úteis para o conhecimento e para o desenvolvimento, para o Turismo!]

O clima veio sempre a evoluir nos últimos milénios e a registar uma gradual subida das temperaturas. Com flutuações. Algumas com registos históricos muito interessantes, como os dos anos horríveis de penúria e terror contados pelo Bispo Idácio, de Chaves, no ocaso do Império Romano do Ocidente e na entrada dos Suevos, ou os que Frei Luís de Sousa descreve na sua vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, para só citar estes dois autores e obras, distanciadas um milénio entre si! Haveria muitos outros.

Umas destas penúrias estão relacionadas com a “mini idade do gelo”, dos séculos XV-XVI até ao século XIX…[3] que teve consequências e dá explicações para coisas que sempre me intrigaram. [4]

Num dos trajectos Romeu-Vimieiro, aqui no concelho em que nos encontramos, atravessamos um olival de oliveiras históricas, algumas delas com o tronco aberto de alto a baixo. Hoje são da SMC, Sá Morais Castro, empresa para que trabalho. O quando e porquê desse olival original é o de que essas oliveiras foram submetidas a um stress terrível – um botânico disse-me que teriam estado com temperaturas de -16ºC (abaixo de zero) para que tal lhes tivesse acontecido. Elas seriam já adultas e centenárias, aquando desse gelo. A descrição desse fenómeno de stress, a que já assistimos algumas vezes na vida (a carambina transmontana, o sincelo...), mas não com tamanha intensidade, foi feita por António Maurício Pereira Cabral, residente no Vimieiro. Foi um fenómeno glacial ocorrido entre 18 e 31 de Dezembro de 1843, em vários locais da Terra Quente de Trás-os-Montes (as maiores geadas são sempre paradoxalmente na Terra Quente ou nas zonas de transição...) e que atingiu especialmente o Vimieiro (que na altura era do concelho dos Cortiços), ou, pelo menos, de que daqui foi reportado. Pereira Cabral refere-o numa comunicação à Academia das Ciências e fez publicar umas notícias na Revista Universal Lisbonense.[5]

 Ora, muito antes, no tempo dos romanos, por aqui pela Terra Quente, o clima terá tido períodos mais quentes que proporcionariam haver oliveiras (isso explicaria as milenares do Brinço[6]) e haver vinhos típicos da orla mediterrânica e, talvez, adriática, desde que por cá se instalaram  reformados das legiões, construindo as suas villae, de que há numerosos vestígios, entre os quais, precisamente, dezenas ou centenas de lagares escavados nas rochas, nos concelhos de Valpaços, Mirandela, Macedo, Vinhais, Murça, Alijó…

No Verão passado, um incêndio alastrou por São Salvados, por muitas mais localidades de Mirandela, Vila Flor, Alfândega da Fé, pela Vilariça, é fácil reconhecê-lo por quem percorra as estradas com que confinou. Os bombeiros posicionaram-se a defender casas e lugares. Temos que nos  lembrar de que só há bombeiros, organizados como tal, há cerca de cem, cento e tal anos, e com recursos técnicos avançados, só mais recentemente… então, porque não havia dantes tantos incêndios? Em parte, em boa parte, por causa do que contei dos pastores. O tipo de vida mudou. As aldeias já não são o que foram antes. As orlas das povoações, as culturas, os animais, os gados, os usos da vegetação como fonte de energia, os carros carregados de matos para as lareiras e fornos, matéria combustível que não ficava nos montes. A rarefação dos habitantes. O mosaico de culturas que se transformava numa barreira impeditiva de que houvesse propagação e alastramento de fogos. Tudo acabou. Porque “tudo é feito de mudança”, até o clima, até as gentes.

Refiro este incêndio, entre outros, como um exemplo.

Em Trás-os-Montes (como um pouco por todo o interior de Portugal), as Alterações Climáticas, ou seja, a evolução de aquecimento global do clima, são muito perceptíveis, sobretudo: pelo aumento da temperatura média e frequência de extremos e ondas de calor, pela diminuição e irregularidade da pluviosidade, pela agricultura mais difícil e incerta (pragas, secas), pela colonização por espécies exóticas dos campos e das massas de água, e pelos incêndios.

Mas a contribuição dos transmontanos para as alterações climáticas, mesmo na interpretação que lhe é dada internacionalmente, é mínima e não nos devem ser assacados custos por causa disso, para lá dos que já pagamos em taxas e impostos gerais. O que nos devem é ser dadas condições para podermos resistir e minimizar os seus efeitos.

E isto deve levar-nos a umas reflexões, ainda que breves, mas essenciais, sobre o despovoamento dos campos / desertificação geográfica.

