terça-feira, 30 de outubro de 2007

O VINHO DAS ARCAS

© Manuel Cardoso

Nas noites de inverno nas aldeias da Terra Fria de Trás-os-Montes, desde tempos imemoriais que se afugenta o gelo com um copo de um vinho excelente que acalenta a mais necessitada das almas. É um vinho que surpreende. Um forasteiro desprevenido, dado o primeiro golo e sentido o sabor forte e aromático, imediatamente é assaltado por uma dúvida evidente: se nestas aldeias altas e frias as vinhas não passam de pequeníssimas manchas nalguma encosta mais soalheira e mal dão uns cachos de uva miúda e agridoce na maioria dos anos, como é possível um vinho destes, graduado, rescendente? “Comprado!”. Mas o dono da casa exprime, orgulhoso:
- Esse foi pisado na nossa casa!
- Ah, tem vinhas...
- Não, não. Compramos as uvas.
Ainda hoje, nas aldeias da Serra de Nogueira se mantém este costume de comprar as uvas lá em baixo, em zonas da Terra Quente, e trazê-las para cima para fazer o vinho.

Ora, conta uma lenda antiga que, certa vez, levado um pipo com as primícias desse ano para Braga, ao Arcebispo, então senhor destas terras do leste do seu território, este terá perguntado:
- De onde são as uvas que tão bom vinho dão?
- De Arcas e Nozelos, de Vilarinho de Agrochão!

Esta história é curiosa não só por enaltecer as qualidades das uvas de que falamos mas porque delimita uma área geográfica que corresponde ao que foi o extinto e velhíssimo concelho de Nozelos e que hoje está repartido pelas três freguesias de Arcas, Vilarinho do Monte e Vilarinho de Agrochão. Os terrenos destas três evoluem em encostas abruptas sobre o rio de Macedo e a ribeira de Ferreira, sendo que ambos confluem no vale de Nozelos e que constituem um microclima onde amadurecem as uvas que tão bom vinho dão.

São antiquíssimas as referências ao néctar deste lugar. Já o foral de Agrochão, dado por D.Dinis em 5 de Julho de 1288, manda cobrar como imposto a quarta parte do vinho, medido pela medida de Nozelos. Mais tarde, D.João II, doa a João Teixeira de Macedo, alcaide mor de Montalegre, a 30 de Maio de 1484, as rendas de pão, vinho e aves da terra de Macedo e Nozelos com as aldeias de Arcas, Vilarinho do Monte e Vilarinho de Agrochão.

Ora, no centro da área deste antigo concelho de Nozelos há um planalto breve que tem a extensão necessária para nele se esticar uma aldeia ao sol, a meio da qual se ergue, orgulhoso, o Solar das Arcas, dos Pessanhas. Orgulhoso de quê? Se mais não tivesse de quê, bastar-lhe-ia o vinho, o tal bom vinho que as uvas dão!

O microclima das Arcas fica entre duas regiões vinícolas célebres: o Douro e Vinhais. Se da primeira é supérfluo qualquer comentário, da segunda há que dizer algo. O nome já diz ser terra de vinhedos, vinhal, vinhais. Tradicionalmente, desde o Império Romano segundo alguns autores, foi essa a sua riqueza e, durante séculos, forneceu a zona interior e meridional da Galiza de vinho acabado e mandava aguardente para o Douro e para o Porto. Um geógrafo espanhol, Mendez da Silva, escrevia no tempo da União Ibérica: “es un valle de muchas viñas, donde se origina el nombre”. Um outro doutor coevo, Francisco de Monçon, que, sendo madrileno, viveu na corte de Portugal durante o século XVI, dizia que os portugueses se podiam gabar de ter vinhos que competiam com Alemães e Flamengos e cuja qualidade os suplantava mesmo, nomeadamente os de “Vinhais e outros”.

As crises do oídio e da filoxera arruinaram as vinhas desta região e, ao contrário das do Douro, nunca mais se recompuseram totalmente e perderam as posições de mercado. Estes vinhedos eram paredes-meias com os das Arcas e hoje, debruçados sobre o mapa, não sabemos bem se estas eram uma continuação daqueles e uma sua sobrevivência ou um prenúncio do Douro a cuja sorte viriam a estar ligados.

O solar das Arcas teve uma garrafeira fabulosa. Foi constituída e apurada ao longo do século XIX por Manuel de Almeida Pessanha, grande lavrador, viajado em França e introdutor de inovações, Governador Civil de Bragança e Par do Reino, e mais tarde continuada pelo seu genro, Francisco de Assis Pereira do Lago, Visconde das Arcas. Sucessivas partilhas e outros descaminhos foram-na minguando à formiga. Restam hoje algumas raras garrafas, das anteriores às crises do oídio e da filoxera que dizimaram as antigas cepas. O autor destas linhas pode orgulhar-se de, numa tarde, há uma trintena de anos, no jardim solarengo dos Cortiços, ter provado, apreciado e ouvido uma explicação com devoção sentida, de um vinho seco, decantado e arejado de uma garrafa fosca, colada com um rótulo de uma cercadura azul e manchado, muito manchado e bolorento mas onde se distinguia perfeitamente numa caligrafia castanha escrita à pena: ARCAS 1832 !

A crise do oídio que começou em meados do século XIX deu uma machadada grave nos vetustos vinhedos nacionais mas não fez esmorecer a energia empreendedora da casa das Arcas que leva a fama dos seus produtos até Lisboa a tal ponto que Garcia de Lima, na sessão da Câmara de Deputados de 8 de Junho de 1863, afirma que os vinhos brancos das Arcas são tão bons como os do Douro. Nas Cortes bebia-se vinho das Arcas. Na década seguinte esta fama é justamente reconhecida além fronteiras e, mesmo para lá do Atlântico, os vinhos são premiados nos Estados Unidos da América no concurso internacional de Filadélfia em 1876.

A filoxera devastou todo o país a partir da década de oitenta mas foi num ápice que o Visconde, perspicaz a prever a situação e conhecedor dos métodos modernos de cultivo, fez reconverter as vinhas, possibilitando mesmo que, durante anos, todo o termo das Arcas estivesse integrado na região produtora de mostos de vinho do Porto. Replantou e soube manter os adagues ao abrigo das pragas. Não houve mortórios desolados no termo das Arcas!

