sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PERSPECTIVA TURÍSTICA DA CAÇA

Perspectiva turística da caça


Seminário TURISMO: A OPORTUNIDADE EM TRÁS-OS-MONTES

XV FEIRA DE CAÇA E TURISMO

MACEDO DE CAVALEIROS

28 de Janeiro de 2011



Manuel Cardoso

A caça e o turismo, em Trás-os-Montes, andaram ligados no passado e estarão ligados no futuro. Mais do que ser a caça uma forma de turismo, é o turismo que tem na caça um dos seus produtos principais. Saber encarar, estudar e desenvolver esta forma de turismo, é importante para que este recurso continue a ser – e o seja cada vez mais – uma fonte de rendimento e de criação de riqueza. Mas para isso há que mudar alguns paradigmas…

1. Já lá vai o tempo em que se ouvia dizer aos comerciantes de Macedo, voz de satisfação e mãos esfregadas de nervoso contentamento, “vêm aí os caçadores!”. Os caçadores vinham da cidade: do Porto, de Guimarães, de Braga, tendo como destino Trás-os-Montes e, especialmente, Macedo de Cavaleiros. Alugavam quartos na Estalagem, em Pensões e em casas de amigos e compadres. A vinda dos caçadores significava dinheiro, que se veria trocado pelas dormidas, pelas refeições e tainadas, pelos aprestos de caça. Só casas a vender cartuchos legalmente havia, nos anos cinquenta e sessenta, oito. E haveria que gratificar, nas aldeias, o conhecimento dos poios da bicharada, a cedência dos cães, o serviço dos batedores e estafetas, até o trabalho das mulheres que tratavam da indispensável e genuína retaguarda gastronómica. Os caçadores apareciam primeiro para as rolas, mas eram raros, Verão ainda. Depois faziam-se mais numerosos para a perdiz e para os coelhos e lebres, orgulhosos cintos de fartos números em que não era raro aparecer uma raposa. E, Inverno entrado, havia os tordos, abibes e aves frias, nuns anos mais permitidos e noutros menos, caça de espera com rotinas marcadas, campeonatos de número, por olivais reconhecidos de ano para ano. “Vêm aí os caçadores!” era uma frase que marcava uma época, um sintoma da vida social que, economicamente, tinha expressão. Não se lhe chamava turismo mas era-o na sua essência e tomáramos nós que ainda hoje tivesse o significado que tinha. Centenas de noites vendidas em época baixa, elevadas taxas de ocupação num período que hoje é difícil de conseguir.
Edroso, Igreja Matriz, cena de caça ao javali, sécs. XIII-
XIV

2. Não era por acaso que os caçadores demandavam Macedo. A fama antiga de ser fértil em caça reconhece-se nos documentos que estão aí, pelo menos desde a Idade Média, de que as referências nos forais não são raras nem são raros os testemunhos. Por isso há uma caçada ao javali gravada na pedra em Edroso, com mais de seiscentos anos, e há os relatos deixados pelo século XVIII, que nos descrevem uma região, a nossa, abundante de caça, abundante de javalis e de corços, já nesse tempo. Multiplicam-se por aí, na nossa toponímia, as alusões aos cervos. Há livros que nos falam do Monte de Morais como “o mar da caça” e a Serra de Bornes, num tempo em que era cultivada de alto a baixo, foi alvo de várias tentativas para se transformar, na perspectiva desses tempos, em couto venatório. Numa fase de transição, a da transição da caça como forma de abastecimento de proteínas, de sustento de famílias, para a fase mais lúdica, mais desportiva, como então se dizia.

3. E não havendo cartazes, nem jornais que o propalassem, nem notícias de rádio e televisão, como surgiu esse interesse dos homens do litoral por este destino de caça? Quem nos revelou?

Caçadores pioneiros, a que não esteve estranho o facto de para aqui vir, combóio acima, durante anos seguidos, um caçador em particular, seguido do seu séquito, e que aliou à sua paixão pelos nossos montes e vales, o lado utilitário do negócio. Foi ele Manuel Pinto de Azevedo. Começou por vir até cá a convite e hospedado em casa de amigos, os Falcões, mas rapidamente toda a sua entourage ocupava o hotel Saldanha e as outras pensões que havia na vila. Do gosto de caçar pelos planaltos da serra de Ala e nas encostas para os Cortiços lhe veio a ideia de um dia comprar um casal de terra. Daí nasceu, há quase um século, a sua raiz em Vale Pradinhos. Progredindo no mundo dos negócios e relacionando-se com gente cada vez mais elevada no ranking dos empresários do Porto, nacionais e estrangeiros, que desafiava para este seu recanto de Portugal, nasceu a necessidade de ter um sítio onde instalar, com as comodidades que o século XX vinha proporcionando, todos esses seus amigos, de cada vez mais requintada exigência. Olho de caçador, de negociante de grosso trato e industrial, carteira de investimentos com capital bastante para necessidades e para caprichos, manda fazer uma Estalagem. Moderna, confortável, de um luxo fino. E com um grande nome: Estalagem do Caçador. Pensada no pós-guerra, construiu-se e inaugurou-se no início dos anos cinquenta. E teve um condão: identificou-se com Macedo. Em Portugal inteiro e até no estrangeiro, Macedo era a Estalagem. Toda a gente reconhecia este ponto no mapa, um importante cruzamento de estradas, como o sítio onde havia a Estalagem do Caçador. E fez mais pelo turismo pelo simples facto de ter existido aqui do que qualquer campanha para captação de visitantes. Quem quer que viesse a Trás-os-Montes, em negócio, em política, em trabalho, em veraneio, ficava ou passava pela Estalagem do Caçador. Que teve durante anos seguidos, nesses idos de cinquenta, sessenta e ainda setenta, períodos de contínua lotação esgotada. Com clientes habituais, que reservavam de ano a ano o seu quarto para a época venatória. E podiam trazer cão: a estalagem também tinha acomodações para o fiel amigo do caçador. Na esteira da fama da estalagem foram abrindo outras casas. Ainda bem. A caça dava para tudo.

4. O que fez esmorecer esse momento tão bom em que a caça era turismo? A diminuição do poder de compra? A alteração de hábitos sociais? As modificações e melhorias nas vias de comunicação? A democratização deste “desporto”?

Cremos que de tudo um pouco. Mas não há dúvida que as alterações das vias de comunicação, que vieram permitir a ida-e-volta sem esforço a partir do litoral, foi determinante para mudar a maneira de caçar e, sobretudo, o tempo de caçar. Deixou de ser preciso gastar cinco horas, cães a reboque, para vir e cinco horas para ir. Pela metade do tempo vem-se e regressa-se. E este facto foi determinante para transformar em meros visitantes, de um dia escasso, aqueles que até então vinham de véspera ou de antevéspera e eram autênticos turistas de pernoita certa. Com isso perdeu-se o tempo para mais. E a caça, hoje, na maioria dos casos, não é mais do que uma fuga de um dia à rotina, alterando-se definitivamente toda a atmosfera que envolvia a actividade e o modo de gastar o tempo que se lhe dedicava. Mas uma coisa é certa. Ainda há interesse pela caça, ainda somos um destino de caça e ainda não morreu a chama acesa da lareira a que nos aquecemos depois de um dia de caça. Então…

5. …então há que repensar a perspectiva da caça e em vez de equacionarmos o turismo por termos cá caçadores, equacionemos a caça para termos por cá turistas. O produto “caça” é um produto turístico muito mais importante do que o simples acto de caçar um coelho, uma perdiz ou um javali. O pressuposto de que “caça” implica uma arma, um homem e um animal para ser abatido, é apenas um detalhe do nosso produto. “Caça”, em si, é o animal e a sua paisagem. Por aí andam por esses montes e pelas nossas serras. À espera de ser observados, estudados, caçados, cozinhados e comidos. A caça em si é uma experiência que deve ser proporcionada ao turista. Com a presença e a emoção de caçar, de ir pelo campo, de ouvir os cães e sentir o frio e o cheiro. Mas que pode e deve ser complementada com cultura, com arte, com gastronomia. Com ciência! Não é por acaso que o canal Discovery ou o National Geographic Magazine têm elevadas audiências nos programas sobre vida natural: colocam o homem face a face com o jogo mais antigo da humanidade, o da observação dos animais. Algo que um caçador faz, e muito bem. E que tanto pode fazer com uma arma como com uma máquina de filmar ou fotográfica, como com um binóculo ou telescópio. Neste ponto de vista todos somos um caçador potencial. Está-nos nos genes. Saberemos indicar aos nossos potenciais caçadores-turistas onde podem ir caçar coelhos? E perdizes? Sabemos onde está a nossa caça? Como se multiplica? Organizamos workshops sobre a perdiz gastronómica? Organizamos workshops sobre os modos de caçar? Temos algo para dizer ou para mostrar sobre caça a quem nos escolhe como destino turístico? Estamos simplesmente à espera que venham os caçadores e que encontrem caça por aí?... Hm…

Veado em Latães, na Serra de Ala, 12 de Outubro de 2009
6. Para conseguirmos que, no futuro, continuemos a desenvolver a caça na perspectiva do turismo, não basta que haja o monte, a perdiz e a espingarda. Tem de haver algo mais, muito mais. O caçador tem de se sentir acolhido como um turista e não apenas como um cliente de uma associativa. Tem de se sentir bem e tem de sentir que os que traz consigo se estão a sentir bem. Tem de sentir que quando vem à pressa para regressar no mesmo dia, perde algo mais, muito mais, se não ficar cá a dormir. Tal como tem de sentir que o facto de ter vindo sozinho é um desperdício por não ter trazido a mulher e os filhos para que, entretanto, se dediquem a fazer algo que seria impensável e impossível se tivessem ficado na cidade. Um dia de caça entre nós tem de ser uma experiência inesquecível mas repetível, como o era para os caçadores que cá vinham há décadas atrás e passavam a palavra dos dias inesquecíveis nos nossos campos, na nossa estalagem, nas nossas lareiras. Temos de ser capazes de demonstrar que vale a pena não só vir caçar como vale a pena vir passar o dia entre nós. E a noite. E, mesmo que não se cace nada, fazer com que no espírito do nosso turista fique a sensação grata de um dia preenchido e não o desagradável vazio de um dia desperdiçado sem nenhuma perdiz ou coelho para por à cinta.

7. Já lá vai o tempo em que se ouvia dizer aos comerciantes de Macedo, voz de satisfação e mãos esfregadas de nervoso contentamento, “vêm aí os caçadores!”. Mas temos de fazer com que volte um tempo em que os caçadores que cá vêm, com voz de satisfação e mãos esfregadas de nervoso contentamento, digam “vem aí o nosso fim-de-semana em Macedo de Cavaleiros”. No dia em que isto acontecer, tal significa que a caça deixou de ser uma forma de turismo e o caçador passou a ser um verdadeiro turista. Não se pense que isto é um mero jogo de palavras. Nada disso. Isto é a demonstração de que há uma forma de ver a caça e o turismo como actividades com futuro na nossa terra. Tudo evolui. E o que não evolui, definha e morre. Ora, nós saberemos evoluir.

Albufeira do Azibo, Dezembro de 2007. Foto de Nuno Oliveira Martins

Vivemos um momento difícil, numa conjuntura difícil em que o país foi colocado. Mas os momentos difíceis são sempre momentos de oportunidade. Na perspectiva da caça, o turismo terá um futuro cada vez mais difícil. Mas na perspectiva do turismo, a caça terá um futuro promissor. É esta a maneira correcta de colocar hoje este nosso assunto. Somos um destino turístico de Verão que ultrapassou os 100 000 visitantes. Podemos ser um destino turístico de todo o ano desde que passemos a tratar a Caça na perspectiva do Turismo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O SEGREDO DA FONTE QUEIMADA

Quando foi apresentado em Lisboa, no dia 26 de Março de 2009, esteve ausente da sessão o apresentador! Mas enviou um texto que foi lido aos presentes. Esse texto é o post que hoje aqui colocamos, na íntegra. Do qual fiquei muito grato ao seu autor, o Professor Doutor Vítor Serrão.