Uma das consequências do despovoamento dos campos é a desertificação geográfica. Para a ultrapassar, no que depende à subida das temperaturas, tem-se assistido à táctica de fazer subir as culturas em altitude (olivais, soutos, vinhas) e têm-se adoptado as boas práticas agrícolas, havendo já há uma muito menor mobilização do solo do que a que era feita há duas ou três décadas (desde então exagerada pela facilidade trazida com a generalização da tracção a motor de charruas e outras alfaias). Há, também, uma muito mais judiciosa utilização da água, mas aqui bate um dos nossos pontos principais: a água é fundamental para conseguirmos resistir às alterações climáticas.

E há outra coisa ainda: para uma maior eficiência dos trabalhos agrícolas e diminuição de emissões, há que melhorar dramaticamente, imenso, mesmo imenso, a nossa rede de caminhos rurais.

Ambas as coisas, água e caminhos rurais viáveis, são factores de estabilização e de estabilidade, são factores de desenvolvimento e de aumento de resiliência do campo face ao despovoamento, à desertificação geográfica e às alterações climáticas!

Estas não nos devem meter medo, o medo não é bom conselheiro, mas  devem servir para repensarmos os nossos valores, os valores do campo, do respeito pela natureza, respeito pelo Homem, respeito por nós próprios.

Trás-os-Montes saberá ultrapassar o desafio das alterações climáticas, por que sempre o soube fazer. Embora submersos pelo pensar global, devemos saber agir local. A gestão dos investimentos. Em Trás-os-Montes não há falta de terra: há falta de gente e a falta de gente só se poderá compensar se tivermos água! Mais uma dúzia de pequenas barragens para possibilitarem um aumento da área regada – não precisamos dum Alqueva! – , alteração da legislação para passarem a ser de usos múltiplos as albufeiras que só o são para a hidroelectricidade, e uma boa gestão, redefinição e interligação com os perímetros de rega existentes e a fazer. Temos muita expectativa e esperança no Água Que Une!

O investir em água é investir nas pessoas. Na construção de infraestruturas. Nas empresas que promoverão o seu uso. Na sua transformação em alimentos. Na sua transformação em Turismo.

Água = agricultura, turismo, desenvolvimento. Com água, a agricultura saberá adaptar-se às alterações climáticas, o turismo crescerá e haverá desenvolvimento apesar das alterações climáticas, da evolução do clima.

Não pode pedir-se aos trasmontanos que minimizem os efeitos das emissões de gases de efeito estufa ou que adoptem comportamentos consentâneos com esta onda geral para a qual parece que o Mundo acordou nas últimas décadas. Porque isso não é pedir nada de novo aos trasmontanos, desde sempre comedidos, desde sempre tendo uma agricultura respeitadora do meio ambiente – e o resultado está à vista! Não somos nós os responsáveis por emissões significativas de gases deletérios!

Aos trasmontanos deve proporcionar-se investimento para o desenvolvimento. Desde logo em água e em vias de comunicação para a agricultura.

Os empresários privados estão a fazer investimentos em montantes de dezenas e centenas de milhões de euros por todo o Trás-os-Montes como há décadas não se via – o Estado (Governo, CCDRN, CIMs, Autarquias Locais) tem a obrigação de acompanhar e complementar estes investimentos com os necessários em água e em vias e caminhos rurais – e em pressão sobre as operadoras para uma boa cobertura de internet!

E o investir na comunidade e em tudo o que favoreça os laços de comunidade. Não para voltarmos à vida de antigamente – mas para assegurarmos a excelente vida do futuro. Que teremos. Porque nos espera. Uma vida extraordinária, a de podermos viver numa região extraordinária e em condições extraordinárias, porque excelentes, porque merecemos. Com um extraordinário futuro Transmontano. Em Trás-os-Montes!  



[1] Pode ser lido este “hoje” no livro publicado online em https://adriveinmycountry.blogspot.com/2020/03/quartzo-feldspato-e-mica.html

[2] A Paisagem Rural de Bragança (Séculos XIX e XX) in BRAGANÇA na Época Contemporânea, 2 volumes, ed. Câmara Municipal de Bragança, Julho 2013.

[3] Há abundante bibliografia e informação sobre esta tão interessante ocorrência na net! Mas despertámos para o assunto muito antes de haver net, um dia, ao considerarmos o extraordinário das pinturas a óleo de Bruegel com as paisagens tão frias como se do frio de Trás-os-Montes se tratasse, a mesma temperatura ao vê-las em livros e calendários!

[4] Sobre a mini idade do gelo no noroeste de Portugal: https://adriveinmycountry.blogspot.com/2021/09/os-vinhos-de-viana-e-o-vinho-do-porto.html em que indico alguma bibliografia mais focada.

