quinta-feira, 29 de maio de 2008

EMÍLIA


Em 1917 nasceu em Coimbra, primeira filha de um militar de carreira cujo casamento seria em rotura com toda a família e que o isolou. Os isolou: a si e a todos os filhos que seriam os irmãos da Emília.
Estudou nessa cidade e em Lisboa, onde frequentou o liceu e teve uma formação republicana, do tipo bandeirinha na mão aquando da inauguração da estátua do Marquês, tendo sido companheira e amiga das filhas do Afonso Costa. Educação que lhe dizia que os seres vivos, como as pessoas, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. Imortalidade, só a da escala humana, a dos nomes nas lombadas dos livros, nas letras das canções e nas placas das ruas.
Os anos trinta foram o seu turning-point: essas amigas de infância e juventude abandonaram Portugal, morreu a sua mãe, saiu de casa (onde tomava conta dos irmãos) para ir para o Sanatório da Guarda com a sua irmã Aida, ambas em tratamento de tuberculose, onde se apaixona por um homem onze anos mais velho e clinicamente considerado um caso sem retorno.
A sensação de que o mundo ia acabar ali e agora, que tudo valia e que seria o fim de dificuldades e pontos negros, é talvez o melhor resumo desta sua fase, com o pano de fundo da guerra, das restrições impostas, do cenário sombrio na casa paterna, da desesperança instalada. Que é também o momento em que, com surpresa e fruto de um tratamento inovador, se cura o homem que ama, que casa, que lhe sorri, por breves momentos, o bem-estar material.
Religião? Até ali nem por isso, só com lógica, muitos argumentos ouvidos, estudados e vezes sem conta desmontados, teimosia de repelir e não aceitar o diferente, o incompreendido por natureza. Primeiro vieram os ritos e a necessidade aflita, contra a parede que aparece à frente, sempre a dúvida de que seja só a parede e nada mais para além dela. Depois vieram aquelas coincidências e partidas da vida aqui e ali, a paz de Fátima, sinais a que prestou atenção e que submeteu à mesma lógica aprendida no liceu, com o pai, com as amigas. A fé só veio depois, uma fé violenta, algo intolerante, de obrigações sentidas, sacrifícios desejados e de imposição aos outros – recuperar tempo perdido?
Aceitou, a partir de então, o seu futuro como uma aventura, viveu-o como numa ficção, um passeio em que se misturou o pão de cada dia com a desilusão do inatingível, o quase desespero de ver uma dificuldade que um demónio lhe fazia surgir de cada vez que um anjo lhe retirava da frente uma resolvida, sempre com espaço para o misticismo, cada vez com mais espaço para o misticismo.
Teve os filhos com as alegrias e as tristezas que os filhos dão mas como se, estranha coisa!, os mesmos filhos o fossem mais do pai do que seus.
Conforme os anos foram passando, a vida foi-a privando de tudo o que, só na aparência, lhe fora dado então. Até a privou da realização dos seus sonhos. Foi deixando ficar pedaços dos sentimentos vividos, como testemunho ou como militância, em versos e contos escritos, alguns verdadeiros sobressaltos amargos ou em fases mais serenas, quase todos publicados.
Começou a morrer com a morte súbita do seu companheiro de quatro décadas. Desde esse dia, nos anos setenta, que a vi estender as mãos a agarrar-se à velha parede mas a deixar-se escorregar para o fundo, a querer não ser uma sobrevivência anacrónica. Nunca mais deixou de se colocar à beira do precipício – não a querer saltar mas a querer que o precipício a puxasse, qual abissus abissum, a levasse para onde um dia tivera a certeza de que tudo era um nada e agora tinha a certeza de que afinal era tudo. Mesmo tudo, que nada valia o resto.
Demorou, como se a essa demora fosse obrigada como expiação ou um preço a pagar para se chegar lá. Mas porque não vem a morte e me leva, porque estou aqui onde o meu interesse não mora? Porque não era só da morte de que estava à espera mas dessa outra vida, a que rezara, a que pedira, aquela em nome da qual suportara esta vida – vida? : o amargo fardo da vida, que não há coisa mais amarga do que suportar anos sem fim a desilusão e a tristeza!
Morreu no dia 17. Foi a última dos irmãos a morrer. Está, neste momento, finalmente, do lado de lá da parede, na imortalidade que a fé lhe deu. E que ela viu. Foi por isso que, apesar do sofrimento dos seus últimos tempos, fez um sorriso ao fechar os olhos. Um sorriso que já não era para nós mas o primeiro de quem quer que chega a qualquer lado. Adeus Emília, adeus Mãe! Até que Deus nos queira juntar outra vez!