E hoje, ao percorrer-se este canto de Trás-os-Montes em que a paisagem apresenta extensões de abandono recente, de incêndios revoltantes ou de matos silvestres onde crescem a preguiça e a crise económica, deparamos com um pequeno microclima de vistas insólitas, matas ordenadas ao pé de vinhedos lavrados, encostas abruptas trabalhadas com teimosia, gentes cavando um chão avaro mas que lhes dá, não o sustento porque agora já se não vive disso, mas um orgulho especial, orgulho que ali foi plantado imemorialmente, apurado pelos Pessanhas e que se materializa no tal vinho surpreendente, de aroma forte e agradável e que inevitavelmente coloca na boca de quem o beba:

- De onde são as uvas que tão bons vinhos dão?
- Das Arcas e Nozelos, de Vilarinho de Agrochão!


Bibliografia:
1.Alves, Francisco Manuel, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança.
2.Pires, Armando Valfredo, O Concelho de Macedo de Cavaleiros.
3.Oliveira, Artur Águedo de, O surpreendente testemunho do Doctor Francisco de Monçon 1544
4.Costa, António Luís Pinto da, A questão do Alto Douro e a exportação de Vinhos do Porto (1865-1909) in Brigantia vol.X nº3
5.Ilustração Portuguesa
6.Gazeta das Aldeias

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O rapto da Tia Dores

© Manuel Cardoso

(As cenas passaram-se com o século XIX já a bem mais de meio.)

Uma manhã de caça a salto e extraviada arrastou o José Manuel desde Alvites até ao Brinço. As perdizes tinham saído de feição, tal como o compadre as prometera, a esvoaçar nas restolhadas, à frente do focinho dos perdigueiros. Parecia que adivinhavam o caminho. Uma vez aqui, outra vez ali, o bando passava sobre os freixos do ribeiro, atravessava o valezito para além, subia pela encosta a desaparecer nos adagues de uma vinha amarela.
- Ó compadre, de quem é esta vinha?
- Isto já é do casal do senhor Abade...
- Então tem um grande casal!
- Grande?! Tem muitas terras aqui, olivais em Alvites, em Vilarinho do Monte, em Vale de Lagoa e na Açoreira, sortes no Vimieiro e na Carrapatinha, lameiros em Ala e em Meles...
- Caramba!
- Tanto como ele só o casal grande, de Ala! O lagar do Brinço só para a casa trabalha ao mês!
Um tiro, logo mais outro, ele mesmo descarregou a espingarda. Com o segundo caiu uma, das do bando mais próximo. Duas tinham ficado mais longe, os cães farejavam-nas numas silvas encostadas a um muro alto. Era o muro da Tapada, uma propriedade dos Lopes obrigatoriamente disputada em partilhas e onde um rebanho pastava os galhos de uma fila de amendoeiras podadas para dar a folha aos animais. Um dos perdigueiros trouxe mais uma perdiz. O José Manuel levava já um cinto bem composto, uma meia dúzia delas e uma lebre que lhe tinha saltado quando saíra duma leira pousada e entrara numa restolha. Estava feita a manhã.
Entraram no Brinço com garbo. O pequeno grupo dava nas vistas: ele com botas e chapéu suíço, calças à montador e cartucheira de cabedal engraxado onde reluziam as fivelas polidas e as cápsulas de latão dos cartuchos St.Étienne, o compadre com o seu chapéu da América, uma das abas revirada, camisa branca de folhos com o colete de caça e cartucheira à bandoleira, como no tempo dos Cabrais em que se bandeava com os Pessanhas. Dois moços, colete lavado e camisas de manga enfonada, levavam-lhes as espingardas e cuidavam dos cães, cauda espetada e focinho à procura das cadelas da terra.
A aldeia preguiçava numa manhã serena. Não se via ninguém. As casas de xisto sombrio e telhas ferrugem permaneciam mudas e quedas. Apenas se ouvia o chiar longínquo de uns carros de bois. Foram andando e deram a volta defronte da Casa do Passadiço, como quem não quer a coisa. Nada. As janelas estavam abertas mas nem uma renda buliu. Estranho. A menina estava avisada. Ele mandara um bilhete, tinha sido claríssimo a combinar aquele encontro casual...
- O compadre tem a certeza...
- Absoluta!
Na rua à esquerda da Igreja estava, ao fundo, a fachada caiada da casa dos senhores e, mais perto, a casa ocre da taberna do Chico com a sua varanda de madeira pintada de zarcão com linhaça. Encaminharam-se para lá. De umas pipas lavadas de fresco, que secavam à sombra de um chorão, espairava-se um cheiro meio a mosto e meio a vinho vinagre.
- Chico, ó Chico!
- Lá vai! – ouviu-se uma voz a vir dos fundos e logo acudiu, a limpar as mãos a um pano, olhar semicerrado de vir para a claridade.
- Olha! Mas é o compadre Zé e o menino Zé Manuel!? Ena, e trazem cá uns cintos!
- Já vimos desde Alvites! Era para ficarmos por lá mas atrás de um bando fomo-nos chegando para aqui...
- E chegam-se muito bem! Eu já os atendo. Rebentou-se-me para ali uma pipa e tenho andado nestes trabalhos mas já os atendo... ó Maria! Ó Maria!
Ouviu-se um “que é l’á?” sumido.
- Anda cá e põe ali um pano naquela mesa. É só um instante, amigos. Isto num esfregante fica tudo nos trinques!
- Tenha calma, homem, temos tempo.
- Não se vê ninguém na aldeia... estão todos a dormir?
- Estão para Meles. Há lá um enterro, da Ti Antónia, já velhinha, e como ainda tem por aí uns primos e parentes, lá foram. Os carros ainda saíram há pouco.
- Então, e foram todos, foi toda a gente?
O Chico hesitou por momentos na resposta.
- Nem todos foram para o enterro, está bem de ver. Daí da casa nem foi ninguém… da do Passadiço também não foram, quero dizer, o senhor Padre foi, tinha de ir para os ofícios, mas o pessoal ficou por aí, a casa até está aberta…
- Então, e a menina Maria das Dores? Ficou cá?
- Eu disso não sei bem, quero dizer, sei que não está cá.
- Ai não está cá?
- Não está.
- Então, onde está?
- Então, compadre Zé, diga-me cá: não foi só pelas perdizes que voam que vieram até aqui! Sempre é verdade o que se diz pela terra. Aqui o menino Zé Manuel é que quer fazer de perdigão... e logo à menina Maria das Dores!
- Ó menino! O que vai arranjar! – ouviu-se a voz da Maria, atentíssima à conversa e incapaz de suster o desabafo.
- Cala-te, mulher! Que é que tens com isso? O menino não leve a mal... as mulheres gostam sempre de meter a colherada. Mas diga-me: é sério? O senhor Morgado e a sua mãezinha, a senhora dona Josefa, dão licença? Que eu não tenho nada que ver...
A mulher entrou outra vez na conversa:
- O senhor Abade ainda vai consentir, vai ver. Ora, famílias tão ilustres...
- Então, se a menina Maria das Dores não está... então está aonde?
- Bem, saíram logo cedo. Parece que foram pô-la em Fornos, nas Oblatas. Diz que é para estudar, para aprender...
Nas freiras! Tinham-na ido por nas freiras e logo em Fornos de Ledra, aldeia pedregosa e pobre, longe de tudo! Estudar, estudar! Para isso que a pusessem em Braga ou no Porto! Agora ali, sumida na tacanhez poeirenta de uma aldeola, de umas paredes de pedra com janelas sem vistas para lado nenhum que não fossem mais pedras e umas oliveiras que se espremiam a custo para dar um azeite turvo!