[5] Também Francisco António Carneiro de Magalhães e Vasconcellos descreve fenómeno contemporâneo ocorrido em Moncorvo, em cartas de 28 de Dezembro de 1843 e de 4 de Janeiro de 1844, para a Revista Universal Lisbonense, e J.L.Rodrigues Cardoso, em carta de Mirandela de 1 de Janeiro de 1844. Mas a carta de António Maurício Pereira Cabral é notável pela erudição e pormenores e é a que se refere às oliveiras que descrevo entre o Romeu e o Vimieiro! Data de 5 de Janeiro de 1844 e foi publicada na Revista Universal Lisbonense com o título Bella Descripção da Nivosa Praga de Traz-os-Montes, a páginas 271 e seguintes, do Tomo III, anno de 1843 e 1844. Revista Universal Lisbonense, Jornal dos Interesses Physicos, Moraes e Litterarios. Collaborado por muitos sábios e literatos, e redigido por António Feliciano de Castilho, Lisboa, Imprensa da Gazeta dos Tribunaes, Rua dos Fanqueiros, n.º 82. 1844.

[6] Oliveiras monumentais que se encontram nos terrenos do Engenheiro Francisco Lopes e que, por estimativa, serão multiseculares, bastante anteriores ao que é normalmente referido como época de início de existência de oliveiras em Trás-os-Montes, a partir da nossa Primeira Dinastia…

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Potencial Hidroagrícola de Trás-os-Montes

 


Manuel Cardoso

 

Comunicação no âmbito do projeto Interrreg Sudoe, I-ReWater, Jornada de Sensibilização, na qualidade de Presidente da Associação de Beneficiários de Macedo de Cavaleiros, em Mirandela, 30 de outubro de 2025.


Agradeço o honroso convite para vir, mais uma vez, meter água, de leigo entre especialistas na matéria e, ainda por cima, na qualidade de transmontano, glosando o tema Potencial Hidroagrícola de Trás-os-Montes, um título de quatro palavras que, por si só, é um programa científico, político e humano capaz de ocupar uma vida.

Potencial Hidroagrícola de Trás-os-Montes: filosoficamente,  potencial é o que é susceptível de existir mas ainda não tem existência real; que pode realizar-se ou ter a capacidade de ser trabalhado mas que ainda não passou da ideia ao acto. Em termos técnicos, hidroagrícola é algo que relaciona a agricultura e a água, pela ordem inversa, a água e a agricultura, já que não só o elemento água é um dos primordiais na existência mas também a agricultura, como actividade, pressupõe o homem a agir. Interessantíssimo, o conceito de agricultura, porque é uma actividade exclusivamente humana e em que intervêm a inteligência e a cultura, em diferentes acepções, e que lança mão da água, da terra, do fogo e do ar para conseguir obter o seu resultado. Seja a que escala for e seja em que geografia se entenda. Até no Espaço! Ora, entendendo bem o sentido da palavra hidroagrícola, nesta sala e no ano 2025, com certeza que todos a compreendemos como referindo-se à água e à sua utilização agrícola. Àquela que já é usada para a produção dos nossos alimentos? Precisamente à outra, àquela que potencialmente poderia ser usada para a produção dos nossos alimentos mas ainda não o é (na maioria dos casos por razões políticas), já que o nosso tema é o do Potencial Hidroagrícola.

Potencial do de qualquer um? Não, do de Trás-os-Montes. E aqui batemos em mais um ponto muito importante. É que não estamos a referir-nos ao Alto Minho, ao Alentejo, ao Ribatejo, ao Oeste, às Beiras, a Espanha, à Galiza ou a Castela, a Marrocos ou ao Deserto do Sahara ou à bacia Mediterrânica. Estamos a referir-nos a Trás-os-Montes, a este pedaço do Norte interior de Portugal a que vulgarmente uma visão apressada chama planalto, e não deixa de o ser, ou um conjunto de serras, que também o é, ou uma sucessão de vales todos eles a confluir para o Douro, no que é uma realidade inegável. Com uma outra realidade interessante, para quem nos visita, agora que a A4, a A24, a A7 o IP2 e o IC5 permitem atravessar toda a paisagem mais depressa que os pássaros:

“Estávamos a ver que nunca mais chegávamos: um nevão no Alto do Pópulo fez-nos estar horas à espera do limpa-neves!”;

“Estivemos aí neste fim de semana: Trás-os-Montes está todo seco e amarelo!”;

“Fomos até ao Montesinho na passagem de ano: apanhámos um frio de rachar mas dias lindos de sol!”;

“Disseram-nos para irmos ver começar as vindimas: sufocámos a quarenta graus no Pinhão – e à sombra!”;

“…E em Mirandela? Nem se respirava!”;

“Estivemos lá em Dezembro: um nevoeiro gelado que não se via um palmo!”;

“Carnaval dos Caretos?! Choveu o tempo todo!”;

“Chegámos a Miranda num dia tórrido!”;

“– Ah! Connosco, ao sairmos do Lareira, em Mogadouro, estava um vento que só de samarra!”;

“Em Bragança íamos caindo ao escorregarmos no gelo do passeio!”.

