quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O SEGREDO DA FONTE QUEIMADA

já existe!
quando for o lançamento, aviso.
"Na biblioteca de um velho capitão solitário figura um livro raro escrito por
um médico de D. João V. Que segredos encerrará esse Aquilegio Medicinal sobre as fontes e águas de Portugal? E que águas e fontes serão verdadeiramente aquelas a que se refere o seu autor? É o que nos propõe descobrir Manuel Cardoso nesta aliciante viagem no tempo até ao Portugal do século XVIII."

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

o primeiro avião nos céus de bragança


O PRIMEIRO AVIÃO
Que veio ao Distrito de Bragança,
aterrou em Macedo de Cavaleiros

© Manuel Cardoso e Brigantia[i]


O primeiro avião que veio ao Distrito de Bragança, em 26 de Julho de 1922, foi um biplano Breguet, aterrou em Macedo de Cavaleiros e foi pilotado por Sarmento de Beires. O pretexto da sua vinda foi o da festa de Santa Bárbara, desta vila, a ser celebrada a 29, 30 e 31 de Julho, mas a sua repercussão ultrapassou em muito quer o âmbito geográfico quer religioso das festividades.

As viagens e peripécias aéreas dos nossos aviadores, então ainda pioneiros e impregnados de espírito de aventura, estavam no auge. Nesse ano e nos meses que antecederam esta incursão pelos céus trasmontanos, os jornais tinham-se enchido com a saga da Travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Patrocínios, subscrições públicas e procura de propaganda, a que a venda e disputa de público leitor pelos principais jornais não estava alheia, tornavam efervescentes todas as iniciativas que pusessem a voar aquelas máquinas extraordinárias, quais brinquedos de entreter de forma séria um povo inteiro que queria, a todo custo, um escape para os tempos sombrios, conturbados e infelizes da Primeira República. Macedo não fugia à regra geral. Os grupos que remexiam na baixa política de campanário e que estagnavam o progresso ao estar envolvidos em intermináveis discussões bizantinas e em conspiratas menores de farmácia e barbearia, precisavam urgentemente de um facto que saísse do ramerrame e galvanizasse o povo. Se não o povo, pelo menos a sua esperança. Foi daí que um dos sectores, numa inspiração elevada na completa acepção da palavra, se lembrou de fazer vir um avião até Trás-os-Montes.


Esta viagem implicou contactos, negociações e recolha de fundos. Já o jornal “O Século” de 13 de Julho de 1922 trazia uma antecipação do que estavam a ser os preparativos, anunciando quem iria ser o piloto, qual o avião e que já havia a necessária licença do senhor Ministro da Guerra. Noticiava-se mesmo que o senhor Venâncio de Carvalho Morais, industrial, representava a comissão de festas em Lisboa e tinha, junto do governo, assumido o compromisso de providenciar o campo para a “aterrissage”.

Um campo que foi nivelado com uma lavra por juntas de bois, gradado, compactado a cilindro e despedregado dos maiores calhaus, numa extensão de mais de três centenas de metros, para que a máquina voadora pudesse pousar e levantar. Fez-se uma edição de postais ilustrados para angariar algum dinheiro e propagandear o acontecimento.

Contactaram-se os jornais para patrocínio, vindo a ser o “Diário de Notícias” o eleito. Se bem que o contagiante rodopio de preparativos das festas, de cuja comissão fazia parte o senhor Francisco Parente, chegasse a todos os outros órgãos de informação e tenha sido novamente “O Século” que, a 22 de Julho, noticiasse que iria ser um deslumbramento para quem se deslocasse a Macedo: quatro bandas de música, iluminações à moda do Minho, barraca de kermesse artisticamente ornamentada na qual venderiam sortes as mais gentis damas macedenses. Da parte religiosa constava missa a grande instrumental, procissão de penitência e missa campal. A coluna do jornal não termina sem que se refira: “Um dos grandes atractivos das festas será a vinda de um aeroplano pilotado pelo capitão-aviador sr. Sarmento Beires, o qual deverá aterrar no campo que está preparado para esse fim, no dia 28 às 9 horas[1], fazendo antes algumas evoluções sobre a vila, mostrando assim, ao povo trasmontano, os progressos da nossa aviação. O interesse regional procura atractivos de forma a tornar a vila de Macedo de Cavaleiros, que é já a mais bonita do distrito, a mais conhecida e a que mais distracções e comodidades oferece aos forasteiros. Espera-se por isso que as festas sejam grandemente concorridas.”[2]

Dias antes, sob instruções técnicas do piloto e da esquadrilha a que pertencia o aparelho, a da Amadora, tinha vindo por caminho de ferro o combustível necessário, óleo e apetrechos. Combinara-se mesmo haver uma fogueira fumarenta à hora da aterragem, para que se pudesse aperceber do alto de que lado estava o vento.

No dia 26 de Julho de 1922, às seis horas e trinta e cinco minutos da manhã, um biplano “Breguet 2” levantou voo da Amadora. Pilotava-o o Capitão Sarmento de Beires e vinham mais dois tripulantes, o Tenente José Carlos Piçarra como observador e o Sargento Ajudante Pinto de Gouveia como mecânico.