LANÇAMENTO DE O SEGREDO DA FONTE QUEIMADA,


ÚLTIMO ROMANCE DE MANUEL CARDOSO

Em jeitos de prolegómeno informal, apenas duas palavras introdutórias. A primeira é de justificação para uma ausência forçada, que é devida ao facto de ter tido de arguir, hoje mesmo, uma tese de Doutoramento na Universidade de Évora, alvo de um agendamento de última hora, com o subsequente serviço académico que me impede de estar de corpo presente neste lançamento; a segunda palavra, e porque estou (ao menos) de espírito presente, é de reconhecimento público, tanto à editora Sopa de Letras e ao seu responsável, o Dr. Henrique Mota, pela forte aposta editorial, como muito em especial ao autor do romance O SEGREDO DA FONTE QUEIMADA, o novo livro do muito estimado Dr. Manuel Cardoso.

Antes de mais, devo dizer que se trata de um livro fascinante, que cruza tempos e sugere interpenetrações histórico-culturais e afectivas, ao tomar como pretexto de narração a figura do famoso «Dr. Mirandela», médico na corte de D. João V, autor do Aquilégio Medicinal, livro de 1726 sobre as propriedades das águas de Portugal, de que um exemplar cheio de sortilégios reaparece dois séculos volvidos na biblioteca de um velho capitão, aristocrata depauperado, bibliófilo triste com estatuto de desmazelo, a morrer aos poucos entre o quarto arrendado no segundo andar do nº 93 da Rua do Diário de Notícias e as cervejarias do Bairro Alto e das Portas de Santo Antão. O que une ambos os personagens – o do século XVIII e o do século XX – é precisamente a ligação íntima ao tal livro sobre os segredos curativos e propedêuticos das águas de Portugal, «livro com classe», escrito pelo primeiro como se de um projecto de vida se tratasse, relido amorosamente pelo capitão perante auditórios de café onde explicava «os humores, o desopilar das obstruções ou o desinchar dos hidrópicos» a partir das propriedades das águas… Isto, na Lisboa do tempo de Almada Negreiros e em plena ditadura de Salazar – num sugestivo reencontro de tempos, de diálogos sem tempo.

É preciso lembrar que o verdadeiro herói deste livro é uma figura de carne e osso, uma personagem real. Real e, ainda por cima, ilustre. O Dr. Francisco da Fonseca Henriques, vulgarmente chamado «Dr. Mirandela», foi um ilustre médico, escritor e pedagogo da ‘entourage’ de D. João V, ligado a personalidades como o escritor Rafael Bluteau, o mecenas D. Rodrigo de Sá Almeida e Meneses, Marquês de Abrantes, o escultor Claude de Laprade e alguns outros nomes ilustres da sociedade lisboeta de antes do Terramoto. Para que conste – e melhor o situemos neste pré-circunlóquio –, ele nasceu em Mirandela em 1665 e morreu em Lisboa em 1731. Formado em Coimbra, foi médico privativo do Magnânimo, e autor de vários tratados científicos, de que o mais famoso é justamente o (citemos o título na sua integralidade) Aquilegio medicinal, em que se dá noticia das aguas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas, e cisternas do reino de Portugal e dos Algarves [...] dignos de particular memoria, lançado pela Officina da Musica em 1726. É este celebrado livro, várias vezes reeditado em Portugal e no Brasil, que constitui o leit-motiv da narrativa de Manuel Cardoso. É um tratado onde são descritas as qualidades (e impropriedades) das águas de todas as fontes de Portugal, desde os mais formosos chafarizes citadinos às modestas fontes de mergulho das aldeias. O Dr. Fonseca Henriques era filho de um abastado lavrador brigantino, morador em Carvalhais, e teve oportunidade de estudar na Universidade de Coimbra, onde se formou em 1688, numa época em que o Reino saía a custo da crise provocada pelas terríveis guerras do Portugal Restaurado contra as tropas de Castela. Muito jovem, foi médico em Chaves, abre consultório em Mirandela. O facto de ter um tio que era feitor dos Távoras, permite que cedo vá poder fixar-se na capital, onde conquista a clientela de mais alto estatuto social e ingressa na Academia das Ciências. Em 1706, ascende a médico privativo do novo rei D. João V, ganhando reputação, ainda que nem sempre livre de invejas, caso das rivalidades que manteve com outro famoso médico, o Dr. João Curvo Semedo. O tratado que dedicou às qualidades das águas, e que terá começado pela descrição das propriedades da Fonte de Golfeiras, na sua bem familiar aldeia junto à vila de Mirandela, conquista os públicos e será uma espécie de best-seller da época; nos séculos seguintes, é obra de referência, presente nas melhores bibliotecas e disputada pelos mercados.

O resumo diz assim: «Na biblioteca de um velho capitão solitário figura um livro raro escrito por um médico de D. João V. Que segredos encerrará esse Aquilegio Medicinal sobre as fontes e águas de Portugal? E que águas e fontes serão verdadeiramente aquelas a que se refere o seu autor? É o que nos propõe descobrir nesta aliciante viagem no tempo até ao Portugal do século XVIII».

Eu li este livro, O Segredo da Fonte Queimada (que é a segunda incursão do autor na área do romance, depois do interessante Um Tiro na Bruma) com um crescendo de prazer. Um muito grande prazer. E até devo confessar que tenho uma postura de reserva militante perante a «novelística de História», género em expansão de mercado nos dias de hoje e que permite muitas vezes (a maioria das vezes!) uma deriva contra-factual sem sentido, aliada a um elementar desconhecimento histórico, ou a extrapolações demagógicas. Só excepcionalmente surge, por exemplo, um livro integrado nesse «género» com a qualidade do Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez (1962, recém-editado entre nós pela Sextante), onde de tal modo se recria o ambiente da Itália do século XVI que a obra mereceu ao exigente Jorge Luís Borges um rasgado elogio. Trata-se de tomar a História como o suporte artístico de uma literatura original, envolvente, criativa. Ora são estas valências que observo no romance de Manuel Cardoso: as «três histórias cruzadas» seguem o discurso cotejado de uma meta-narração em que Vicente, o herdeiro, o capitão Eduardo, tio daquele, e o médico-escritor da corte de D. João V, se irmanam para criar uma intriga veraz, poderosa e que, ademais, nos ilumina poderosamente sobre a Lisboa do século XVIII, essa Lisboa a dois andamentos que tão bem nos descreve: luxuosa e miserável ao mesmo tempo, pólo científico e de crendice supersticiosa ao mesmo tempo, urbe de palácios europeizados e de conventos de hábitos medievais ao mesmo tempo, centro de arte barroco-romana e de gostos anacrónicos ao mesmo tempo, capital de Império e urbe tradicionalista ao mesmo tempo, tempo de novos humanismos e de feroz esclavagismo e intolerância ao mesmo tempo… Ainda não há muito me deliciara ao ler o relato desta mesma Lisboa de antes do terramoto descrita com o rigor e a sensibilidade que permitem a extrapolação, na obra de José-Augusto França Lisboa – História Física e Moral (Livros Horizonte). A descrição que o Prof. França faz da Lisboa joanina, por exemplo no espaço de encosta entre a zona do Torel e a Calçada de Santana, incluindo a importantíssima igreja da Pena, igreja que era padroeira dos homens de artes e letras e ainda hoje nos oferece a beleza da sua talha dourada, da autoria de Claude de Laprade, e das pinturas de Jerónimo da Silva e André Gonçalves, faz jus ao ambiente criado no livro O Segredo da Fonte Queimada.

Creio que este livro de Manuel Cardoso se insere nesta mesma linha de reflexão criativa que legitima a contra-factualidade e o «probabilismo de evocação histórica»: basta ver-se a descrição muito credível da figura de D. Ana de Sá Sarmento, espécie de mecenas do Dr. Fonseca Henriques, entre a aldeia de Sesulfe, o cosmopolitismo de Lisboa e o sossego bucólico das terras quentes de Macedo. Dir-se-ia que as hipóteses que a liberdade criativa legitima ganham contornos de veracidade, lendo-se as páginas de Manuel Cardoso em que essa figura dessa amiga-protectora do Dr. Mirandela é parte envolvida. Tinha esboçado um «power-point» com imagens para acompanhar esta apresentação: o frontispício da primeira edição do Aquilegio, alguns retratos da sociedade quinto-joanina, uma possível efígie do Dr. Fonseca Henriques, imagens da igreja de Nossa Senhora da Pena e das artes na Lisboa barroca, etc, etc. Outros sortilégios impediram que tal complemento imagético pudesse ser apresentado. Outra vez será, quero crer, quando o livro chegar desejavelmente a uma 2ª edição.

Igreja de Nossa Senhora da Pena - Calçada de Santana
Resta dizer uma última palavra menos ‘técnica’ e mais pessoal. O Dr. Manuel Cardoso é um distinto médico veterinário estabelecido em Macedo de Cavaleiros, em cuja periferia reside. É, ademais, um empenhado militante na causa da defesa do Património cultural, fazendo parte da direcção da Associação de Defesa do Património ‘Terrras Quentes’, presidida pelo Dr Carlos Mendes. O facto de eu estar ligado, de há alguns anos a esta parte, ao inventário do Património artístico sacro dessa muito desconhecida região, permitiu-me conhecer bem Manuel Cardoso e apreciar as suas altas qualidades humanas, literárias e científicas. A sua probidade de escritor que se liberta de peias amadorísticas e vai afirmando um talento mais solto e amadurecido, levou-o a todo este trabalho de reconstituição de uma adequada «mentalidade de época» a fim de perscrutar os gostos, anseios, crenças e angústias dos lisboetas do primeiro terço do século de Setecentos; assim, o autor reenfocou essa sociedade, e fê-lo com acerto, a fim de enquadrar a intriga – de que não vou obviamente falar, para não privar os leitores do segredo. Apenas direi que existia, e existe ainda, uma certa fonte algures em terras fragosas de Sintra, entre brumas de mistério, que na edição de 1726 foi omitida por exigência régia…

Mas isso fica para o gosto prazenteiro desta vossa leitura.



Vítor Serrão

Historiador de Arte

Universidade de Lisboa

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ADRIANO MOREIRA - Um livro biográfico

"Adriano - Vida e obra de um grande português"




A sala estava cheia, convidados, população, grupo de escuteiros e coral da aldeia, com instrumentos entre os quais um oboé! Frio, um frio fim de tarde sem chuva. Dentro da sala estava abafado, da gente e de uns aquecedores de gás. Mas cumpriu-se a função, que acabou com vinho-do-porto para todos, enquanto o Professor e o autor do livro escreviam dedicatórias e autógrafos.

Palavras proferidas pelo autor deste blogue na apresentação do livro biográfico escrito por Manuel Vieira Pinto sobre o Professor Doutor Adriano Moreira em Grijó, Macedo de Cavaleiros, 11 de Dezembro de 2010:


Os livros biográficos têm, muitas vezes, um de dois defeitos ou os dois simultaneamente: um, o de transporem, para o passado dos visados, as nossas preocupações, polémicas e preconceitos e, outro, o de permitir que a imaginação de quem escreve faça afirmar, pela voz dos biografados ou na descrição dos factos vividos, mais do que os dados documentais permitiriam escrever (1). Não é o caso deste livro, Adriano - Vida e Obra de Um Grande Português, da autoria de Manuel Vieira Pinto(2). Não é um livro que nos transponha para o passado: pelo contrário, faz o passado vir ter connosco, com tudo o que de saboroso isso possa ter e tem e com tudo o que de importante isso possa permitir e permite. E se põe a imaginação a cumprir o seu papel, é porque a coloca no plano e na perspectiva do leitor, que a faz voar para os sucessivos quadros em que se desenrola a acção, a de uma vida real e tangível, preenchidíssima e riquíssima vida, e a coloca ao serviço de uma reconstituição fiel das linhas dessa mesma vida, passo a passo, ideia a ideia. Minhas senhoras e meus senhores: estamos perante um grande livro!

[Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Adriano Moreira

Excelentíssimo Senhor Doutor Manuel Vieira Pinto

Excelentíssimo Senhor Dr. Duarte Moreno, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

Excelentíssimo Senhor Presidente da Junta de Freguesia de Grijó, meu amigo Simão Ferreirinha

Excelentíssimo Senhor Daniel Gouveia, Editor

Minhas Senhoras e meus Senhores]

Devo dizer que não é menor a dificuldade de ter de me exprimir diante do autor e do biografado. Corro o risco de, ao querer agradar a ambos, desagradar aos dois: como não sei até que ponto o Professor Doutor Adriano se revê neste volume, se o elogio, posso, porventura, desagradar-lhe, se o critico, desagradarei a ambos. Ainda por cima eu não sou aqui nada nem ninguém, ao pé de quem o escreveu, e muito menos ao pé daquele que é o seu tema. Mas creio bem que andarei certo se adoptar como metodologia de crítica, neste caso não apenas literária, a mesma que o livro contém como tendo sido a que norteou as decisões de vida do Homem nele retratado. Assim, procurarei dizer apenas aquilo que em consciência estiver certo, sem qualquer preocupação de agradar ou desagradar seja a quem for e com a finalidade única de que a virtude fique no seu lugar. Em tudo o mais, cumprirei com desvelo o imperativo que me ditava o meu Pai quando eu, com nove ou dez anos, tendo que preencher algum lugar na mesa do King, inchadíssimo por ocupar a cadeira de alguém muito mais velho do que eu, me punha a opinar sobre as jogadas deste ou daquele. Aí, o meu Pai me dizia com indesfarçável tom de voz: “o cavalheiro reduza-se à sua insignificância!” É o que farei, cingindo-me, pois, ao que aqui nos traz.

Dizia eu que estamos perante um grande livro: são quase quatrocentas páginas de dados, de descrições e de inserções em contextos históricos, escritas com uma preocupação pela fundamentação das afirmações nele contidas, académica e rigorosa. Só notas de rodapé são mais de oitocentas! Mas não se pense que são estes números que tornam o livro grande, nada disso. O que o torna grande é, antes de mais, o seu tema e é a forma como se encontra estudado e redigido para apresentação ao leitor. É um livro grande porque em todas as suas linhas se nota um sem número de escrúpulos: escrúpulos em dizer a verdade; escrúpulos em não dizer nem de mais nem de menos; escrúpulos em não ferir susceptibilidades e escrúpulos em não atraiçoar, por causa dos mesmos escrúpulos, a finalidade de uma biografia. Grande, porque não está escrito para bajular nem para agradar a gregos ou a troianos mas para testemunhar, para ser um instrumento de transmissão de conhecimento e de preservação da memória.

A técnica utilizada, para nos fazer agarrar a toda a vida que pulsa no texto, tem um trabalho enorme por trás: o autor, para lá do seu texto original escrito num estilo limpo de bom português, seguindo a gramática que usa vírgulas e põe acentos, utiliza colagens de textos do biografado como recurso de escrita. Muito bem, me dirão. Mas eu digo-lhes que dizer “muito bem” é pouco, porque para isso, para fazer a selecção dos parágrafos a utilizar, para ter escolhido os representativos para o ponto de vista que, em cada capítulo e sub-capítulo, nos quis apresentar, tal significa que foi feito um esforço imenso de leitura, anotação e selecção que deve ter ocupado milhares de horas! Esta biografia não se fica, pois, por um ensaio árido sobre o objecto de estudo. Esta biografia é um exercício antológico do pensamento do Professor Adriano Moreira. É uma mistura de biografia propriamente dita, de memórias e de preocupação pedagógica em utilizar o testemunho da vida retratada como fonte de sabedoria para as gerações presentes e futuras.

A história poderia ter sido de outra maneira? É uma pergunta que percorre os bastidores em que estamos a assistir ao desenrolar de uma vida, desde Grijó a Lisboa, de Campolide à Rua da Junqueira, do Aljube ao Ministério do Ultramar, de Angola ao Brasil e a todo o Mundo. Há Portugal em todo o Mundo e o sangue que dá vida a este livro pode bem chamar-se Portugal! Porque foi esse sangue que animou e é esse sangue que anima, o sangue da Família Portuguesa, a vida do Professor Doutor Adriano Moreira.

Vida e obra de um grande português: não está escrito à distância indiferente de quem arruma a cronologia e expõe um curriculum. Está escrito página a página com o entusiasmo de quem aderiu e adere, de quem quer ver o leitor arrebatado por essa vida e por essa mesma obra. Arrebatado em nome de quê? Em nome do tenaz esforço que é preciso para a preservação da nossa Identidade, dos valores da Pátria e da Família, da sucessão dos factos, decisões e contingências que implicam toda uma vida. A roda e o eixo, em que o eixo são esses valores, imutáveis, sejam quais forem as voltas que a vida faça dar à roda!(3)

São sempre possíveis muitas leituras para um mesmo livro e este não foge à regra. Mas há uma leitura, dentre as demais, que é indispensável que aqui se faça e se diga. A sua leitura política. Quem o fizer, limpo de espírito e capaz de ser portador de um ideal, deparará com uma lição de política, sim. A de que a política, o serviço a favor da polis, deve sempre ser praticada como promoção do Bem-Comum e não como a conquista do poder para interesses particulares.

Este livro é uma contribuição para a História, uma contribuição benévola mas valiosa. A história tem sempre protagonistas e espectadores, uns e outros nos seus papéis de portadores dos testemunhos. Ao lermos factos e termos a percepção dos seus actores (aqui alinhados com um fio condutor que os faz ver com outra clareza e com uma perspectiva, nalguns casos, surpreendente), ficamos mais gratos por termos chegado até aqui e, sem dúvida, por termos tido o privilégio de, hoje, nesta sala, termos podido estar no mesmo local e hora em que estão também dois protagonistas tão especiais dessa mesma História. No fundo, ao percorrermos os treze capítulos em que nos é dado poder participar do que foi e é o pensamento e a acção de um grande português, ficamos com a sensação de que todos acabamos por estar empenhados nesta corrida que nos coloca num determinado espaço e num determinado tempo à procura de um sentido para a nossa própria existência e também de “saúde e dinheiro, já que Deus não nos pode dar tudo!”.

Finalmente, mas antes de me reduzir à minha insignificância, meu caro Doutor Manuel Vieira Pinto, devo dizer que, quando cheguei ao fim do livro, me veio a ideia de que o meu amigo corre o risco sério de que seja classificado academicamente pelo Professor Doutor Adriano Moreira. Não sei que nota lhe dará. Mas tenho a certeza que, no mínimo, tem garantida uma ida à oral, se é que não mesmo uma dispensa. É que a prova escrita, esta prova escrita está, sem dúvida, muito bem!

Manuel Cardoso

Grijó, 11 de Dezembro de 2010

1- Ver sobre este tema de biografias o prefácio de Maria Filomena Mónica em Vidas, Alêtheia Editores, Lisboa, Abril de 2010.



2- DG Edições, Linda-a-Velha, ©2009 M.Vieira Pinto e DG Edições, 1ª edição Outubro 2010, ISBN 978-989-8135-55-1.


3- O Professor Adriano, nas suas palavras de agradecimento e comentário feitas a seguir a ter-me ouvido ler este texto, explicou que esta imagem da roda e do eixo o tem acompanhado toda a vida desde que na juventude leu um livro, um romance de Morgan, intitulado Sparkenbroke, que o marcou.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Um livro que me ofereceram

Moedas Romanas
 Achados no Alto Tâmega e Barroso
Fernando Cantista Pizarro Bravo
Câmara Municipal de Chaves
2006

Há tempos ofereceram-me um livro. Um destes livros decorativos, capa com design cuidado e papel de luxo de gramagem pesada, fotografia profusa a acompanhar um texto sóbrio e espaçado. Um destes livros – pensei eu ao pegar-lhe pela primeira vez, ao desembrulhá-lo porque me chegou pelo correio – que são bons para ficar em cima de uma mesa a encher espaço e a encher o olho, mas cujo recheio cumpre a função menor de apenas justificar o empate de dinheiro com que as câmaras têm subsidiado tantas edições inúteis. Um livro pesado, de título especial: “MOEDAS ROMANAS”, a que se segue um subtítulo “Achados no Alto Tâmega e Barroso”. Como me era enviado por um amigo de Chaves e que era o seu autor, pessoa consideradíssima, pousei-o gravemente em cima da papeleira da sala a aguardar um dia, de vagar e vontade, para lhe pegar e agradecer.


Só que o tempo encarrega-se de nos envolver nos seus caprichos e fados e os dias foram passando sem que eu lhe desse uma atenção devida. Então mal o folheei, apenas ficando com a impressão de ser bastante mais do que os meus preconceitos formados sobre ele – mas mais nada do que isso. Entretanto meteram-se assuntos que relegaram para o esquecimento os dias da minha memória recente e acumularam-se sobre ele, no tampo aberto da papeleira, estratos e estratos de jornais, revistas, outros papéis e livros, ocultando-o e subtraindo-o à minha atenção e interesse imediato. Passei pela vergonha de receber um telefonema do autor a saber se o dito me tinha chegado ainda antes de eu o ter agradecido, como devia! Que vergonha e que falta de chá a minha! Mas nem assim o pus em cima da pilha. Ficou a aguardar ainda.

Até que numa destas manhãs de fim-de-semana, colhendo uma braçada de papéis e segurando com firmeza uns quantos volumes desirmanados para arrumar em prateleiras, me volta a aparecer o dito cujo, muito azul e branco com duas moedas de prata e ouro na capa, muito inconveniente porque o seu tamanho não dá para uma prateleira normal, e então me surge com ele a determinação de cumprir o dever de o ler ou, pelo menos, de o folhear de modo atento, para dele poder dar notícia e encerrar capítulo tão incómodo, escrevendo um agradecimento para Chaves e remetendo-o para o armário dos livros menos necessários no dia-a-dia – sentenciei interiormente. E como adivinhava umas horas penosas para cumprir tal desígnio, mentalmente preparei-me para o sacrifício e abonar assim em meu favor a perda de tempo que iria ser. Num repente passei as folhas como um baralho de cartas, apenas para introdução na tarefa, e mais uma vez se materializou a ideia de ter pela frente um monótono catálogo de moedas, com anotações e minudências numismáticas de coleccionador obsessivo. Mas tinha de ser. Era o dia. Suspirei.

Levei-o para a mesa do computador, pousei-o sob o candeeiro articulado e comecei a sua análise. Levantei pela primeira vez as abas da sobrecapa e tive uma surpresa: por dentro a capa dura é forrada a tecido azul liso, suave ao toque, com o título e o subtítulo gravados em dourado sóbrio e sob eles as tais moedas, mas aqui sem cor, apenas em relevo afundando-se no tecido e no cartão, como dois apagados enigmas. Muito bem concebida, esta capa! Depois o cólofon, onde uma simpática e imerecida dedicatória fez germinar em mim um remorso ao relê-la, elegantemente manuscrita. Segue-se uma página de apresentação do autor, de agradecimentos e de dedicatória pública à sua Família, uma Família em sentido intemporal e eterno. Nova folha, com uma breve mas eloquente sucessão de quatro pequenos parágrafos em que o então Presidente da Câmara de Chaves justifica o livro e o seu tema e agradece ao autor o seu trabalho. E chega-se ao Prefácio, em que a primeira frase parece escrita premonitoriamente para mim, uma frase de aviso ao leitor que “possui em suas mãos uma obra que trata de um assunto que nem sempre tem a consideração que lhe é devida”. Que sibila terá soprado tal ideia ao autor do prefácio?! Fiquei sorridente com a coincidência e fui ler o nome dele, que é, nada mais nada menos, que Manuel João de Morais Sarmento Pizarro Bravo, filho do autor, historiador. Em duas páginas agarra-nos para a importância do estudo das moedas, situa-nos no contexto da história do dinheiro e na importância civilizacional e cultural do seu uso, posiciona-nos geograficamente para compreendermos a importância do conteúdo deste livro. Três importâncias complementares a que junta uma outra: a da visão e experiência do autor como conhecedor da Terra e da Matéria desta obra. A partir daqui tomei consciência da minha grande ignorância e fiquei apto a compreender a Importância do livro que tinha por diante. E passei a lê-lo com a reverência de quem penetra numa floresta virgem e fica embasbacado a cada árvore que vê.