Todas estas exclamações, que podem ser tomados como elogios, são de quem contacta com o Trás-os-Montes real, somatório de planaltos, vales, serras, rios e uma ou outra montanha mais alta, por onde se reparte um tempo atmosférico, geograficamente simplificado em Terra Fria e Terra Quente, e em que a sucessão de anos climáticos e hidrológicos, variados pela evolução inconstante do clima, vem particularizar as paisagens, geograficamente também simplificadas em mais ou menos atlânticas, mais ou menos continentais, mais ou menos mediterrânicas, com a vegetação e as culturas agrícolas que lhes correspondem.

E para os que conhecemos Trás-os-Montes de andarmos por cá, por ser a nossa casa, conseguimos a sensação do estarmos por fora cá dentro, porque temos o Alto Minho, no Barroso; o Alentejo, no Planalto de Mogadouro; o Ribatejo, na parte baixa da Vilariça; o Oeste, no vale de Macedo; as Beiras, na nossa orla Sul; Espanha, um pouquinho por todo o lado e até para cá de Miranda; Galiza, no norte de Vinhais, de Valpaços, de Chaves; Castela, a chegar a Bragança; Marrocos, entre Moncorvo e Freixo; o Mediterrâneo, espalhado nos olivais e nas vinhas, nas amendoeiras e nas figueiras, até temos sobreiros e azinheiras que só não são montados e dehesas porque aqui crescem em interstícios de grandes fraguedos e em despenhadeiros inacessíveis do Quadraçal; e o Deserto do Sahara, a mostrar-se em manchas pela bacia da Terra Quente, a ameaçar Mirandela, e pelo Monte de Morais, e por mais sítios se não lhe atalharmos com urgência, isto é, se não gerarmos novas fontes de água.

Trás-os-Montes é assim, entre rincões úberes e espaços agrestes. Com dois denominadores comuns: o da existência de água e o da sua falta. Se a há e a terra dá, temos tudo. O problema é se a não há: mesmo que a terra dê, dará cada vez menos. Porque cada vez mais, por Trás-os-Montes, ou haverá hidroagricultura ou não haverá agricultura.

Daí a importância de reflectirmos um pouco sobre o potencial. O potencial de Trás-os-Montes. Que só o será na medida em que for hidro-agrícola. Só o será se houver água.

Este potencial existe como tal, carece é de ser trabalhado. Não precisamos dum Alqueva, apenas precisamos de mais uma dúzia e meia de relativamente pequenas albufeiras e das suas condutas de ligação e dos seus perímetros de rega definidos. Estão estudados os sítios desde há anos, há apenas que num caso ou noutro actualizar esses estudos. Há que construir as que já têm projecto. E há que estabelecer um funcionamento em rede entre todos, ou quase, esses aproveitamentos hidroagrícolas, articulando-os com os investimentos privados que, um pouco por todo o lado, se têm substituído ao Estado em barragens, em charcas, em condutas e redes.

Se dizemos que não precisamos dum Alqueva, é, porque, na realidade, já o temos: se somarmos as massas de água das albufeiras do Alto Rabagão, do Vale de Chaves, do Tâmega, do Tua, do Azibo, da Vilariça, do Sabor, do Douro, do Távora e Varosa, temos um total de água que chega para as nossas necessidades de diferentes usos. Há é que mudar a legislação, o que se faz em gabinete, para permissão da fruição também agrícola dessas massas de água. Há que planear a sua integração e complementaridade, há que pensar com o pensamento no futuro e a acção na realidade.

Precisamos, isso sim, duma “EDIA” para Trás-os-Montes. Uma entidade que unifique um pensamento e uma acção sobre o regadio, que tutele a gestão do investimento e capacite a região duma visão integrada e esteja dotada da equipa técnica habilitada ao objectivo de que possa haver agricultura com água em quantidade e qualidade e nos espaços geográficos necessários.   

Em Trás-os-Montes chove todos os anos, mesmo em anos de seca, mais do que o necessário para as redes de rega. Reter e gerir essa água à luz do que a ciência hoje nos permite, é uma obrigação.

Prometi a mim mesmo, ao escrever estas notas, não vir para aqui com milímetros de precipitação, nem com índices de aridez, nem com hectómetros cúbicos de albufeiras, nem, sequer, com quilómetros de canais ou condutas e muito menos com hectares de regadio. Assim como não falar em alterações climáticas. Porque não há necessidade: está tudo implícito. Implícito nestas linhas e explícito nos projectos de Câmaras Municipais, das CIM, da CCDRN, da DGADR, do Água que Une. Está tudo implícito nos trabalhos que os agricultores fazem ao investir em plantações de olivais e vinha em cotas cada vez mais altas – e com sistemas de rega modernos e eficientes, gastando cada vez menos água para o mesmo bom resultado.