Percorreu os 350 Km até ao destino, sem escala. A sua aventura foi sendo seguida de terra pelas povoações sobrevoadas como Salgueiros (Casal Jusão), em que chegou a haver pânico nalgumas pessoas e onde o senhor João de Figueiredo Agostinho, comerciante em Benguela, fez subir alguns morteiros de saudação; Vila Moreira, às 8 horas, Sernancelhe, às 9; transportando a bordo centenas de Diários de Notícias, foram sendo despejados sobre Mangualde, Lamego, Moimenta da Beira e, no meio de uma euforia geral, sobre Macedo de Cavaleiros. Estes jornais, pela primeira vez recebidos no Distrito de Bragança a escassas quatro horas de terem sido impressos, foram disputadíssimos entre a população, tendo havido coleccionadores que chegaram a pagá-los a 10 escudos quando o seu preço de número era de 10 centavos (100 réis)!

Os macedenses e forasteiros tinham madrugado para assistir ao voo de chegada e aguardavam com nervosismo a ansiedade as horas que passaram desde que o telégrafo tinha avisado que a aeronave levantara voo da Amadora.

Por fim, um ronco contínuo foi sentido a vir dos lados de Bornes. Aterrissagem às nove horas e trinta minutos. Três horas, da Amadora a Macedo de Cavaleiros! Foguetório e banda de música, numa manhã de sol em que as senhoras se tinham munido de sombrinhas, os vivas e as saudações aos aviadores foram efusivas!

A comissão tinha um brinde para esta iniciativa e os seus elementos, o senhor Venâncio Morais, Manuel Serra, Lázaro Rodrigues e Francisco Parente, em sintonia com a Câmara Municipal, comunicaram que esta última tinha decidido oferecer ao estado por intermédio do senhor Capitão Sarmento de Beires, o campo de aterrissagem. Era a primeira tentativa séria, feita da parte da sociedade civil, para que o Nordeste, “esta região do extremo do país”, como se lhe refere o Diário de Notícias nos telegramas recebidos de Macedo de Cavaleiros, tivesse ligações aéreas com o resto do mundo! Milhares de pessoas aguardavam e observaram a aterragem.
Foguetes, sinos a rebate, correrias, foi um dia de entusiasmo e espanto. Aliás, uns dias. Porque o avião ficou por estas bandas uma semana.

No dia 30[3] o aeroplano levantou voo para fazer um tour pelo distrito, tendo sobrevoado Bragança, facto que ocorria pela primeira vez na história! Foi às seis horas e dez minutos da manhã! Houve foguetes e correrias e o assunto foi acaloradamente discutido pelos cafés e botequins, tendo sido esse facto decisivo para que a opinião pública bragançana despertasse para o progresso que representava a viação aérea!

O regresso à Amadora deu-se no dia 3 de Agosto. A viagem iniciou-se com a descolagem às 5,30 h, passou por Mangualde pouco depois das 6 e por Carregal do Sal às sete menos um quarto, tendo aqui sido saudado por uma morteirada. Passou sobre a Serra da Estrela e Coimbra, causando a sensação da novidade por todo o lado. Aterrou na Amadora às oito e vinte. Foi um record nacional de velocidade! 350 Km em duas horas e cinquenta minutos!

Durante anos perdurou na memória de quantos assistiram esta primeira vinda de um aeroplano ao Distrito e este testemunho documental e fotográfico aqui fica para a história de Macedo de Cavaleiros e para a história regional.




Bibliografia e fontes

Diário de Notícias
O Século
Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, Vol.IX, pg.233

Manuel Cardoso, Macedo Rua a Rua, ed. Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

Fotografias da família Sousa Cardoso

Postal ilustrado s/d, possivelmente da Casa Parente, Macedo de Cavaleiros


Na primeira página do Diário de Notícias de 27 de Julho de 1922 há uma fantástica notícia desta aventura, com uma fotografia em que aparecem os três aviadores da façanha.

[1] Acabou por ser a 26, como se pode ver neste artigo.
[2] In O Século de 5ª feira, 22 de Julho de 1922. Devo ao Dr. Lécio Leal e ao Dr. Carlos Mendes, da Associação Terras Quentes, a paciente busca deste jornal na Biblioteca Nacional.
[3] Não pudemos confirmar ou desmentir esta data ou outra indicada para este facto. O Abade, nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, vol.IX, pg 233, escreve que terá sido a 31 de Julho. De acordo com a redacção dada no jornal, terá sido a 30 mas pode tratar-se de uma interpretação do correspondente pelo que continuamos com a dúvida de 30 ou 31! Talvez algum leitor tenha uma prova irrefutável!!!! Uma foto datada!!! Uma carta que refira o acontecimento!!! Qualquer documento!!!

[i] Uma versão deste artigo foi publicada na revista Brigantia, do Arquivo Distrital de Bragança, em 2007.