O Abade de Ala era fulminante nos discursos. E intolerante nas opiniões. Arrebatava um mundo numa hora de pregação – e não se comovia nem pestanejava pelos que não convencia. Gostava de ter por perto os que com ele concordavam e os outros, os irreconciliáveis, ficavam-lhe para sempre na mira de um ajuste de contas político. Gabava-se de ser um homem de corpo inteiro e, por isso, a Maria das Dores nunca lhe constituíu um estorvo: era a filha que seria sua herdeira. E que herdeira! Mas logo havia de se ter embeiçado por aquele fidalgote de Macedo, o filho do Morgado! Que lhe diziam dele? Caçava, ia pelas feiras com o pai, passava os dias a ler... ainda se lhe desse para estudar! Mas diziam-lhe que só lia escritores! Poesias e romances! Ainda por cima nunca seria morgado: o Mousinho acabara-lhes com o privilégio. Que ele lá tinha uns cabedais, os pais acautelaram-lhe as libras e fizeram-lhe uma casa grande ao lado do solar, para rendimento... Mas não! Quando os anos passassem tudo iria sumido no tempo gasto em livros, no desleixo e nas viagens de folga ao Douro e a Chaves, nas ervas a crescer e a afogar olivais e prados.
“A menina que faça as malas!” - Ia estudar que bem precisava, depois dava-lhe um dote e que procuraria poiso com alguém mais conforme.
- Oh, Padrinho, se calhar quer-me casar com algum viúvo já de cabelos brancos!
- E se fosse? Pelo menos era alguém que eu já lhe conhecia a vida, não era como esse, esse...
- Que é que ele tem? Ideias políticas diferentes... vive noutra época, só isso.
- Só isso?! Só isso?! Começa logo porque é mais novo! Sim, um miúdo!...
- Ora, Pai! A mãe dele é mais velha catorze anos que o pai dele!
- Hmmm!



(As Oblatas de Fornos de Ledra eram uma casa que começara para ser grande, raízes esticadas a beber bom húmus em pleno tempo de D.Miguel, mas a que as vicissitudes dos anos seguintes, em que preponderara o anticlericalismo violento sinuoso do século dezanove, estiolaram a prossecussão do objectivo. O convento, como lhe chamava o povo, foi-se aguentando com algumas internas 'filhas-família' de fidalgotes sovinas ou com menos rendas para as mandar para Braga ou para o Porto, e tirava partido de se encontrar no meio de um deserto cultural imenso já que outras casas religiosas das imediações iam já extintas na voragem liberal. Passava-lhe perto uma antiga estrada romana e que agora era a estrada real da Torre para Bragança. O convento desapareceu com os alvores da república. Ficou um edifício de granito, grande para a aldeia em que as casas são tão acanhadas como era a visão do mundo das gentes, com uma igreja de paredes meias e um jardim onde cresciam ervas medicinais e aromáticas. Deram-lhe o destino de servir de palheiro e nesta condição albergou uns republicanos 'rojos' fugidos das falanges na guerra de Espanha, na segunda metade da década de trinta do século vinte. Um descuido destes inflamou a palha e o feno lá guardado e o edifício ficou reduzido às paredes num incêndio memorável. Depois disso ainda lhe puseram um telhado... e agora no interior vivem umas pessoas e criam-se porcos!)

 
No tempo da tia Dores ainda o convento era das Oblatas e foram elas quem lhe ensinaram o que as meninas aprendiam: umas letras, umas contas, uns bordados e pinturas. Ensinavam também como lidar com os homens: ser submissas para poder mandar neles. Daí que, quando o Zé Manuel lhe apareceu com o plano mirabolante de fugir do convento e lho explicou detalhe a detalhe, ela tenha concordado logo. Só não entendia aquela necessidade de se esconderem durante umas horas debaixo da ponte de pedra dos Vilares.
- Então?! É para ser como no Alexandre Dumas!
- Ah!, pronto, está bem, está bem, como o Zé Manuel achar melhor!...
Esta troca breve de palavras foi num assomo rápido à porta da capela numa visita que ele veio fazer. Tinha tudo previsto. Estava tudo acertado. Até a Madre Superiora, prevenida por um bilhetinho a embrulhar uma meia libra para as intenções do convento que lhe mandara a D.Josefa, mãe do José Manuel, tinha concordado em só mandar fazer uma busca a cavalo e mandar notícias para o Brinço duas horas depois do fim da missa. Os fidalgos de Mascarenhas tinham concordado em recebê-los lá e em ficar com a Maria das Dores até se aplacar a fúria com que o Abade receberia o aviso. O compadre viria até Fornos com a égua ruça à arreata a acompanhar as meninas de Lamalonga que vinham à missa e, à saída, trariam com elas a Maria das Dores. Não daria nas vistas. Eram conhecidas e amigas. Na estrada de Vila Nova é que se apartariam. Aí estaria ele à espera. Depois seguiriam para Mascarenhas a galope. Teriam que parar na ponte dos Vilares.
E pararam. À espera deles estava um moço que tinha chegado, havia nada, da taberna dos Vilares.
- Então?
- Estavam lá, sim, iam sair depois de mim. Mas não trazem pressa. Os cavalos já vêm cansados e devem só vir a trote e devagar.
Esconderam-se debaixo de um dos arcos, os cavalos tinham-nos posto a pastar num lameiro mais abaixo, tapado por uma volta do renque de freixos e choupos do rio. Sentiram o trote das montadas a passar. Eram três. O Abade mandara os seus três criados a bater a estrada menos provável. Que não lhe restava senão aceitar os factos. Na véspera, ainda recebera uma inesperada carta dos Morgados de Macedo, a pô-lo ao corrente que o filho tinha intenções de casar com a Maria das Dores e que ambos tinham para isso a sua bênção, que ela para todos os efeitos passaria a ser sua filha.
O som das ferraduras foi esmorecendo. Saíram debaixo da ponte, curiosos e muito excitados com tudo aquilo. Perscrutaram a estrada para ambos os lados. Nem vivalma! Foi ela quem falou:
- Então, José Manuel?
- Viu isto? Viu isto? Tal como eu previ! Tal como no Alexandre Dumas!