Pode haver quem pense que as quantidades de água reciclada que fica patente no I-ReWater e seus congéneres sejam desprezíveis ou menosprezáveis e que o próprio processo “não valha a pena”. Convido quem assim pense a ir deambular pelas ETAR e cercanias e a fazer um exercício de imaginar o potencial que representa a vários níveis, o do reaproveitamento da água, o do respeito pelo ambiente, o da conservação da Natureza, um tal trabalho de uso deste nosso tão precioso recurso. E o exemplo moral de, sabendo dar valor ao que aparentemente possa parecer um pormenor em quantidade, poder assim pretender e aspirar a mais volumosas quantidades de água, porque merecidas, obtidas pelos meios mais convencionais. Se valorizamos o pouco, merecemos o muito. E, por tudo isto, ao valorizarmos a água para o olival, para outas plantações permanentes, para as hortas, para os linhares (ainda há quem saiba o que era um linhar?), para os lameiros, obtida pelo I-ReWater, pelos regadios tradicionais, pelas redes modernas de aproveitamentos hidroagrícolas, estamos a dar uma lição de que compreendemos, na sua globalidade, o que é o verdadeiro Potencial Hidroagrícola de Trás-os-Montes. É o da água, evidentemente, e é o das cabeças que a saibam pensar e a saibam fruir. I-ReWater é uma bandeira de presença científica, da atenção das Universidades e Institutos Superiores, de ligação a Espanha e à outra Europa.

Finalmente, o desenvolvimento, o Potencial Hidroagrícola de Trás-os-Montes e as pessoas, porque é de pessoas de que se trata. Está a haver privados a investir, e em montantes sem precedentes, um pouco por todo o lado daqui. Nesta terceira década do século XXI os privados estão a investir como nunca se viu nas décadas anteriores, com o seu próprio dinheiro, associado ou não a fundos da União Europeia, conforme. Em Valpaços, em Moncorvo, em Mirandela, em Vila Flor, em Macedo, em Bragança, em Alfândega da Fé, em Mogadouro, um pouco por todo o lado mas sobretudo nesses, basta um pouco de atenção quando andamos pelas estradas para reconhecermos milhões, muitos milhões, em plantações, em adegas e lagares, em armazéns e equipamentos, em novas pessoas a trabalhar. Só agora começam a ser perceptíveis nas estatísticas (o Estado atrasa-se sempre um bocado a fazer o tratamento e disponibilização de dados…) mas já o são no movimento nos campos e nas nossas pequenas vilas e cidades. Ora, o Estado (o Estado Central, o desconcentrado das CCDRs e o das Autarquias) tem a obrigação de acompanhar os privados nestes investimentos, fazendo a parte que lhe compete em água e rega e em caminhos rurais (para só citar estas coisas). Se os privados investem milhões, o estado tem a obrigação de o fazer também, funcionando assim a economia real.

Sendo uma região ainda em depressão nos índices populacionais e em que, por alguns anos, a paisagem exprimiu abandono e desistência, todo este movimento a que agora assistimos faz-nos ter esperança de que hoje há quem acredita e queira acontecer. Olhando para a História, faz-nos pensar, à nossa pequena escala mas que é grande na nossa vida, no que se passou na América após a Grande Depressão, no Japão após a II Grande Guerra, na Europa quando Sicco Mansholt e os pensadores de Roma e de Bruxelas desenharam a Política Agrícola Comum e a reconstrução do tecido produtivo dos campos.

Faz-nos ter uma grande emoção interior assistir a tudo isto e vermos que ainda há quem saiba que o Potencial Hidroagrícola de Trás-os-Montes é o nosso desenvolvimento, a nossa possibilidade de estarmos aqui, de vivermos aqui e aqui voltarmos a ver surgir um Trás-os-Montes curado da sua depressão e mais jovem, mais moderno e com Futuro.           



terça-feira, 12 de agosto de 2025

A Padaria e a alma das coisas


Reeditado do EGGAS.


©Manuel Cardoso

 

Quando vivíamos no Bairro Alto, em Lisboa, na Travessa da Espera, a nossa janela da sala, no rés-do-chão, estava a metros, do outro lado da Rua das Gáveas, da loja de vidros quadriculados, azulejos brancos e balcão de mármore sobre uma madeira pintada dum branco-farinha, e vinha de lá, em instantes benfazejos, o hálito envolvente do pão fresco a pedir para fazer parte de nós. 