Cuja primeira tem logo a ver com uma das tais moedas que estão na capa, a prateada, um denário, em que uma cabeça de mulher se apresenta “com expressão de tristeza e os cabelos da frente não penteados” e que é uma moeda que faz alusão ao triunfo de Lúcio Postúmio Albino sobre os lusitanos e vaceus em 576, era de Roma (178 a.C.). Isto, logo no capítulo de Introdução. A que se segue o A Moeda Romana. Aí encontramos a outra moeda da capa, um denário áureo, de Trajano. Como encontramos muitas outras, todas com particularidades e explicações cabais sobre a sua cunhagem, valor e circulação, a servir de chave à leitura e interpretação dos achados arqueológicos mais tarde referidos no livro, no capítulo IV. Há um capítulo sobre falsificações, um aspecto curioso e que revela a cuidada atenção do autor posta nesta obra. A descrição dos achados acaba por conduzir-nos numa interessante leitura da paisagem geográfica da região do Alto Tâmega e do Barroso e seu decalque histórico no período em estudo. A romanização não se fez sem instrumentos e um dos instrumentos foram os pagamentos de serviços em metálico. De que estes achados assim tratados em livro são um bom decalque, como digo, suficiente por si para se poder ter uma imagem e traçar em grandes linhas a persistente e profunda acção da administração romana na península e, em particular, neste sector da península. A datação provável da ocultação de alguns tesouros achados permite distinguir as duas épocas mais problemáticas de convulsão social e até civilizacional, a coincidir com a da fase de ocupação republicana mais violenta, nos finais do primeiro século antes de Cristo, e com a fase das hordas bárbaras, particularmente as dos suevos a partir de 411 d.C. Muitos dos numismas são acompanhados das circunstâncias do seu achamento, da história do numisma em si, com a cunhagem e todas as variáveis a ela associadas (o ordenante da cunhagem, o metal empregue, a datação, etc.), as hipóteses sobre a sua ocultação, se é caso disso, e a forma como se encontra hoje ao dispor do público e condições de exposição. A região objecto de estudo é Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços, Vila Pouca de Aguiar e ainda o Alto Tâmega Galego. Além das notícias inéditas, revisitamos com o autor algumas colecções célebres de investigadores consagrados. Tudo acompanhado de uma bibliografia abundante e adequada a cada caso em particular. Um trabalho notável, só possível com a dedicação de uma vida a este tema!

A leitura e interpretação da centena e meia de páginas em que se expõe esta matéria não é feita isenta de dificuldades, sobretudo porque muitos pormenores históricos relativos à República e ao Império Romano escapam a quem se debruça em coisas específicas como estas moedas. E sobretudo a leitores menos preparados como nós. Mas o autor pensou em ajudar-nos nessas dificuldades e acrescentou ao livro preciosos anexos: um mapa da República Romana e um mapa do Império à data da sua maior expansão no tempo de Trajano (117 d.C.); um modelo para se fazer a classificação duma moeda imperial romana e para a leitura e interpretação das suas inscrições; uma tabela com a sistematização das diferenças principais entre as cunhagens consulares e imperiais; um mapa com as oficinas monetárias do Império Romano; uma listagem das abreviaturas das casas da moeda imperiais; um conjunto de tabelas de equivalência de valores entre as moedas romanas; uma cronologia dos imperadores e familiares cujos nomes figuram nas moedas do Império Romano; um elenco das divindades, alegorias e personagens representadas nas moedas romanas e ainda uma fotografia da Praça da Misericórdia de Chaves ou Praça do Município ou Praça de Camões onde, sob as raízes de um olmo, apareceram centenas de moedas ao longo do período de trabalhos que demorou a remoção da árvore e arranjo do local. A bibliografia do volume conta com mais de sessenta entradas e as notas de rodapé são quase duzentas!

Confesso que a leitura do livro foi empolgante, apesar do sentimento árido que ao início me fez temer não chegar ao fim e que exprimi ao começar a escrever este artigo. Foi empolgante, não só por tudo o que expus até agora e que me fez rever positivamente a minha impressão do livro, mas por outros motivos ainda. Um deles é o de que se nota, na escrita do autor, um grande amor à sua terra e um amor entranhado, não apenas aquele bairrismo de bandeira e pregão, mas algo que lhe corre naturalmente nas veias: o autor sente-se a própria terra. E há pormenores reveladores, uma frase aqui, uma nota acolá, uma ironia insuspeita com o uso deste ou daquele adjectivo, desta ou daquela pontuação. Teve a capacidade de fazer-nos sentir que aqueles que percorreram este horizonte nos tempos recuados de há dois milénios atrás tiveram, através das moedas, uma forma de comunhão com uma realidade mais vasta e abstracta que foi a do vasto Império. Tangível nesses documentos de ouro, prata, bronze e cobre, o cumprimento de mais do que lhes esteve na origem: é que se foram instrumento de troca e de civilização nesse tempo, sobreviveram até hoje em dia, forjando-nos um sentimento de pertença ao mundo ocidental, de ontem e de hoje, que muito nos orgulha. O sentirmo-nos também romanos é algo de estruturante em nós, região e país. Este sentimento de identidade e a sua assunção como um valor é, talvez, uma dimensão que o livro tem e que ficará para os elementos da sua Família que hão-de vir. Que o experimentarão ao, um dia, lerem o livro. Um livro que é, lido assim porque o autor assim o soube escrever, muito mais do que um trabalho de história ou de numismática. Também por isso fica agora, afinal!, arrumado à mão, na estante dos meus livros de consulta.
Bem haja por um livro tão bom!

Moedas Romanas – Achados no Alto Tâmega e Barroso, de Fernando Cantista Pizarro Bravo, Dep. Legal 241819/06, Edição da Câmara Municipal de Chaves, 2006

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Portugal Republicano e Portugal Monárquico: o transe de um povo aflito

Texto resumido de uma comunicação feita no Arquivo Distrital de Bragança em Novembro, no âmbito das comemorações da Implantação da República, nas palestras “ A República no Distrito de Bragança”. O tema da comunicação foi o da razão de ser do romance Um Tiro na Bruma.



Fragmento de granada incendiária
disparada contra Mirandela
no combate de 9 de Fevereiro de 1919,
pelas tropas realistas.

Sempre desconfiei da história quando ela é contada pelos vencedores: esquecem-se os argumentos dos vencidos e demoniza-se o inimigo, continuando-se a fazer cair sobre ele todas as famas de todos os males, mesmo depois de derrotado. Há disto imensos exemplos, de que nem vale a pena estarmos agora a citar casos ilustrativos porque de todos são conhecidos, quer se refiram a conflitos recentes quer a conflitos antigos.



Nesse tipo de história, são sempre heróicos os gestos dos vencedores e desprezíveis os actos dos vencidos quando, na realidade, pode ter havido heroicidade de ambos os lados tal como pode ter havido – houve, certamente – actos reprováveis de ambos, também.


Normalmente “quem se trama” sempre é o povo, entendido “o povo” como toda a massa que é arrastada pelos acontecimentos e não como classe social. Apesar de sempre muito elogiado e usado como motivo, como argumento ou como cortina de fumo, o povo não só “paga as favas”, para usar uma expressão eloquente por si, como se vê obrigado a engolir em seco os silêncios politicamente correctos e a acenar de assentimento – quando não a ter de cantar a vitória – às palavras e actos dos novos vencedores, também numa lógica do politicamente correcto, entenda-se, do jogo pela sobrevivência do mesmo povo...



Acontece isto também com as famílias e com a sua crónica, depois de terem passado por períodos de prevalência de uma perspectiva a partir de um dos seus ramos ou após algum sobressalto fracturante que as tenha desestruturado ou colocado em dificuldades. Nas famílias também se enaltecem ou se depreciam caracteres e percursos, ao sabor do critério dos que contam essas crónicas. Também há os santos e os pecadores. E os demónios. Na vida das famílias, tal como na história, aparece, à mão ou na boca de quem conta, um bode expiatório para fazer o papel. Quero dizer, não aparece, é lá colocado, tal como fazem os vencedores na política e nas tragédias de um povo. Se, para estes, esse papel é fácil para dele serem investidos os vencidos, para os dramas familiares mais ligeiros está sempre uma sogra à vista, para os mais pesados há sempre um ex-cônjuge que terá traído os votos do compromisso matrimonial, ou da sua união sentimental, e que terá dissipado o seu capital de bens e de bom nome. As famílias e a história estão cheias de exemplos destes, de anjos exemplares e de filhos pródigos de quem se conta a parte rebelde mas de quem se esquece, propositadamente, já se vê, de contar antecedentes, condicionantes ou de revelar o verdadeiro final. No exemplo do Evangelho, porque se trata de uma parábola contada por um autor que dispensa adjectivos, o drama é-nos contado completo e substantivo mas na nossa vida já não é o caso…



…tal como não o foi para mim quando comecei a perceber como era a história de vida do meu Avô Amadeu. Que morreu mais de uma década antes de eu nascer. Médico, arrivista (era de Alijó e veio viver e a casar em Macedo), republicano, muito culto, muito senhor das suas opiniões, muito mulherengo, mesmo muito mulherengo e gastador do pecúlio familiar. O contraponto da minha Avó, senhora de Macedo, monárquica, também culta, também senhora das suas opiniões, fiel ao seu marido e filhos, muito fiel ao seu marido e filhos apesar dos que a cortejaram mesmo depois de casada e que exploravam o tentar adoçar, junto da Micas, tal era o seu petit-nom, o lado amargo de se saber traída. Aos quais nunca cedeu. Tinha sido educada na convicção de que os prazeres proibidos não são maneira nem de curar o orgulho ferido nem, muito menos, de conservar a autoridade inatacável da posição em que o marido a colocara. Várias vezes o Avô Amadeu precipitou as finanças familiares em situações difíceis, várias vezes a Micas teve de acorrer, com jóias ou com legítimas de herança, para saldar contas e calar usurários. O Avô acabou por morrer, em meados dos anos quarenta, e a avó sobreviveu-lhe uma década e meia. Durante esses anos, passados no pós-guerra e na década de cinquenta, a Avó continuou a ser um esteio da família da maneira como são as Avós: espalhando sorrisos e contando histórias aos netos, estando sempre atenta para ser seus cúmplice nos pequenos caprichos que deixam saudades. E continuou a fazer o que sempre tinha feito ao longo da vida: a ajudar os pobres, a valer com uma palavra ou com um gesto a todos os que lhe chegavam ou de quem lhe chegavam vozes aflitas. E a ajudar, depois de o meu Avô morrer, para cúmulo, algumas daquelas que se encontravam desamparadas e o tinham tido nos braços, em vida…

Claro que, com um tão grande período de sobrevivência da minha Avó sobre o meu Avô, a história dele chegou até mim com todos os defeitos de uma história contada pelos vencedores. Neste caso, sobreviventes. Ainda por cima, pessoas que tinham tido convívio com a minha Avó e às quais, inconscientemente ou conscientemente, tinha “comprado” uma versão dos acontecimentos com o seu desvelo.