As folhas de chá

© Manuel Cardoso

O senhor morgado tinha ido a banhos. Estivera uma semana no Moledo do Douro e antes de regressar a casa dera ainda uma saltada de dois dias ao Porto para ver as vistas e trazer uns embrulhos para as senhoras. Já no fim da volta ainda passara na Chinesa e comprara chocolate, café e uma lata de chá, um chá oriental cujo aroma - “cheire só, senhor morgado, depois de o provar a sua netinha não vai querer doutro!” - já produzia efeito. Fizera as compras, despachara uns assuntos, telegrafara para casa a dizer que já ia e metera-se no trem na Campanhã, depois de meia hora de caleche desde a baixa. Tinha tido um tempo esplêndido mas a partir da Régua o céu cobrira e o ar, apesar de Setembro estar no início, arrefeceu. O trasbordo no Tua fez-se já com uma chuva persistente e depois até Mirandela, noite entrada, foi um crescendo de pingos que não esmoreciam. De fora da estação, num negrume que não se distinguia do vapor do combóio em manobras, esperava já a diligência, veículo temível coberto de oleados a pingar. O morgado e o Alves, que o acompanhava desde o início da jornada, acomodaram-se como puderam no interior acanhado.
- Safa, uns dias tão bons acabarem assim!
- E vamos com calma, senhor morgado, ainda nos esperam umas horas até Macedo!
Esperavam, de facto, e mais ainda quando a uma milha do Vilar de Ledra, à saída da ponte de pedra, a traquitana oscila para o lado, bate na guarda e empena o eixo mesmo rés-vés ao cubo da roda. Os viajantes apanharam um susto, saíram e avaliaram a situação. Desatrelaram-se os cavalos para ir por ajuda. Um grupo meteu-se a pé até ao Vilar, à venda da Rosa, onde se faziam as mudas. Neste grupo foi o senhor morgado, levando na mão apenas a mala pequena onde cabia uma camisa, o estojo da toillette, o das colónias, e onde se comprimia a um canto a lata de chá para a sua neta Micas.
Que alívio, chegar à venda da Rosa! Velha matrona trombuda que nunca aprendera nada com os viajantes, ficara sempre rude como a mais rude das fragas. Valia-lhe ter a destreza de moça e a força de um homem pelo que servia ali no ofício de trocar as parelhas quando passavam as diligências. Ele evitava-lhe o poiso sempre que podia. Mas hoje, pelo menos, estava ali a seco e agora com vagar podiam comer qualquer coisa. O lume, a um canto, estralejava giestas e estevas.
O moço de fretes da Rosa, tão atarantado como ela pela chegada inoportuna de tanta gente que vinha para se instalar, não parava de um lado para o outro a acender os lampiões, a espevitar com a tenaz os guiços incandescentes. Que, normalmente, as pessoas vinham só de passagem, mudavam-se os cavalos e seguia-se adiante, os passageiros só bebiam um trago e pronto. Porque é que não se tinham aviado em Mirandela?!
O atraso já era muito, e, também, quem esperava ter de se parar aqui?!
- Ó mulher, também não se aflija que a gente só quer abancar para comer! E paga-se! Não vai de fiado!
- Ora pois! Secamo-nos aqui ao borralho e num par de horas mal será se da vila não nos mandam uma carroça qualquer para seguir de viagem! Entretanto dê-nos aí um petisco a trincar!
- Mas que lhes hei-de dar? Não tenho cá nada, hoje foi feira na vila, já por cá passou muita gente!...Só se lhes der bacalhau! Umas lascas. Que não o tenho de molho...
Ao morgado não lhe apetecia bacalhau. Estava moído da viagem, aborrecido dos contratempos, enjoado de estar ali enfiado naquele buraco mal iluminado por lampiões de azeite, fedendo a vinho estragado e a bacalhau passado. Mas que fazer?!
- Olhe, ó Alves, vamos aqui a uma cartada com estes comparsas de viagem.
- E bebemos o quê, entretanto?
- Ora eu levo aqui um chá da China que vão ver, meus amigos, é um chá dos deuses! – e, pegando na lata colorida de tons castanhos e encarnados escritos a preto, estendeu-a à Rosa para que lhe fizesse aquele chá – Veja bem a senhora, nunca cá teve um chá destes, tome lá e faça-o aí! Só com o cheiro vai-se a fome! E acompanhe-o com umas torradas! Faça aí umas torradas que com o chá vão que nem sonhos!
À terceira ou quarta volta de cartas já o aroma fino se sobrepunha e o senhor morgado urgia:
- Então esse chá, vem ou não vem?
- Está quase, senhor morgado! Não demora nada!
A tisana tardava mas o jogo corria bem, os naipes vinham de feição e o morgado entusiasmava-se:
- Que cheirinho, hem?, ó Rosa!
Passou ainda um bocado mas finalmente sentiu-se a chegada da matrona.
- Ora aqui bem o tchá da tchina com turradas!
Com gesto satisfeito de dever cumprido, deixando um rasto fumegante de cheiro inconfundível, a Rosa pousou um prato manchado de faiança grosseira onde um monte de chá cozido à maneira de esparregado se erguia cercado por torradas de centeio. O morgado, pousando as cartas e arregalando a surpresa para evitar a explosão de mau génio, só articulou em lamento:
- O meu chá para a Micas!...
- Cheira bem e cozidinho! Está aí todo – diz a Rosa - , e mais que não é muito!
- E a água, o que fez à água de o cozer?
- A água?! Para que é que o senhor morgado queria a água?! Temos cá binho! Era para sopa?
- Mas o que fez à água?
- Ora, a água foi para a vianda dos porcos!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A Pulseira de Prata