Na Póvoa do Varzim, há imensos anos, o nosso andar arrendado para férias ficava, nesse Julho e Agosto, por cima duma nuvem encantadora de papo-secos ou moletes, pãezinhos de leite e regueifas, que adivinhávamos nas prateleiras do piso, por baixo, da Padaria Cadeco, esquina transversal à Junqueira, e fizeram as delícias dessas semanas inesquecíveis de praia em que os trincávamos com fiambre que sabia a fiambre, queijo que sabia a queijo e panados com um pão ralado que hoje em dia não há – e até com chocolate, umas tablettes de comacompão, que se compravam aqui e ali, cuja energia de alta tensão ainda agora faz efeito só de as lembrar!

Na nossa vida profissional de veterinário de aldeias, esquadrinhando nos recantos menos prováveis, muitas vezes pudemos surpreender as fornadas de trigos e centeios a entrar ou sair de fornos antigos, acontecimento em que se misturavam os tons vermelhos e escuros do fogo, com os brancos e cinzas das masseiras e das bolas de pão para cozer, embrulhados em toalhas e panos aos quadrados, até ficarem sob a abóbada de barros queimados, encaixada em granitos ancestrais, tons de brasa branca do calor, arrumados com uma pá de madeira, manobrada por sombras negras dos lenços à cabeça das mulheres, que rezavam auspícios ou davam graças, os polvilhavam proferindo orações e imprimindo símbolos na massa ainda mole. 

Tudo tão especial e tão excepcional, mas que, por fazer parte das nossas rotinas, nem nos dávamos nem damos conta, a sério, da sua especialidade e excepcionalidade: o podermos trincar um pão. Deveríamos considerá-lo com muito mais importância:  se já existisse no Paraíso, Adão e Eva não se teriam deixado levar a troco duma simples maçã! Impor-se-lhes-ia, mais alto, o cheiro do pão cozido, algo que lhes saberia doce e muito mais agradável - e os teria mantido na linha!

Esse etéreo perfume, capaz de nos transportar, de imediato nos preencher todos os sentidos, e que nos permite fechar os olhos e abstrair do ruído envolvente. O duma padaria.

Em Macedo, toda a vida o sortilégio acontece a quem passe na rua que vai do jardim para a estação: numa porta discreta, com apenas um passo num degrau, entra-se num território totalmente diferente. O ar morno, pairando nele a farinha com notas de tosta, açúcar, amêndoa e, até, coco, elementos em gradientes leves e ponderados no meio da predominância do de trigos e centeios, com côdeas que apetece logo barrar de manteiga ou comer mesmo assim sem mais, impregna a nossa vontade de um sentimento de dali não sair, jamais. E ver tudo, aspirar tudo. Os pães nos cestos de vime e canastras de castanho, as prateleiras com biscoitos e bolos, a decoração volátil no tempo, a porta aberta para o aposento mágico onde se misturam os ingredientes, levedam as massas e cozem as obras de arte.

Ditas assim mesmo, obras de arte, porque nesta padaria deambulou com afã uma peculiar artista portuguesa, a Túlia Saldanha, que também serviu de mote a um outro post, O termómetro, a pastelaria e a arte.

O ponto do cérebro onde se misturam os déjà vu com reminiscências, saudades e memórias, ganha especial intensidade neste ambiente em que tantas vezes entabulámos conversa com a Clarita e o Eduardo. Como se fosse o aleph de Borges, como se fosse o dia em que tive o meu baptismo de voo num monomotor Cessna descolando da pista de terra de Macedo, com o Eduardo aos comandos, o meu Pai ao lado segurando o meu sobrinho Miguel ao colo porque estava com coqueluche, subindo aos 10000 pés sobre a Serra de Bornes num largo círculo, descendo depois e aterrando com a emoção que me dura até hoje. Que já era lendário na nossa casa, o Eduardo Saldanha, com as histórias que dele se contavam como piloto da Força Aérea Portuguesa, as suas aterragens de emergência a merecer primeiras páginas de jornal, e de quando, no mesmo Cessna, também com o meu Pai ao lado, em passagens razantes e repetidas, bombardearam, com pacotes de manteiga, açúcar e farinha, um medeiro da casa da Maria Isabel Charula, nos Cortiços – tendo ela que mandar desfazer e refazer a meda de palha para poder recolher os ingredientes para o seu saboroso bolo inglês de nozes!

Que, nessa época, era na Padaria do Saldanha que havia uma estante luminosa SPAR com a melhor das manteigas Martins & Rebelo, chocolate Lily’s, farinha Triunfo, refrigerantes, iogurtes a sério e coisas afins. O Eduardo tinha uma peculiar perspectiva das coisas, frases de ironia inteligente, mentalidade matemática aplicada à vida quer quando jogava bilhar com o João Pires e o Luís Madeira, a ouvirem Fausto Papetti ou Sinatra, quer quando zarpava para a neve no seu Porsche, sintonizado para as pistas de ski. “Manel, quem te conhecia com esse cabelo?! Pensei que eras uma das tuas irmãs!” e ambos nos ríamos, eu algo embatucado nos meus catorze ou quinze anos, enquanto ele contava, para um cartucho de papel, os pãezinhos e os biscoitos de amêndoa que eu tinha ido comprar.