Em casa não se falava, praticamente, do Avô, a não ser para se exclamar “não te ponhas como o Avô” quando alguém discutia de uma determinada maneira ou adoptava um determinado comportamento. Quando eu perguntava a alguém pelo Avô, em Macedo, a conversa em menos de um minuto estava invariavelmente centrada na minha Avó: “uma Senhora, muito bonita, tão boa para todos, tão infeliz com o seu Avozinho…”. Sobre o Avô, nada ou quase. E quando eu, caso a caso, comecei a agarrar uma palavra a este, outra àquele, sobre o Avô, comecei então a descobrir que a realidade tinha sido outra. Não radicalmente diferente mas outra, simplesmente. O Avô tinha tido qualidades, afinal. Também defeitos inegáveis, sem dúvida. Mas não era aquele ser de quem nem se poderia falar!

E comecei a perceber que muitos dos que logo me falavam da minha Avó, ao serem interpelados sobre o Avô, tinham sido, directa ou indirectamente, beneficiários da caridade da minha Avó…

Ora, quando comecei a querer contar esta história e a situá-la na sua época, no início do século XX, na transição da Monarquia para a República, comecei a investigar passo a passo todo esse período mas de uma forma autêntica e directa. Ou seja, em vez de me por a ler obras daqueles que sobre esse período escreveram com este ou aquele partis pris ideológico, pus-me a ler os jornais, as revistas, os romances e folhetins que nesse tempo se liam. Pus-me, dessa maneira, a viver na realidade da época. Foi fascinante. Segui o decurso de meses e anos lendo o Diário de Notícias e muitos outros jornais que se publicavam, folheando e vendo as fotografias da Ilustração Portuguesa e doutras revistas e almanaques, seguindo o dia-a-dia dos acontecimentos. Mas como, ao mesmo tempo, eu lia também os livros de autor escritos sobre essa época, comecei a notar uma diferença enorme entre o que era a percepção do que acontecia no dia-a-dia, que eu fazia para mim ao ler os jornais e outros documentos, e aquilo que sobre isso era contado pelos tais autores de livros sobre essa época. Comecei-me a dar conta que havia um distorcer da verdade, entendendo como verdade o desenrolar dos acontecimentos e a sua cronologia, critérios necessários para que a história possa ser objectiva. E então percebi o que estava a acontecer: a história que nós conhecemos sobre a Implantação da República, a que nos é contada desde a escola primária, não é mais do que a história contada pelos vencedores, com todos os defeitos de uma história contada pelos vencedores. Ainda por cima com uma agravante: é-nos contada para camuflar não só uma realidade diferente mas, muitas vezes, uma realidade inexistente! É incrível! O que se passou na realidade é de tal modo diferente do que tantos hoje afirmam que, para quem souber e conhecer verdadeiramente esse período, toda a nossa história subsequente sobre o século XX ganha uma nova leitura.

Fiz uma descoberta, em certo sentido, infeliz e que me tem trazido triste nesse assunto: a de que havia e há uma conspiração, de muita gente que escreve e que dá opiniões, que ainda hoje persiste, uma conspiração que não é apenas contra a monarquia ou a favor da república mas que é muito pior: é contra a verdade.

Descobri, assim, que havia um paralelismo entre o que se dizia ou não dizia sobre o Avô Amadeu, em nossa casa, e o que se diz ou não diz por todo o lado sobre o que foi o fim da nossa Monarquia e a vigência da nossa Primeira República. E decidi-me a escrever sobre isso. Escrever um ensaio, argumentar, envolver-me em discussões que não levam a lado nenhum na maioria das vezes? Não. Preferi tentar escrever um romance sobre esse período. Um romance baseado na realidade. Foi assim que nasceu Um Tiro na Bruma.

Que isto não sirva apenas para se dizer que “afinal nem o fim da monarquia foi assim tão mau nem a república assim tão boa”. Não. É muito mais do que isso. Porque há, no fim de contas, vencedores e vencidos. Nestes últimos está sempre o povo, entendido na acepção referida acima, e esteve, quase sempre, a verdade. O que me deixa com uma esperança: a de que, apesar de tudo e contra tudo, ela venha a prevalecer e, com ela, nós venhamos a poder, um dia, sair triunfantes das dificuldades do nosso dia-a-dia.

O verdadeiro sacrificado, na transição da Monarquia para a República, foi o povo. O povo viu-se mesmo aflito, depois do 5 de Outubro. Com fome, doente, obrigado a combater, a morrer, a vestir-se de luto, impedido de rezar por decreto. Ainda por cima com uma conjuntura de pavor: caíam as monarquias e os impérios, assistia-se a uma destruição sem precedentes, com máquinas e venenos sem precedentes, a batalhas e desastres antes inauditos, a epidemias de escala total que não poupavam ninguém. As greves, os tiroteios nas ruas, os saques e assaltos das lojas e casas, os meses de trabalho sem soldo, os atentados e assassinatos constantes faziam da intranquilidade e do medo uma vivência permanente. O povo pensou que o mundo ia acabar – e imediatamente. Foi uma época vivida em transe e com uma grande aflição. Uma época difícil, extremamente difícil.

Mas são precisamente essas épocas difíceis que nos devem merecer olhá-las e invocá-las com todo o respeito. Respeito pelos que a viveram e lhe souberam sobreviver. Respeito pela sua verdade. Em nome deste respeito nos propusemos deixar o nosso testemunho.

sábado, 18 de dezembro de 2010

MÚSICA

Habituei-me desde muito cedo a estudar com música. Gira-discos (primitivíssimo, um Dual portátil que era da minha irmã mais velha e que funcionava a pilhas) ou rádio (pré-histórico, um Phillips 38 a válvulas com esplêndido som, que o meu pai prezava muito e que quando se ligava tinha primeiro de aquecer e emitir um característico Hhummm!), a primeira coisa que eu fazia antes de abrir os livros e os cadernos na mesa do quarto era sintonizar o posto (o canal dois da Emissora Nacional ou o Rádio Clube Português) ou colocar um disco no prato (as Sylphides de Chopin em 33 rotações ou o Grand Hotel dos Procol Harum, que a minha irmã Pilar tinha trazido de Inglaterra, ou ainda os 45 rotações da Suzi Quattro que se esgotavam num ápice). Mais tarde, já na faculdade, passou a ser a RFM a onda de eleição que me tem acompanhado até hoje, em casa ou no carro, se bem que quando estou diante do écran do computador faça grandes variações com emissoras de países longínquos on-line ou com escolhas do Youtube. Enquanto estou a escrever este artigo, tenho estado a ouvir Rachmaninoff, o segundo concerto para piano e orquestra, muito romântico e arrebatador, cujos clips vou partilhando no facebook…


Música! Conjunto de sons capaz de produzir superiores sensações, capaz de nos fazer sorrir e de nos levar às lágrimas em menos de um estalar de dedos. Um estímulo à criatividade, à reflexão, à comunhão. Música! Fantástico denominador comum que junta no mesmo sítio, para assistir e participar num concerto, seja ele clássico ou pop, as pessoas mais diferentes nas suas ideias, no seu modo de estar na vida. No filme A Missão vê-se qual foi a ponte que os Jesuítas estabeleceram com os Índios para ultrapassar, num primeiro passo, o abismo civilizacional que os separava: música, Bach, como pedagogia do princípio de uma relação cultural e religiosa!

O ensino da música deveria ser obrigatório e deveria ser ampliado em todas as escolas. Ainda no número de Novembro último da Scientific American, prestigiadíssima revista científica de divulgação e debate, vem um artigo em que mais uma vez se refere que as nossas capacidades de aprendizagem se ampliam pelas profundas e perduráveis mudanças que a música é capaz de produzir no cérebro. “As escolas deveriam aumentar as suas aulas de música em vez de as cortar”, escreve-se. “A prática musical desenvolve as capacidades de prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. A música não é nem deve ser um extra, mesmo que os orçamentos sejam apertados. Aprender e tocar um instrumento, para lá do prazer imenso que proporciona, aumenta a capacidade de aprendizagem e tem um efeito benéfico sobre um cérebro em desenvolvimento”.

A música tem ainda o condão extraordinário de preencher o tempo, de ultrapassar em muito o simples entretenimento. É uma das nossas melhores companhias e não só para estudar. É uma excelente companhia para nos ajudar a passar os momentos de crise. Devia haver muito mais música na escola e na vida.

(Este meu artigo foi publicado no último Mensageiro de Bragança, se bem que com alguns pormenores modificados)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A contracção do tempo

A Mariana e eu descobrimos um sítio em que duas horas se transformam em dez minutos. Pelo condão especial de uma pessoa que resolveu partilhar, pensamos, uma das paixões e uma busca da sua vida.
Só o facto de se entrar no edifício é já uma iniciação: passar a porta de entrada é um recuo no tempo (nem é preciso grande imaginação, basta sentir que muda o som e muda a luz, duas circunstâncias imateriais que conseguem modular a velocidade do nosso dia-a-dia). Depois vem um breve, brevíssimo gesto burocrático de rabiscar uma cruz num papel, a dizer que estamos presentes (Deus queira que a nossa entrada no Céu seja assim só com a demora de um instante!), a que se segue percorrer um rés-do-chão abobadado no fim do qual há uma escada – e que escada! – de dois lanços, suave nos degraus de granito que abafa sons, belíssima na simplicidade da concepção, que se sobe com a certeza de estarmos a cruzar com milhares de pessoas que, antes de nós, desde há mais de dois séculos por ela passaram com as suas toillettes de cerimónia em ocasiões de festa, os seus trajes de súplica em dias de audiência, as suas fardas de ofício nas horas de despacho, a sua intenção íntima de remediar urgências ou tentar encontrar lenitivos para aflições. As escadas estão, assim, cheias de significado e subi-las é caminhar, degrau a degrau, para uma porta que nos aguarda como se fosse mais uma porta mágica, vazia, cheia de um sortilégio inesperado: para lá dela temos um encontro marcado com duas horas que roçam o absoluto. Para lá dela está o salão do auditório, paredes brancas para imagens de todos os possíveis, cadeiras onde nos sentámos, no primeiro dia, sem uma expectativa definida: o que aconteceu mal dá para se descrever porque as duas horas que ali estivemos, passadas com uma brevidade insuspeita, rapidamente nos puseram numa experiência de arrebatamento, que roça a metafísica. Trata-se simplesmente de música, trata-se simplesmente de uma iniciação à história da música, trata-se apenas e só de revisitar tantos lugares comuns aprendidos e ouvidos ao longo da vida. Ou não se trata nada disso! A experiência daquelas duas horas, que já duram há umas semanas, às quintas-feiras, no Museu de Lamego, tem sido inesquecível, como são sempre inesquecíveis todos os transes da nossa vida em que parece, por momentos, que essa mesma vida resolveu nos abrir um parêntesis. Onde estivemos naquelas duas horas enquanto um powerpoint desdobra imagens, duas colunas de som nos dão um banho de decibéis, dois candelabros iluminam sobre a mesa como se fossem um Aleph de Borges, a voz de José Pessoa nos diz coisas e mais coisas, umas atrás das outras, vociferadas com intensidade como se as pintasse a óleo, no ar, numa tela que ele vê nítida e onde se esforça – e consegue! - por misturar os tons densos das cores que pintam a sua busca da verdade (que ele anda à busca da verdade desde há muito e tem dela já muito mais que o pressentimento, nota-se quando se emociona com a busca da verdade com que esbarra nas músicas, nas canções, nos compositores, na que todos eles empreenderam antes dele), onde estivemos? Onde estivemos? A ouvir José Pessoa? Hm… Não pode ser só! Mas é por causa de José Pessoa. Aquelas duas horas são muito mais do que isso. Ouvimos um José Pessoa que se transcende, que ali naquele leme é mais do que ele. Começámos com trovoadas, com água a correr (De um rio? De um útero? De um choro de desesperança? De uma chuva que sempre choveu assim?), com os sons dos objectos simples, dos objectos fabricados, dos instrumentos primitivos, dos instrumentos evoluídos, da voz humana, do génio humano que sempre buscou na música a forma superlativa de comunicar consigo, de comunicar com o tempo, de comunicar com Deus. Daí surgiu um som que permanece como um baixo contínuo ou como uma toada e que estabelece um cordão de moléculas vibrantes (moléculas?! Qualquer coisa, enfim, eu nada ou quase percebo disto e por isso me inscrevi neste curso…) desde um pastor ou pré-histórico com a sua flauta de Pã feita de osso, à Hildegarda (a da música escarlate), aos trovadores, a todos. Que enche o universo como o Messias, o mundo dos prodígios como as pautas de Mozart, a capacidade infinita do big bang da esperança da liberdade com a Nona e os versos de Schiller. Aquelas duas horas, que passam como dez minutos, têm sido duas horas de uma profunda experiência. Não há ali só música. Ou talvez seja só música. Talvez um dia descubramos que, afinal, a Eternidade seja feita de música. Porque só a Eternidade, onde não contam minutos, nem horas, nem anos, pode ter o sortilégio de fazer com que o tempo de duas horas seja, afinal, o tempo de dez minutos. Só um tempo medido na escala da Eternidade pode explicar os compassos que nos têm arrebatado para algures de dentro daquelas quatro paredes. Que bênção especial terão ali derramado os Bispos de Lamego do século XVIII? É que dentro daquela sala o tempo contrai-se, às quintas-feiras.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O homem e a maçã