© Manuel Cardoso

Quando foi preciso reparar o fecho do cordão de ouro e os brincos de esmeralda da D.Josefa, o senhor morgado, Bernardino José, aproveitou a boleia e comprou no ourives uma pulseira de prata de dois aros torcidos para uma das suas favoritas de travesseiro, a Custódia do Vilar.
Ofereceu-lha numa noite especial para aplacar os cuidados e medos em que ela andava porque sabia que o seu irmão, de maus bigodes para aquele romance, apregoara na praça que, na próxima vez que o morgado fosse lá a casa, lhe daria a ele desanda tamanha que a D.Josefa demoraria uns mêses para lhe consertar os ossos.
E com efeito, nessa noite, em casa da Custódia, ainda mal aquecido o colchão, ouviu-se um burburinho nas escadas da varanda. Ela começou com lamúrias baixinho mas ele, espadaúdo de ombros e mais ainda de alma, levantou-se, vestiu-se, ajeitou o coldre do St. Étienne para o ter à mão, pôs o chapéu de abas e apertou calmamente os alamares de prata do vasto capote de saragoça. Desenfiou do bolso a sua navalha de lâmina de Toledo. Ela benzeu-se. Ele abriu a porta.
Uma dúzia de homens dispunha-se escada abaixo, vultos contra a parede, degraus de granito de esfrega clareando com o luar. Ficaram-se todos por um silêncio que tudo dizia e o morgado desceu os degraus um a um, lâmina refulgente a fingir que limpava as unhas, cotovelos para os lados a avolumar mais o capote. Já no último degrau, com um assobio, chamou o moço que, num palheiro adiante, lhe guardava o cavalo. Dobrou a navalha, enfiou-a no bolso e, num garbo que lhe era reconhecido:
- Senhores, boa noute vos dê Deus!
Atarantados, enrolaram umas “boas noutes senhor morgado” que não saíram em uníssono. E toda a raiva que os juntara ali ficou esvaída em respeito, um respeito atávico resumido naquelas palavras.
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A D.Josefa não tinha ciúmes. Depois de lhe dar quatro filhos voltara-se para ele e dissera-lhe que já chegava, que estava cumprida a sua parte. Enfiara-se na alcova da sala pequena e não mais lhe visitou o quarto, um quarto enorme e frio de tecto lavrado e de paredes forradas com telas largas e graves de santos. Ele respeitou-lhe a vontade e obedeceu-lhe mais como filho que aceita do que como marido que compreende. Mais novo catorze anos do que ela, era-lhe difícil contrariar a senhora que o levara ao altar com um dote de truz. Ainda por cima cheia de força apesar de seca e pequena, e de capacidades, ou não herdara do tio, Abade de Medrões, confessor privado dos Marqueses de Fronteira, uma inteligência de assombro? Era ela quem administrava a casa, contratava e despedia, decretava ordens aos caseiros das quintas mais longe, recebia rendas das aldeias onde tinham foros, negociava as madeiras e os animais, cobrava os juros das letras de empréstimos, executava a liquidação destes nos casos arrastados e insolúveis. Ela fazia tudo.
De forma que a ele sobrava-lhe tempo. Para ir às feiras e arraiais, à caça e às visitas aos amigos, que tinha muitos – e às saias, que tinha algumas. Mas guardava à sua Josefa um grande respeito e, até, afeição. No bolso do colete trazia sempre um medalhão forrado de veludo, dentro do qual se estampava a figura magestática da sua Josefa. Trazia-a sempre junto ao peito como uma raridade extravagante e todas as outras lhe tinham admirado já o passe-partout que se abria e que, no centro de uma cercadura de bronze, tinha o daguerreotipo da fidalga pintado com um vestido de seda, brincos de ouro e olhar de Miranda.
A par dessa aparente tolerância em matéria de raparigas, ela tinha-lhe definido claramente duas ou três linhas de intransigência: nada de se meter com casadas; nada de jogatinas ou bebedeiras de perder o tino; nada de jóias para as amantes. Com o seu nariz de feitio administrador, sobretudo este último ponto lhe era importante já que “a desforrar-se de capital, que o desforre na família. Prata, ouro e jóias, só cá para dentro, para poder ser herdado – se for para o resto, perde-se e diminui-nos!”.
Levavam assim uma vida de harmonia, ele deixando-a mandar e ela aturando-lhe as aventuras e as manias – que tinha algumas. Fidalgo desde sempre, afinara um bom sentido para a mesa e tinha um paladar apurado. Ela era intransigente em matéria de contas – ele era-o nos cozinhados.
Um dia, sentado à mesa, chega-se-lhe uma travessa de ervilhas. Espetou o garfo. Saltaram para um lado e para o outro.
- Ah, não estão cozidas! Então hoje temos balas! – disse, mais alto de modos a que se ouvisse na cozinha.
Pegou na travessa, atirou-as ao chão fazendo logo correr os seus galgos de caça a farejar o chouriço.
Com estas, a D.Josefa deitava as mãos à cabeça. Porque não queria que o marido tivesse queixas de casa. Queria-o bem vestido, bem alimentado, bem contente. Era, por isso, um drama quando havia reclamações de cozinha e ela logo avançava corredor adiante a dar descomposturas e a provar das panelas não fosse a cena repetir-se.
“Olha lá, Efigénia, cozeste as batatas com a cebola lá dentro como gosta o senhor morgado? Uma cebola para três batatas? Ouve lá, Ricardina, o caldo do senhor morgado foi mexido com a colher de prata?”, pormenores que ele notava.
Então este da colher de prata era um mistério e um superlativo que fizera fama e sobre o qual havia, até, apostas. Em casa dos Sarmentos ele provara de dois caldos verdes e logo afirmara, sem margem para dúvidas, qual é que tinha sido mexido com a colher de pau e qual é que tinha sido mexido com uma colher de prata.
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Depois de uma ausência para a feira de Chacim, chegado ao solar num fim de tarde, foi informado por um dos criados que a senhora saíra, levara a égua branca e fora também o menino José Manuel no Riscão. Tinham ido ao Vilar. Tinha vindo recado a dizer que morrera a Custódia. O senhor morgado sentiu um súbito calor.
- Morreu a Custódia!? E que foi lá a fazer a senhora?
- Não sei, senhor morgado.
Em casa também não sabiam. Só havia recado que pela noitinha a senhora estaria de volta. E esteve, o tempo de ele fazer um semicúpio e mudar de roupa.
- Então, Josefa, que foi a senhora fazer ao Vilar?
- Apresentar pêsames e contribuir para o enterro.
- E para isso não estão lá os nossos primos?
- Estão mas não estão para tudo. A coitada morreu, o resto já não interessa. Vou ver como estão as coisas pela cozinha.
Ele percebeu a não-conversa. Deixou-a ir. Falariam mais tarde sobre a morte da Custódia.
Na cozinha era tanta a azáfama como a fumarada.
- Clementina, já começaram com o caldo? Hoje mexe-lo com a colher de pau, a queimada.
- O senhor morgado hoje não ceia, senhora?
- Ceia, ceia... ceia e bem!
- Mas vosselência...
- Mas que é isto? Fazes porque eu mando e pronto. E sou eu que lho sirvo, ouviste?
- Sim, senhora.
Ao estar pronto, tirada a tampa da panela de tripé a fumegar, foi a fidalga quem se ocupou de o lançar no prato.
O morgado começou a comer o caldo pelas bordas, escaldava. Sorveu e ficou pensativo. Havia ali qualquer coisa... provou outra vez. Havia ali um travo a madeira... mas não. O gosto não era o de sempre mas era impreciso o defeito, não lhe parecia ter faltado a colher de prata. Talvez de estar tão quente. Pousou a colher. Todos achavam que sim, que estava muito quente. Esfarelou uns miolos de pão para arrefecer. Recomeçou a comer. Topou qualquer coisa no fundo, sob as couves.
A D.Josefa, em pé ao lado dele, aguardava.
Com a colher tacteou melhor e levantou, surpreendido e boquiaberto, envolvida nos fios das couves, uma pulseira de prata de dois aros torcidos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