O Alcino, irmão do Eduardo, salvou-nos, na nossa pequena cidade, de ficarmos sem a Padaria Macedense, gerida agora pelo seu filho Nuno. Já com redecorações, arranjos, novidades. Sem perder o encanto. 

Como a Brasileira, a Pastelaria Benard, a Nacional ou a Versailhes, em Lisboa, todas lojas antigas por onde passou um sopro de progresso mas sem lhes alterar o carácter nem o conforto dos velhos e novos clientes. Curioso, porque involuntário, mas forçoso e verdadeiro, este associar mental duma padaria com pastelarias de referência! Coisas dos espíritos da farinha!

Dir-me-ão que a Padaria resiste porque tem qualidade e a mantém, desde a época do bolo-rei no Natal para a época dos folares na Páscoa, de todo o ano nos pães, biscoitos e pastéis de nata originais. Nos económicos. Nos cocos. Nos amendoados. Em todos os outros. Resistirá, por isso, sim. 

Mas também por uma razão simples e essencial: a de que é a partir de todos esses produtos, daquelas paredes, dos sacos de papel sobre o balcão, das folhas do vegetal de embrulho, daquelas máquinas e fornos, de todas as pessoas que os manobram, que se desprende e fica a pairar no ar e no tempo o intangível da alma especial das coisas. Intangível que chega até nós pelo cheiro inimitável duma padaria. Que nos arrebata. 

E bem-aventurados os que se deixam arrebatar pelo cheiro duma padaria!       

 

      

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Trás-os-Montes e Valle Pradinhos


Artigo republicado do EGGAS mas editado em Agosto 2025 para este blogue.


Manuel Cardoso

  

Os vinhos de Trás-os-Montes, eruditos pelo seu passado mais do que bimilenário, conjugam-se e declinam-se em diversos modos, tempos, pessoas e números. Têm um fundo comum, um étimo fundacional, uma raiz ancestral, um segredo de carácter: a sua honestidade. 

Nas Arribas do Douro e nas do Sabor, nas aldeias de Talhas e Talhinhas, em Valle Pradinhos, nas Arcas, em Montalegre, em Sobreiró, em Arcossó, em Sonim, em Parada de Infanções, no Lombo ou Jou ou Uva, no Planalto Mirandês ou de Carrazeda, nas encostas e recônditos de Rebordelo ou Sendim ou Valpaços, no Vidago ou em Anelhe, em Vale de Salgueiro ou noutros vales e veigas, como em Veiga de Lila a Quinta de Vale dos Montes, invocando os Távoras de Mirandela e Mogadouro, fazendo sentar à mesa o Palmeirim de Inglaterra ou nela pousando garrafas de Santa Valha, ou da Quinta de Valle Madruga, se pode estar, mesmo sem convite (entre quem é!) numa animada prova com produtores em que tudo se discute menos o seu carácter e genuinidade chãos. Porque todos os sabem.

Tal como todos sabem quando é chegado o momento: desconcertados que estão os nove meses de Inverno e três de Inferno, conhecidos como nunca os terroirs e climats dos diferentes microambientes de cada produtor, o comportamento das castas e a utilização judiciosa das leveduras indígenas e exóticas, está-se no limiar da grande fase, em que o interesse pelos vinhos produzidos na mais desconhecida região de Portugal despertou e valorizar-se-ão sem precedentes. Assim como, vir para os vales e serras e planaltos de Trás-os-Montes produzir, corresponderá à adaptação de muitas marcas aos tumultuosos solavancos do clima.

Normalmente, os vinhos são tecnológicos, com produção de uvas e elaboração científica em que intervêm terroir, climat, leveduras e savoir faire. Normalmente. Porque em Trás-os-Montes há, para além disso, que contar com a mitologia. Não só a dos trasgos na vinha e na adega com tropelias, mas aquela mitologia de que são feitos os sonhos e as memórias, a vontade visionária e o respeito pelo legado. Em que intervém, indissociável e finamente molecular, um herdado amor pela Arte.

De tudo isto há um perdurável e verdadeiro paradigma: os Vinhos de Valle Pradinhos. Tintos, brancos e rosés, ainda uma bagaceira velha que é uma poção mágica capaz de despertar todo o tipo de musas, já há mais de um século que se começaram a derramar neste recanto bucólico e inspirador, descoberto e adquirido por Manoel Pinto de Azevedo numa das suas deambulações à caça, no início do século XX, ainda antes da Primeira Grande Guerra. 