O homem à beira da estrada, capacete de obras na cabeça e sinal de stop entalado sob o braço, estafeta no meio da poeira e da confusão do tráfego, sol muito quente, desviou por momentos a atenção dos grandes camiões da empreitada que atravessavam à nossa frente, carregados e ruidosos, e voltou-se, não para nós, que aguardávamos que tirasse o bendito sinal e no-lo mostrasse pela outra face, mas para uma maçã que segurava com a mão esquerda e que, com a direita, partia com uma navalha. Observava atentamente o pomo que dividia em quartos, descascados com perícia, e meteu o primeiro na boca, mastigando-o com manifesta vontade e prazer. Calor, estava de vidros fechados pelo ruído e pela terra levantada pelos grandes pneus que a atiravam para o ar, olhos semicerrados pela luz demasiada a reflectir-se nos milhares de partículas de mica e quartzo que voavam. Inexplicavelmente, senti-me a cheirar a maçã, um cheiro doce e suave com travo acre a raineta. Que maçã tão mágica seria aquela? Seria a irrecusável que a Eva ofereceu a Adão, engasgado, reluzente no seu fatal destino? Seria a fadada e venenosa, do cesto da Bruxa Malvada que a entregou, irresistível, à Branca de Neve, e a adormeceu num sono de maravilha? Seria a de Newton, da revelação e conclusão de Newton, atraída para o chão por uma causa invisível? Seria a de Guilherme Tell, sobre a cabeça do filho, a captar-lhe o virotão da besta? Deviam ser todas, para cheirar assim! Como cheirava bem dentro do carro! E vi-me a alinhá-las, há tantos anos!, nas prateleiras do fruteiro, faces rosadas voltadas para nós, depois de parafinadas, prontas a enfrentar os meses de espera até serem comidas à mesa. Dúzias de maçãs! As filas das golden, amarelas e douradas, grandes, sensação táctil de dar logo vontade de trincar! As starking, vermelhas e orgulhosas, farinhentas na boca, boas para enfeitar o centro de mesa e ser comidas com queijo e marmelada. As bravo-de-esmolfe, muito iguais, algo problemáticas mas capazes de espalhar essências por todo o sítio. As rainetas, pequenas e grandes, duras, ácidas, tão perfumadas!, aroma de inspirar e sentir o tempo a entrar com o ar, o tempo de as colher na macieira desgrenhada de ramos carregados de frutos quase a partir, pendentes para o chão, sobre a água dum regato. “Dá cá o cambito para puxar aquele ramo ali que não lhe chego!”. E as cestas de asa no braço, os cestos maiores e as canastras iam-se enchendo no meio de graças e gargalhadas com aqueles frutos de fim de época, de fim de estação, que davam à casa um aroma aconchegado de tudo estar no seu lugar. Com uma mão conhecedora, a Tina ou a Ticha entalavam, entre a cinza e o rebordo da braseira, uma maçã que cobriam com uma prata. A sala rescendia! E todo esse cheiro, vindo não sabia de onde, se misturava com o verde das folhas, o sabor dos frutos, o ar que parecia desanuviar o ambiente do carro com esse encanto vindo do passado. Estava quase a experimentar a maçã assada, casca tostada e sabor melado a abrir-se de surpresas, quando uma buzinadela fez desaparecer o encanto. Os camiões tinham deixado de se atravessar à nossa frente, o homem estendia a mão segurando o sinal com o verde voltado para nós e agitava-o a mandar seguir, capacete entalado sob o braço esquerdo, sorriso. Tinha acabado a maçã. O sol estava intenso, o pó pairava, nós seguimos.

domingo, 29 de agosto de 2010

Cândida Florinda Ferreira

Prestou provas perante a Universidade de Lisboa «a primeira senhora portuguesa que tentava obter as insígnias doutorais», como então proferiu o presidente do júri, de 13 a 16 de Janeiro de 1937. Foi brilhante, verdadeiramente brilhante, e os jornais, que noticiavam diariamente as sucessivas sessões do acto académico, iam tecendo um relato elogioso. Contudo, os examinadores reprovaram-na. Seria interessante investigar os porquês desta circunstância. Talvez um dia. Mas o que nos traz aqui hoje é determo-nos um pouco sobre quem era esta mulher.


Estamos a viver naquele que vai sendo conhecido como “o século das mulheres”. Um pouco por todo o lado, há cada vez mais protagonismo feminino. Em todos os sectores. Seria injusto não lembrar, por isso mesmo, aquelas que foram pioneiras. Aquelas que, de algum modo, se foram da lei da morte libertando muito tempo antes deste tempo que é o nosso.

Evocamos hoje, especialmente, uma das mais inteligentes e cultas pessoas que nasceu no nosso concelho e que foi uma figura nacional. De facto, Cândida Florinda Ferreira foi uma mulher notável, com uma capacidade intelectual acima da média e com qualidades humanas que, para os que a conheceram de perto, dela fizeram uma senhora inesquecível.

A sua origem foi muito humilde. Nasceu em Talhinhas, concelho de Macedo de Cavaleiros, pelas cinco horas do dia 26 de Junho de 1893, tendo sido baptizada na igreja desta aldeia a 9 de Julho pelo Padre Manuel António Teiga. Era filha de António Augusto, de Talhinhas, e de Perpétua da Assunção, de Izeda. Os seus pais e avós eram jeireiros. O apelido herdou-o de seu avô materno, Vicente Ferreira.

Descoberta a sua argúcia e capacidade intelectual, foi mandada estudar aos dez anos para um colégio em Lisboa e depois, aos quinze, noutro colégio no Porto. Nestes colégios não aprendeu só a ler, escrever e a contar mas também a adquirir uma formação de sólidas qualidades morais e éticas que a plasmaram para toda a vida. Com dezasseis anos fez exame de admissão em Bragança para a Escola Normal de habilitação ao Magistério Primário, tornando-se professora em 1912 com dezoito valores! Exerceu o magistério em Talhas, em Caçarelhos (três anos) e em Bragança onde também foi professora interina na Escola de Habilitação ao magistério primário e, posteriormente, na Primária Superior. Durante este período fez, ao mesmo tempo, os exames do curso liceal em Vila Real e Bragança e ainda o da Escola Industrial!

Em 1927 foi frequentar a Universidade de Lisboa mas mantendo-se a trabalhar, regendo uma escola primária. A sua tenacidade, força de vontade e capacidade intelectual eram notáveis. Fazia tudo com brilho e distinção e todos os anos, como professora, apresentava um elevado número de alunos bem preparados a exame. A sua folha de serviços foi exemplar.

No fim desta década de vinte alargou consideravelmente os seus horizontes, influenciada pelo espírito universitário. Fez um curso de Literatura Italiana e publicou os seus primeiros trabalhos de investigação: A guerra da sucessão no distrito de Bragança. Em Agosto de 1930 obteve uma bolsa de estudo concedida por Itália (a única nesse ano), que lhe permitiu frequentar a Universidade de Perugia. Simultaneamente foi agente do governo português para o qual fez um relatório sobre o estudo e o ensino primário em Itália. Esta actividade não a fez descurar os seus outros pontos de interesse e continuou a investigar e a publicar uma obra com uma profusão e regularidade notáveis: Talhinhas e as guerrilhas liberais – Notícias monográficas inéditas; A Mulher na Família e na Sociedade Contemporânea; Carrazeda de Ansiães – Notas monográficas; A função educadora da História.

Para o público em geral e, especialmente, para as mulheres, de quem sentia o pulsar social de uma época que foi de charneira (e em que, no estrangeiro, que conheceu bem porque também frequentou a Sorbonne de Paris em Literatura, brotavam novas tendências), escreveu numerosas páginas cheias de sabedoria: A mulher portuguesa contemporânea – artigos publicados na revista Modas e Bordados, Lisboa, 1935; A Marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal; Da necessidade do conhecimento da História e da Literatura pátrias; Castros e castelos – A mulher nesses centros guerreiros; A guerra dos cem anos – Seus reflexos em Portugal.

Escreveu também um livro de contos: Os sete pecados mortais, que publicou em 1936.

Depois do seu percalço grave na Universidade de Lisboa, foi directora e proprietária do Colégio D. Teresa Afonso, em Algés, a partir de 1941. Dava também aulas em casa, tendo sido explicadora de uma das pupilas de Salazar (e este, como reconhecimento, ofereceu-lhe uma colecção das Obras Completas do Padre António Vieira).

Sobre o chumbo no doutoramento, o Abade de Baçal escreveu: seria por “não atingir a bitola? por antifeminismo? Por a ciência oficial andar sempre atrasada? Não sei, e somente que Nicolau Tolentino foi reprovado num concurso de literatura; Pasteur num de química; Galois num de matemática, e tantos outros que espargiram glória bastante para imortalizar a ciência oficial de seus examinadores condenados, sem a coragem de tais reprovações, ao olvido da História”.

Nunca descurou o seu contacto com a terra natal, onde viria a protagonizar a construção do edifício da escola primária, movendo para isso as influências políticas necessárias e estando na sua inauguração em 28 de Julho de 1968. A fotografia aqui reproduzida que foi tirada neste evento (a Doutora Cândida Florinda Ferreira é a sétima a contar da direita de quem vê a foto) e resume bastante bem o seu círculo de amizades mantidas em Macedo de Cavaleiros, onde a família Brás conserva a sua memória ainda hoje.

Viveu na Rua de S. Marçal, ao Rato, tendo aqui morrido, na freguesia de S. Mamede, em Lisboa, em 8 de Março de 1978.

Ao longo da vida de trabalho intenso e de publicação de trabalhos, Cândida Florinda Ferreira encontrou ainda tempo e espaço para a poesia. Para a dar a conhecer usou um pseudónimo:

“Ninguém”.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

GUERRA JUNQUEIRO

Esta casa foi construída em 1883
pelo Juiz José Felizardo Rodrigues de Sousa
e ficou conhecida em Macedo como a
casa das Senhoras Sousa ou
casa das Sousas.
Demolida em 2010. 
Já não existe a casa dos meus bisavós (onde viveram as minhas tias Sousas e onde morreu a minha avó), demolida recentemente para dar lugar a uma rua perpendicular à rua Pereira Charula. Mas existem as histórias do muito que nela ocorreu. Visita relativamente frequente da casa foi Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 1850 – Lisboa, 1923), o poeta, candidato a eleições e deputado pelo círculo de Macedo de Cavaleiros para a legislatura de 1880, amigo do meu bisavô, o juiz Sousa (e também frequentador da casa dos sogros deste, os Morgados de Macedo, também conhecidos como Oliveira).