trovisco

TROVISCO
Daphne gnidium L.


Há duas plantas diferentes com este nome. Uma chama-se trovisco-macho, existe na Madeira e é muito diferente da que nos interessa e sobre ela nada aqui dizemos.

O trovisco que existe em Trás-os-Montes é um arbusto da família das Timeliáceas cujo nome científico é Daphne gnidium L (1). Há ainda duas plantas muito parecidas, também da mesma família e que têm os mesmos nomes vulgares em diversas regiões do país: trovisco-fêmea, trovisqueira, gorreiro (Alentejo), erva-de-João-Pires, mezereão, mezéreo-menor, mezereão menor. O mezereão, Daphne mezereum L., e a Daphne Laureola, são esses outros elementos desta mesma família. O sabor deste vegetal é muito amargo e, em geral, os animais evitam-no. Contudo, se for ingerido por cavalos pode ser mortal e o mesmo acontece com as galinhas, como se pode avaliar pelo seu nome no país vizinho.

Sinonímia internacional:
- Castelhano: torvisco, matapollos, bufalaga, matapulgas, matagallina, torbisca, trovisco;
- Galego: trobisco;
- Inglês: spurge flax, mediterranean mezereon, flax-leaved Daphne;
- francês: garou, sainbois, daphné Saint-bois;
- alemão: purgierstrauch;
- italiano: gnidio.

É uma espécie perene, vivaz e sempre verde, floresce precocemente de Março a Setembro. Formam-se verdadeiras comunidades destes arbustos, denominadas troviscais. Prefere o clima mediterrânico e existe até aos 800 metros de altitude. Pode atingir quase dois metros de altura. Tem ramos delgados e flexíveis. As folhas são lanceoladas, coriáceas, de tonalidade verde-azulada e produzem uma secreção resinosa no anverso. As flores são brancas ou levemente amareladas, aromáticas, formam cachos terminais ou em panícula, nas extremidades dos ramos. O fruto é carnudo, uma drupa, ovóide, de coloração que começa por ser verde, evolui para laranja brilhante e vermelho quando maduro e depois passa a ser preto.
Costuma haver flores e frutos simultaneamente e as flores chegam a preceder, na primavera, o aparecimento das folhas novas.

Esta planta está associada frequentemente a um insecto, uma borboleta , Lobesia botrana, aranhiço da videira – tignoletta dell’uva (it.), grape moth (ing.), arañuelo de la vid (cast.), que nela deposita as suas larvas.

Todas as partes da planta são tóxicas. Sobretudo as bagas que são os seus frutos, pelo seu carácter atractivo e por serem semelhantes às de outras plantas comestíveis, representam perigo e em especial para as crianças . A dose mortal não é muito elevada, sobretudo se forem bagas do mezereão (Daphne mezereum): dez bastam para que uma criança possa morrer se não for socorrida a tempo. Os sintomas desta intoxicação são náuseas, vómitos, hipercatarsis, diarreia sanguinolenta, congestão e ulceração da boca e garganta. Também é produzida irritação renal que pode ser grave.
O povo usa a raiz triturada numa preparação com farinha, cinza e terra para fazer bolas que, atiradas para os fundões das ribeiras, entorpecem os peixes permitindo a sua fácil captura. Este método de pesca é chamado de troviscada.

Os componentes activos da planta são uma resina e a dafnetoxina (2).

O contacto da seiva com a pele pode causar dermatites e vesicação.
A resina, presente nos frutos, é tóxica quer para homens quer para animais mas foi, apesar de tudo, usada ao longo dos anos quer em cosmética para preparação de um unguento para tingir os cabelos de preto quer em medicina como cicatrizante de feridas. Em Espanha usou-se muito para promover a cicatrização aquando da perfuração das orelhas das meninas, utilizando-se um troçozinho que se introduzia no orifício. Também como insecticida foi usada largamente para eliminar pulgas, piolhos, etc (3).
Nalguns países foi usada como purgante, estimulante, diaforética e catártica. Em doses pequenas.
Nas situações de doenças insidiosas da pele e nas escrófulas foi empregue externamente.
Os homeopatas usaram-na nas dores periósticas que se seguem à sífilis e no reumatismo.
Como revulsivo e vesicante e sempre que se pretende provocar a supuração de um abcesso mergulha-se a casca em vinagre e água para a amolecer e aplica-se sobre a zona a incidir com uma compressa, repetindo-se este tratamento à tarde e de manhã até que o resultado esperado se produza. Nenhuma destas utilizações deve ser feita por curiosos mas sim de modo consciencioso porque, repetimos, o uso desta planta não é inofensivo.

As sementes de trovisco vendem-se a 225 € + IVA cada 250 grama (4).


(1) O nome do género deriva do grego, Daphne, loureiro, nome da bela jovem casta educada no horror ao casamento e que ao ser perseguida por Apolo invocou a ajuda da Terra-Mãe e se transformou num loureiro (daí ser esta a árvore preferida de Apolo).

(2) Mezereína, denomina-se também o diterpeno tóxico presente.

(3) Foi extraída desta planta e das outras da mesma família a casca para usos medicinais. O princípio activo é a dafnina C15H16O9+2H2O. Esta pode ser decomposta em açúcar e dafnetina, que é uma dioxi-cumarina (Ver Bibliog.: King’s American Dispensatory...).