É o DO e IG que mais perto de nossa casa tem as vinhas, facilmente visíveis para quem viaje na A4 (a mais bonita autoestrada de Portugal) a subir do Romeu para a Amendoeira, aterro e viaduto compridos sobre Vale Pradinhos, onde crescem as Riesling, Gewürztraminer, Malvasia Fina, Pinot Noir, Cabernet Sauvignon, Touriga de Portugal, digo, Touriga Nacional, Tinta Amarela, Tinta Roriz, Tinta Gorda, todas parceladas e vindimadas com cuidado, segundo a sua evolução característica, objecto duma criteriosa gestão do calendário, dos tempos de vindima e da sequência de controlo de frio até às demais operações. 

Um campo experimental, existente já há dezenas de anos, esteve na origem de algumas das decisões então tomadas para a plantação dos hectares mais modernos do Casal de Valle Pradinhos, cuja ciência de Bordéus foi infundida por João Nicolau de Almeida e cuja ciência actual, aproximando-se a uma trintena de vindimas, tem tido a vara de condão excepcional de Rui Cunha. Se dizemos vara de condão, é por uma razão de ser não só mitológica: é que há segredos só entendíveis por iniciados com poder para tal, tal como o que está contido nas garrafas The Lost Corner, ou nas Tinta Gorda - Vinhas Velhas, ou nas do rosé e dos brancos, dos mais raros e bem conseguidos vinhos de sempre. 

O fundo científico da operação de vinha e adega tem a marca desses dois protagonistas, mas só foi possível porque antes deles teve luz e orientação dadas pela constelação Pinto de Azevedo, que a si fez agregar muitos outros que ao longo do tempo foram operando as transformações com efeitos e matizes, os matizes das obras de Arte. 

Que não é palavra usada à toa: muitos escritores e artistas tiveram acolhimento nesta constelação nas páginas d’ O Primeiro de Janeiro, jornal portuense, puderam viajar a este interior, então tão longínquo, no já recuado século XX!, e ficar como convidados na extraordinária Estalagem do Caçador, vir a Vale Pradinhos viver na obra que se foi fazendo, comungando nas vidas que se foram cumprindo. 

Ferreira de Castro (que chamava de D.Maria I de Trás-os-Montes e III de Portugal à D. Maria Pinto de Azevedo!), Agustina Bessa-Luís, Jorge Barradas, Graça Morais (que teve por padrinhos de casamento a D. Maria e Júlio Resende, outro dos habitués…), …  todos beberam do Vinho de Vale Pradinhos, avant la lettre, mesmo sem a ciência enológica de hoje.

Assim, não é por acaso que numa das paredes do escritório do Casal de Vale Pradinhos, sob o retrato venerando de Manoel Pinto de Azevedo, está uma pequena, colorida e preciosa aguarela com a sua filha Maria, colocando manualmente rótulos em garrafas, pincel e legenda do genial Guilherme Camarinha: “Porto 20 de Out. de 1968 … como eu estou a ver! – o que se diz uma actividade! – Pudesse eu e aí ia já – a segurar o boião”

Hoje em dia, os rótulos trazem a assinatura da neta de Maria Pinto de Azevedo, a de Maria Antónia Pinto de Azevedo Mascarenhas, design significativo pela mesmíssima característica dos vinhos de Trás-os-Montes: todos os lotes são por si provados e aprovados, para merecerem, com justo orgulho, o seu atestado de honestidade! Santé!        

Muito em breve beberemos aqui, digo, conversaremos aqui, de vinhos ainda secretos ou quase e que irão trazer Trás-os-Montes no seu rótulo, feitos de uvas amadurecidas nas encostas do Sabor, numa aldeia justamente chamada Talhas, chão extraordinário para cepas, e cujo apuro tem sido feito na Adega SMC, Sá Morais Castro. Há escassas semanas foram provados num grupo em que estava uma dona de casa, uma proprietária no Alentejo, um administrador duma das mais importantes cadeias de hotéis em Portugal e eu. Estava calor, Montemor tinha anoitecido, ouviam-se ovelhas, trincávamos salada, moelas, queijos, coisas várias. Os vinhos, ainda de garrafas sem rótulo, ligavam com tudo. Sobretudo connosco. Quando se pensa que já tudo foi feito e inventado em vinhos, não é verdade. Trás-os-Montes tem e irá, cada vez mais, ter, vinhos espectaculares e cheios de carácter - e de novidade! A reservar!   


  

Interessante artigo de José Miguel Dentinho, porque se prende com este nosso, não resistimos a dar aqui o link:

   https://grandesescolhas.com/valle-pradinhos-estorias-e-vinhos-de-um-canto-perdido-em-portugal/?fbclid=IwY2xjawMXt2RleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETBlN2laV0pRdFhSOGl0aFdhAR4b1AbuTiBKZPjRDoa4GV6r-3dct5Xn0iDejdCjM6U-oy0Hl2F7A5JEMlJ2Pw_aem_sHayF_ZXlkHgO1zEnjwQMw