Uma vez, numa dessas visitas, pediu para ficar com um crucifixo que ainda hoje existe na nossa família. Este gesto pode parecer-nos esquisito, por parte do escritor, célebre por ter sido um denodado autor de obras ímpias, anti-monárquico e republicano entusiasta, tão assazmente anticlerical e anti-religioso que sobre ele escreveu o Abade de Baçal: “Muitas das obras deste brilhante génio estão traduzidas em espanhol, inglês, francês e italiano e há apreciações críticas delas em diversas revistas estrangeiras, da máxima competência, como na Alemanha, França, etc., sendo de lamentar que um talento tão universalmente apreciado se deixasse obscurecer algumas vezes por composições ímpias como as do mais vulgar e nulo candidato à fácil popularidade das turbas ignaras, que vêem simplesmente no desbragamento da adjectivação a característica do génio. Ou será que esta popularidade lhe resulta em parte muito sensível desta mesma razão? Seja como for, Junqueiro é uma glória da terra que o viu nascer.”

Contudo, GJ veio a ficar mais desiludido com a República do que antes estivera com a Monarquia e veio a inflectir a sua posição anti-religiosa.

É um autor cujo percurso de vida – e postura perante a morte – deverá merecer, num ano em que tanto se fala do centenário da República, algumas reflexões. Cuidadosas reflexões.

O interesse de GJ por crucifixos não era apenas o de um coleccionador de antiguidades e de bric-à-brac. Era um interesse pela substância dos crucifixos. O seu coleccionismo era simbólico do verdadeiro coleccionismo que fazia no seu espírito e onde permanentemente, numa ebulição que o aterrou pela vida fora, fermentavam os pensamentos do remorso, da plenitude e da eternidade.

Raul Brandão, nas suas memórias, descreve uma das cenas mais patéticas e importantes em que foi confidente do poeta e pensador. Encontraram-se no Porto (1921), aonde tinha ido expressamente a pedido dele, GJ, e lhe fez confissões terríveis em que lhe declarou ter concluído a sua filosofia, milhares de páginas de revisão do que fora a sua vida. “O que aí está são tentativas que fui escrevendo pela vida fora até descobrir a verdade”. Outra das coisas que desabafou então foi a sua posição relativamente à República e à Monarquia: “Durante oito anos deixei de trabalhar por causa dessa [sic] miserável república – e agora não posso, não posso! E eu nunca fui republicano. O que disse numa nota da Pátria [1896] foi que tudo dependia do rei... O rei foi D. Carlos – e então a república impôs-se. Mas o mal não é do regímen, o mal é da nação. E agora vamos acabar...”.

Já quando se discutira a bandeira nacional, após a implantação da República, GJ tinha feito uma proposta em que, deixando de haver a coroa real, se mantinham as cores azul e branca em vez das verde e vermelha que eram nada mais nada menos do que as do partido republicano e, como tal, sectárias. E propunha o azul e branco como as cores mais abrangentes já que tinham sido as cores nacionais desde D. Afonso Henriques, atravessando toda a nossa história, com os seus momentos de glória e as suas crises.

Hoje já não existe a casa das Sousas, nem Guerra Junqueiro, nem reis reinando em Portugal, nem está em vigor a bandeira azul e branca. Mas existe a possibilidade de se pensar em tudo isto não como uma época passada mas como uma permanente busca da verdade, como o fez Junqueiro ao longo da sua vida.

Guerra Junqueiro, o poeta-génio de Trás-os-Montes, morreu em Lisboa, em 7 de Julho de 1923, ao fim de uma vida em que os seus crucifixos de madeira, marfim e cerâmica se foram espiritualizando. O seu amigo Raul Brandão acompanhou-o até ao fim:

“Morreu naquela cama de ferro hoje de manhã, às cinco horas menos dezassete minutos, depois duma breve agonia. Não soube que morria. No caixão, com o fatinho preto e coçado, espiritualizou-se ainda mais. Barba em bico, testa enorme, duas farripas aos lados e mãos esguias e brancas: parecia a figura de Nun’Álvares. Nem um livor cadavérico. A sala da frente está escura. À cabeceira brilha a chama de duas velas dum e doutro lado dum crucifixo com violetas. Sombras amarfanhadas ao fundo, e ao lado do caixão uma figura imóvel, com a manta pela cabeça, a velha Ana, que parece uma imagem de retábulo ou um daqueles humildes de que tanto falava e que lhe chamavam Senhor Poeta”.

Neste ano de comemorações, é interessante revisitar os nomes de algumas das ruas de Macedo na perspectiva de que os mesmos estão vivos para nós, como fonte de inspiração e sabedoria, tal como este de Guerra Junqueiro, um trasmontano inesquecível.

domingo, 22 de agosto de 2010

Insecticida com penas

Desde o princípio do Verão que as vespas começaram a importunar – superchatas! – na varanda. Mas como temos um refúgio dentro de casa desde que há um ano pusemos redes mosquiteiras nas janelas por causa das moscas (aqui não há mosquitos), foi-se atrasando a aplicação de insecticida que de vez em quando, ao serem insuportáveis, se costuma fazer. O resultado foi surpreendente: apareceu por aqui um bando de abelharucos, uns sete ou oito, que todos os dias fazem razias de caça em volta da casa, à espera que elas volitem para longe e para o alto, a partir das frinchas das telhas. São lindíssimos, os abelharucos.

Estão empoleirados em grupo no fio do telefone, mas afastados, grandes bicos tortos para baixo, e de repente levantam voo um após outro, como uma formação de caças de guerra, um voo engraçado como se estivessem a boiar nas ondas, depois da rebentação. Batem as penas duas ou três vezes e depois planam rapidamente com um “krriuut, krriuut, krriuut” que parece fazer eco pelo ar fora, onde espalham flashes de arco-íris com as suas cores, nos abrires de asa.

Durante meses foram os estorninhos a ocupar-se do movimento e dos sons por aqui. Fazem imensos ninhos sob as telhas e ouvem-se nos seus afãs naturais de ciclo reprodutivo. A acrescentar que esgaravatam com as unhas pelos zincos dos ângulos do telhado e fazem esse ruído de estar a esgueirar-se por frinchas e buracos incríveis. O seu vaivém é incessante e deixam a fachada, a antena parabólica, os corrimões das varandas, as cumieiras das janelas e do telhado pintalgados dos seus dejectos em variadíssimos traços. Piam imenso e os pequenitos fazem um ruído de sofreguidão e impaciência quando se chega um dos pais com a comida no bico. Por isso foi estranho quando aqui há dias desapareceram. Assim. Sem deixar bilhete nem dizer uma despedida. Sumiram misteriosamente. Ficou um grande silêncio, apenas quebrado por um pardal ou por alguma folecra. Andam por aqui águias, milhafres e tartaranhões mas não foi isso. Por vezes ainda aparece um ou outro estorninho, escuro de bico amarelo, depois de dias de ausência total. E parece-me vê-los lá ao longe, de vez em quando, forrando a decalque os ramos sem folhas de um castanheiro seco ou no extremo dos cabos de alta-tensão, no poste mais alto. Não sei se serão os mesmos. Não me parecem. Os de cá de casa levavam educação para, pelo menos, dizer boa-tarde.

Que é o que nos fazem sempre as perdizes, sós, acompanhadas ou com filhotes, cumprimentam sempre antes de se afastarem, cheias de pressa e presunção.

Ainda há imensos mais, mas dão menos nas vistas: um picanço-real muito orgulhoso que não sei se anda perdido ou resolveu exilar-se; uns noitibós discretíssimos que levantam da frente dos faróis claramente para me mostrarem que querem saber a que horas chego a casa; umas poupas que têm a mania que são as mais importantes; rolas e pombos torcazes que fizeram ninho no pinhal e que estão evidentemente a escapulir-se aos caçadores; umas corujas que voam da mata todas as tardes e que nos dão as boas-noites, polidíssimas como tias-avós, logo que o sol se põe. Os gaios devem ter ido a banhos, por agora. E uns amarelantes e cotovias, que andaram por aqui, sumiram desde que os centeios foram ceifados. E a lista continuaria.

Não devem tardar por aí outros pássaros, que vêm com o fim do Verão. Por agora, ficámos sem estorninhos e esperamos não ficar sem abelharucos, senão terei de ir saber de insecticida.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

VIVA A CULTURA

Num ensaio escrito em Lima em Abril e publicado na “Letras Libres” de Julho de 2010 (LL, edición España, nr.106), Mário Vargas Llosa apresenta, diagnostica, elucida e prognostica o papel da cultura no mundo e no futuro. “Oposto à banalização, à perda de hierarquias, ao palavreado teórico e ao artifício desnecessário, MVL defende neste ensaio o valor da educação humanista e a capacidade que a literatura e a alta cultura têm para transformar a vida humana numa aventura profunda e apaixonante”.


Coincidiu ler este ensaio com reler as memórias de Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória I e II, ed. Círculo de Leitores. Foi feliz porque a vida de FC acaba por servir de espelho ao ensaio sul-americano. Vida cheia de casos e de acasos, de felicidade e de infelicidade, de projectos e de realizações, de momentos de afirmação e de dúvida, de grande agitação e de uma imensa serenidade, a vida desta escritora e intelectual portuguesa esteve impregnada de humanismo e de cultura em cada um dos seus passos. Fossem eles na literatura, na vivência familiar, na acção social, na culinária, no teatro, em tudo: FC tinha uma visão holística da vida, como agora se usa dizer, de sentido da totalidade. Lê-se, ouve-se, canta-se, chora-se, ri-se, apalpa-se, come-se e cheira-se Portugal, ao ler estes livros que escreveu e ditou nos anos que antecederam a sua morte. É um país de janelas escancaradas, sem artifícios, sem mitos de igualdade.

Não há culturas iguais. Para MVL “uma coisa é crer que todas as culturas merecem consideração, já que, sem dúvida, em todas há contribuições positivas para a civilização humana, e outra, muito diferente, é crer que todas elas, pelo mero facto de existirem, se equivalem.” Feita esta colocação clara do assunto, MVL expõe, num texto apaixonante de sete páginas densas, a situação da cultura nos tempos de hoje, em que há pudor em afirmar a excelência da cultura ocidental – “a única que, com todas as suas limitações e extravios, fez progredir a liberdade, a democracia e os direitos humanos na história”.

A terminar: “A cultura pode ser experiência e reflexão, pensamento e sonho, paixão e poesia e uma revisão crítica constante e profunda de todas as certezas, convicções, teorias e crenças. Mas ela não pode afastar-se da vida real, da vida verdadeira, da vida vivida, que não é nunca a dos lugares comuns, do artifício, do sofisma e da frivolidade, sem o risco de se desintegrar. Posso parecer pessimista mas a minha impressão é a de que, com uma irresponsabilidade tão grande como a nossa irreprimível vocação pelo jogo e pela diversão, fizemos da cultura um desses vistosos mas frágeis castelos construídos sobre a areia que se desfazem com a primeira brisa de vento”.

Fernanda de Castro idealizou castelos mas em que ainda hoje se pode ouvir, correndo sibilante pelas frestas, um vento forte que sopra, fazendo por elas passar a poesia e a cultura deste nosso Portugal, europeu e universal.

Marilyn Monroe - Hello Norma Jeane

Está de regresso o interesse por uma das mais fascinantes actrizes do século XX. Desde um novo site no facebook (The Unknown Marilyn Monroe http://www.facebook.com/pages/The-unknown-Marilyn-Monroe-Marilyn-Monroe-inconnue/132209956817652 ) até artigos na imprensa internacional, um pouco por todo o lado está a ressurgir uma nova vaga de culto por esta figura mítica, para muitos conhecida apenas pela sua presença física (1,67 m de altura, 94-61-89 - 93-58-91 (de acordo com o estúdio); 88-58-88 (de acordo com o costureiro) - , cabelos loiros pintados, olhos azuis, lábios bem recortados e cheios). Ainda por cima, está de regresso pelo lado menos conhecido da actriz, por muitos julgada uma mulher superficial e frívola. Tal fica a dever-se ao lançamento mundial, anunciado para Outubro, de um livro original sobre MM.