(4) www.sandemanseeds.com



BIBLIOGRAFIA

Dr. Oliveira Feijão, MEDICINA PELAS PLANTAS, Lisboa, 1952.

SEGREDOS E VIRTUDES DAS PLANTAS MEDICINAIS, Selecções Readers Digest, Lisboa

José Murcia e Isabel Hoyos, CARACTERISTICAS Y APLICACIONES DE LAS PLANTAS, 2001, www.zonaverde.net

www.botanical-online.com/fotosdaphne.htm

www.minerva.uevora.pt

www.fotodisardegna.it

DUNES ATLANTIQUES 2001, in http://perso.wanadoo.fr

DAFNE (Daphne mezereum) in http://w3.uniroma1.it

King’s American Dispensatory, Harvey Wickes Felter, M.D., and John Uri Lloyd, Phr.M., Ph.D., 1898. in Henriette’s Herbal Homepage, www.ibiblio.org/herbmed/eclectic/kings/daphne-meze.html

Plantas Silvestres de España in www.hoseito.com

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A NOITE DAS BRUXAS


Era o dia de Todos-os-Santos. A aldeia estava mergulhada numa cerração completa. A água escorria pelos telhados devorando as coberturas de telha velha e remexia a terra levando-a regatos abaixo, deixando as árvores chupadas de solo. Clarões magníficos alternavam com estrondos que estremeciam o sobrado, as paredes, a alma. O vento enfiava-se pelas frinchas, enovelava os pingos que caíam nas ruas, juntava aos trovões um chiar lúgubre que nascia nas ramarias já descarnadas dos carvalhos e dos freixos. Um raio desfizera parte do campanário da igreja e o negrilho grande do quintal dos tios.
Desde o início deste misterioso temporal que deixara de haver electricidade e os telefones eram uma ruideira inaudível. As estradas, com o alcatrão esventrado, estavam semeadas de pedregulhos que a água arrastara, com o aterro desfeito pela enxurrada. Algumas casas de curral mal seguras tinham desabado fragorosamente, andando os animais por aí, perdidos ao vento.
Ninguém tinha na memória a recordação de um temporal assim e deste também nem uma só pessoa iria poder afirmar, mais tarde, tê-lo presenciado.

I.