O que está a vir a público neste momento em que se comemora mais um aniversário sobre a sua morte inesperada e misteriosa, ocorrida a 4 de Agosto de 1962, é algo que vem revelar que Marilyn era muito mais do que uma estrela cadente: uma mulher com inteligência e sensibilidade. A artista vivia impregnada de cultura – e não era uma cultura qualquer.

Esta edição dos escritos inéditos – absolutamente inéditos – de Marilyn Monroe: poemas, páginas de diários, cartas e fotos pessoais, com reproduções em fac-simile, está a suscitar expectativa e a dar a conhecer uma MM surpreendente, com um gosto especial por livros e autores e por alguns em especial, tais como Samuel Beckett, Walt Whitman e James Joyce, para os quais não basta um interesse simples pela literatura mas que exigem, para ser lidos, uma dose valente de inteligência e sensibilidade. A tal não terá sido alheio o seu casamento com Arthur Miller, que foi um dos seus três maridos. Este novo livro sobre MM e que se vem juntar a muitíssimos outros trabalhos já publicados sobre a actriz, vem trazer algo de novo – e não é pouco. Cobre um período que vai de 1943 até às vésperas da sua morte.

Segundo um artigo do Le Figaro, um dos principais jornais franceses, esta publicação fica a dever-se a Anna Strasberg, viúva de Lee Strasberg (fundador do Actor’s Studio e herdeiro de Marilyn) e que é a responsável pelo legado de MM. Ela terá confiado os textos a Bernard Comment, que trabalhou a edição e que é co-responsável por ela com Stanley Buchtal. O prefácio é de António Tabucchi, italiano bem conhecido dos portugueses, que refere que “no interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém supunha”.

No fundo, trata-se de uma Norma Jeane Baker a vir à superfície, passados todos estes anos, e a surgir de forma nítida a recortar-se sobre os cenários de Hollywood e sobre a imagem de MM.

“Há uma certa melancolia no tom do livro, e o que é belo nalgumas das notas, é o modo como a elas se associam as ideias que estão espalhadas pelas páginas.”, refere Bernard Comment.

A lembrar agora em Agosto, que passam 48 anos sobre a morte de Marilyn, morta apenas com 36.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

VALE DE PRADOS

Vale de Prados é uma antiga freguesia do município e da cidade de Macedo de Cavaleiros, outrora e durante centenas de anos conhecida muito justamente como Vale de Prados-o-Grande, vila e sede de concelho. Hoje em dia é constituída pelas povoações de Vale de Prados e da Arrifana.


O seu povoamento é muito antigo, como o provam os registos medievais que se lhe referem, e bem assim alguns achados arqueológicos, como o de uma sepultura, pelo povo denominada “sepultura dos mouros”(1). Em tempos medievais houve outros núcleos de casas, a que se referem documentos velhos como as Inquirições do século XIII, então denominados Casas Queimadas, provavelmente relacionados com as guerras de então. E no Alto de Santa Catarina terá havido uma torre senhorial, erguida numa fraga gigantesca, entretanto arruinada e que os séculos foram gastando para pedra de construção. A própria fraga serviu para material de obra nos séculos XIX e XX e na década de cinquenta forneceu toda a pedra que em Macedo se gastou para a construção das instalações e do Bairro da Chenop (Companhia Hidro-Eléctrica do Norte), hoje conhecido como Bairro da EDP.

Por Vale de Prados passava uma antiquíssima via, milenar, vinda de sul para quem demandasse terras de Lampaças e de Bragança, aqui se encontrando com o “carril” que lhe chega de Nogueirinha e de Gradíssimo. Esta terá sido a razão da existência da terra, associada ao facto de o solo ser fértil e a Serra do Cubo ser um bom esconderijo furtivo e um bom poiso para vigia, lado a lado com o já referido alto de Santa Catarina. Ainda hoje perdura nas pessoas o saberem indicar por onde era a Estrada de Bragança… E vem a propósito referir que muito provavelmente por aqui e por Arrifana passavam os peregrinos a Caminho de Santiago, seguindo depois por Lamas, Corujas, Ala, no secular itinerário com que procuravam atingir Compostela e a remissão dos seus pecados…

D.Dinis deu-lhe carta de foral com que se apregoou até à extinção do concelho, ocorrida na primeira reforma do século XIX, em 1836. Por breves anos ficou integrado no concelho dos Cortiços, vindo este logo a desaparecer e passando definitivamente para o de Macedo em 1853.

O Pelourinho, monumento nacional, atesta estas prerrogativas municipais, erguido no século XVIII com orgulho no Largo, a substituir um anterior demolido pelo tempo, imponente como dos principais de Portugal, assim o rezam as crónicas de historiadores. Sobre três degraus octogonais de cantaria de granito e um sólido também octogonal e de granito, ergue-se um fuste monolítico oitavado, encimado por um capitel curiosíssimo: uma cruz deitada, decorada com figuras de animais, o sol, a lua e figuras humanas. Uma outra figura humana coroada abraça um escudo com as armas de Portugal.

O Pelourinho está lado a lado no largo com um fontanário muito interessante de granito, de sineta de avisos e pregões, carrancas a golfar a água e uma data de reconstrução: 1917. Na rua lateral à igreja, a Casa dos Capitães-Móres, tida como a Casa da Câmara, é também um testemunho histórico do passado, ainda com as suas belas cantarias clássicas nas portas e nas janelas. E o edifício do Tribunal, até há bem pouco ainda de pé, testemunhava materialmente, em pedra de xisto verde, os tempos de que ainda se contam episódios em que aos condenados era dado a escolher entre ir trabalhar para a Quinta do Bóbo, em Gradíssimo, ou ir para África, para o degredo… está-se a ver a alternativa escolhida… Ainda existe também, como uma reminiscência desses tempos, o Alto da Forca. Note-se que, ao contrário do que se diz, nunca nos pelourinhos se enforcava ninguém mas num campo aparte, normalmente nas imediações ou fora do povoado.

Durante séculos houve notário, em Vale de Prados, e houve gente ilustre que daqui saiu e aqui viveu. Dos Castro Pereira, família que construiu o seu solar em 1828, em tempo de D.Miguel, há ainda memória recente para além da Quinta e Solar do mesmo nome, associado ao dos Lopes Cardoso por ligação familiar. Também a Casa dos Direitos lembra outros ilustres, das letras e de vida singrada com êxito fora daqui, como acontece com tantos que aqui nasceram e foram mundo fora descobrir o mesmo mundo e vencer na mesma vida.

A Fonte de Santa Catarina está junto à capela do mesmo nome. Com a construção da estrada nacional ficou soterrada, pelo que foi feito, no muro de suporte desta, uns degraus para acesso e o nicho para a água correr da mesma fonte, uma pedra lavrada com motivos vegetalistas em forma de arco, assente sobre uma outra onde uma concavidade permite encher um púcaro com a água virtuosa. Já em 1726, Francisco da Fonseca Henriques, no seu famoso livro Aquilegio Medicinal, se lhe refere (2). A festa a Santa Catarina faz-se no domingo seguinte ao dia 25 de Novembro. É muito concorrida e é típico nela se comerem sardinhas assadas.

Em Vale de Prados e na Arrifana há outras fontes e xafarizes com nomes sugestivos, a Fonte da Oliveira, a Fonte da Buraca, a Fonte do Bóbo e a Fonte da Quinta, na tapada dos Castro Pereira, nem por isso menos belas. Sobretudo outras ainda que estão feitas em xisto lavrado, com formas curiosas e artísticas. Este xisto, uma pedra que serve para muitas das construções destas duas aldeias, é um xisto verde e polícromo, com a cor variada segundo as horas do dia e o tempo que faz, de tonalidades diferentes em dias de sol ou em dias de chuva. Ainda existe a fonte de mergulho de Arrifana, em desuso mas um notável testemunho etnográfico, com vestígios ainda de nela se amolarem as facas e as machadas.

A Igreja Matriz de Vale de Prados é uma reconstrução do século XVII com decoração interior deste século e do século XVIII. Fachada simples e muito curiosa, dupla sineira e um portal sóbrio e elegante com um frontão triangular, nota-se a sua concepção erudita. É de uma só nave com retábulos laterais maneiristas e de decoração barroca. Imagens de Nossa Senhora, Santo Estêvão e São Jerónimo, este último o orago da paróquia. São Jerónimo, padroeiro dos bibliotecários e das secretárias, nasceu em Stridonium perto de Aquileia, Itália, e estudou em Roma. Foi baptizado aos 18 anos. Depois de ser ordenado viveu em Constantinopla, hoje Istambul, antes de retornar a Roma onde chamou a atenção do Papa Damascus, a quem serviu como secretário, tornando-se uma figura muito popular. Após a morte de Damascus, foi para Belém onde ficou com Santa Paula, Santo Eustáquio e outros, pregando. Foi um intelectual e um génio que deu uma grande contribuição para a área do estudo bíblico. Na arte litúrgica é por vezes representado como um cardeal com um leão ou ainda como um eremita. Outras vezes aparece como um escolástico. São Jerónimo morreu a 30 de Setembro, de doença. Vale de Prados comemora-o em festa, em Agosto.

Em Arrifana, na capela de Santo Estêvão, guarda-se uma antiga imagem. Nesta povoação viveram refugiados alguns frades aquando da extinção das ordens religiosas no tempo do liberalismo do século XIX.

Existe ainda uma outra capela, a de S.Cristóvão, um voto e uma memória de viagem com um santo padroeiro dos viajantes. Fica ao lado da Junta de Freguesia e perto do edifício da sede da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa de Vale de Prados, uma associação que ao longo dos anos desenvolveu um trabalho louvável em prol dos habitantes.

A paisagem de Vale Prados e Arrifana é muito bonita, constituída por um mosaico em que o ecossistema mediterrâneo, oliveira, vinha e sobreiros, se mescla com o típico da montanha de Trás-os-Montes, lameiros, castanheiros e carvalhos. Onde pinga água, há uma horta, magnífica, de produtos soberbos. A Serra do Cubo e a Albufeira do Azibo, ambas lado a lado, proporcionam-lhe estar incluída em grande parte na área de Rede Natura, fazendo parte da Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo. Estes factos abrem-lhe perspectivas de desenvolvimento no turismo. A requalificação urbana, a proximidade da água e a, para breve, construção da área de praia de Vale de Prados, possibilitam que os privados se sintam impelidos a investir não só em infraestruturas hoteleiras mas que os actuais operadores, com cafés e casas abertas, melhorem as condições de oferta aos turistas. Vale de Prados está no trajecto dos percursos pedestres da Albufeira do Azibo, encontrando-se os respectivos itinerários assinalados ao longo dos caminhos e com painéis informativos em vários pontos da localidade.

São gastronomicamente típicos desta aldeia as morcelas, os azedos e o folar doce. O artesanato tem fama além fronteiras com miniaturas de casinhas em xisto e em madeira, artigos, rendas e bordados de linho.


(1)Mas que de mouros deverá ter só o nome, já que tudo indica poder ser mesmo mais antiga ainda. Tinha uma laje de fundo, quatro lajes dos lados e uma outra a servir de tampa. Existiu no sítio que hoje é uma padaria, junto do cruzamento da estrada de Vale de Prados com a estrada nacional.




(2)Também no romance “O Segredo da Fonte Queimada” aparece esta fonte e há algumas cenas de um outro romance do mesmo autor, Manuel Cardoso, intitulado “Um Tiro na Bruma” que se passam também nesta povoação.