O João chegara para férias na véspera destes acontecimentos. Ao fim de uma clara tarde de Outubro, daquelas que são as melhores para se ir da cidade para a província, arrumara o carro, bem disposto, na garage de casa dos pais. Abraçou todos apertadamente. A Avó, a Mãe e o Pai e a Adélia, velha criada da casa e que queria ao menino João que já é doutor como a um filho. O quintal tinha o verde ralo que vem com as primeiras águas de Outubro e o Riacho, o seu perdigueiro infalível, bamboleava-se sem desfitar os olhos dele à espera de uma efusiva festa de recepção.
Ao jantar, enquanto devoravam um prato de cabrito assado, o João e o Pai fizeram planos para irem à caça no dia seguinte, planos esses abundantemente ilustrados com cenas e factos de outros fins de semana, preenchidos com tiros, correrias, ladradelas de cães, vozes de ordem e cheiro a urze, a esteva e a bicho. Andavam umas perdizes por cima da vinha do Zé da Padeira e o Armando, tractorista da casa, levantara uma lebre na Ribeira Velha, junto ao muro da Lameira das Fragas, no dia de passar a charrua para a sementeira do pão. A caça era, assim, uma ciência exacta feita da geografia em que tinham nascido, de um território comum a vencidos e a vencedores e em que estes eram paternais e protectores para aqueles durante uma boa parte do ano. As razões aparentes deste conflito iam buscar-se às couves roídas antes de serem colhidas, aos olhos da Luíza que se enamorava semana a semana pelo que mais peças conseguisse, a algum convidado da casa que se regalava com o prato cheio daquela carne saborosa e selvagem. Menos exacta do que a caça, era a política de pelourinho, feita de coisas relativas como as amizades e os votos e de coisas absolutas como as zangas de vizinhos, os favores e as susceptibilidades. Para acompanhar o café quente e a aguardente forte, o Pai tinha que resvalar a conversa para um assunto quente e forte e, afagando o cálice entre as suas mãos de dedos grossos e peludos, passando a língua pelos lábios para limpar o álcool que lhe fazia arder o cieiro, concentrou-se para reafirmar mais ainda as suas críticas ao presidente da câmara. Cavacos de freixo ardiam na lareira, vigiados pelo Riacho, deitado debaixo do escano de patas para a frente e focinho apoiado meio em cima delas meio em cima do chinelo da Avó. Às onze da noite já os olhos se lhe fechavam mas o Pai, ainda muito disposto para conversa animada, intimava a Mãe a assar aquele lombinho que, havia dias, o aguardava em vinho de alhos com louro. Comeu-se o lombinho tostado em brasas, com castanhas, arrefecido com copos de tinto maduro. Assim abastecidos, atacaram a política de tal maneira e com tais energias que parecia não estarem às dentadas a torradas de centeio com carne – mas ao presidente da câmara!
- E há agora aquilo das bruxas! – exclamou o Pai meio risonho.
- Das bruxas?! O fulano vai à bruxa, é?
- Quem me falou nisso foi o teu padrinho. Parece que aquele animal quer inventariar as bruxas que há no concelho, não se sabe para quê. Uns dizem que é para a cultura e outros que é por causa dos impostos para as autarquias. Coisas de socialista. De qualquer modo é nunca visto e o que se irá dizer de nós lá por baixo! Isto nem parece de quem tem estudos em Coimbra... bem, que ele não estudou nada enquanto por lá andou, tirou um cursozeco que nem canudo lhe deu...
- Ainda se fosse para acabar com elas, agora irem para aí dizer que na nossa câmara acreditam nas bruxas! O teu Tio, se ainda fosse ele o presidente, não faria nem deixava que se fizesse uma coisa dessas – interveio a Mãe ao mesmo tempo que tirava os pratos de cima de um banco onde o João os empilhara.
- Mas há mesmo bruxas? – inquiria ele segurando a tenaz para acender um cigarro com uma brasa.
A Avó mexeu-se no escano. O João repetiu a pergunta tentando desviar a conversa para as bruxas e depurando-a do lado político.
Quando ele era miúdo ouvira falar de casos estranhos como o do Alfredo, seu colega de carteira, que fora benzido com chumbo quando tinha tido os papos. Ao Augusto tinham tirado as lombrigas aos dez anos à custa de duas galinhas pretas cujas penas apareceram espalhadas ao pé do Cruzeiro Grande. As más línguas disseram na altura que o que ali faltava das galinhas tinha servido para a Maria dos Cravos fazer uns bons caldos e arrozes. Essa Maria dos Cravos morrera uns anos atrás e dera azo a grande celeuma porque as beatas do Padre não a queriam enterrar como um cristão. Ele meteu-as na ordem e rezou-lhe ofício com missa e tudo. Pairavam sobre ela famas que não fez por compreender mas que o assustavam na mesma e quando andava pela aldeia em garoto, fugia-lhe sempre mais ao gato que andava com ela. Lembrava-se bem de o Pai a ter posto fora de lá de casa no dia em que tinha morrido, horas antes, a Avó Beatriz.
Num instante, vieram-lhe imensas recordações dessas à lembrança e como nunca pensara nem falara sobre elas, ia agora satisfazer a sua curiosidade. Deu uma fumaça funda no cigarro para o refazer pegar e, com o fumo entre os dentes, não deixou cair a conversa. Foi a Avó quem lhe respondeu:
- Noutro tempo havia bruxas e tinham o seu fundamento. Não digo que não fizessem a sua vigarice mas prezavam-se a si mesmas e tinham fé no que faziam. Hoje, não. São umas galdérias, meia dúzia de impostoras que querem ganhar dinheiro à custa das crendices do povo. Há uma na vila que vive num bom andar, daqueles por cima do supermercado, que a um pobre casal roubou dezenas de contos (e quem mo disse, sabia-o!) para livrar a mulher do que diziam ser o espírito de um homem que tinha morrido. Hoje só há falcatrueiras!
- Falcatrueiros! No Nugalho há um bruxo que até receita remédios da farmácia e que tem dinheiro a potes nos bancos e andares lá para o Porto!
- E dantes, eram verdadeiras?
- Algumas. A bruxaria a sério é um pacto com o diabo e Deus nos livre! Deus nos livre!
- Já há muito que não há casos destes mas assombrações e coisas assim têm, algumas, que ser levadas a sério! Em Tresulfe...
- - Ah! A casa dos Teixeira! Essa foi mesmo exorcizada por dois padres!
- Aquilo de as nozes saírem disparadas pelas chaminés e de se verem as luzes atrás das janelas foi falado e, de facto, outra explicação não houve do que ser o diabo. Depois de lá terem estado os padres a coisa acabou.
A Mãe do João recontou a cena com todos os pormenores de que se lembrou e ele começava a sentir-se electrizado pela conversa ali à lareira. O Riacho, que já mudara de posição um par de vêzes, estava agora com pesadelos.
- E dantes dizia-se que no 31 de Outubro, que é hoje, as bruxas se encontravam à meia-noite na encruzilhada dos caminhos de Tresulfe, Pinhovelo, Amendoeira e Vale Pradinhos. Dançavam à luz da Lua e cantavam alto, desafinadas, encantamentos àqueles ou àquelas a quem queriam fazer mal ou bem. Nessa noite, dizia-se, apareciam sempre mais bruxas de cada vez que se juntavam e havia quem dissesse que eram as já mortas que se levantavam só para aí vir e que voltavam a ser gente de carne e osso!
- Isso todos os anos?
- Só nos em que calhasse ser lua cheia. Nos outros anos apareciam só as vivas e na terceira lua de Agosto.
A história do encontro das bruxas fora uma tirada da Adélia que, primeiro, não se metera na conversa. Ainda acrescentou novos detalhes. O de os sinos tocarem sozinhos as Avé-Marias como se os Anjos quisessem fazer com que as boas almas rezassem pelas que tão perdidas andavam era, segundo ela, para que toda a gente se guardasse, nesses dias, a si própria. Os sinos tocavam porque as bruxas andavam à solta e o diabo queria fazer muito mal aos que tinham a amizade de Deus.
Olhando a agenda de bolso, o João pôde constatar a coincidência de nessa noite ser lua cheia. E se tudo aquilo das bruxas tivesse um fundo de verdade? Se houvesse ainda uma bruxa a sério? Se o diabo usasse ainda tão medievais processos de penetração nos povos?
A conversa prosseguia à lareira mas já sem contar consigo. O seu pensamento estava ausente em espaço embora não no assunto. Quase sem ter consciência que essa vontade se formava nele nem o que ela implicaria se se verificassem os ses que colocava, resolveu-se a ir nessa noite ao cruzamento dos quatro caminhos. Era quase meia noite no velho relógio da cozinha e isso ia fazê-lo desistir porque não teria tempo de lá chegar mas lembrou-se que as horas dos homens não são mais as dos astros e faltava ainda, na realidade, muito mais tempo do que lhe poderia parecer.
O sono tinha-o abandonado e tanto pior para a caçada do dia seguinte. Iriam só à tarde.
Convenceu o Pai e enfiaram as samarras, puxaram-lhes bem as mangas e puseram as peles para cima. O Pai ainda voltou atrás a buscar uma lanterna e o João lembrou-se de levar o velho Smith.32 que tinha sido do Avô e que ele costumava usar sempre que vinha de férias. O Riacho despertou a um enérgico assobio que lhe era familiar e saíram os três pela porta da cozinha, descendo as escadas de granito e atravessando o quintal ao mesmo tempo que a Mãe, da varanda, dizia um não se demorem cujo tom, com um leve ar de nervosismo, não teve eco como nunca têm eco as vozes da apreensão no meio das do entusiasmo.

II.

Desaparecera a luz fria das lâmpadas da iluminação pública. Percorreram a estrada principal fumando e conversando baixo. Desviaram à direita no cruzamento dos três pinheiros e uma assobiadela chamou o Riacho que, não lhes adivinhando o trajecto, ia uns passos mais à frente farejando a direcção errada. Ganhou-lhe de novo a dianteira e estacou, hirto. Olharam-no com curiosidade. “Algum rato ou coelho” disse o Pai descontraidamente. Mas ao vê-lo, sombreado no meio do escuro da noite e entre os grossos e altos olmos que ladeavam a estrada, dentro do João um circuito rápido de ideias começaram em remoinho como se do mesmo modo como se lembrara de ali vir, assim inconscientemente se lhe instalassem receios que, apesar de não razoáveis, não deixavam de ser receios. A lua estava perfeitamente circular e projectava as sombras esbatidas do arvoredo como manchas pintalgadas parecidas às peças de um puzzle desarticulado e incoerente. Um arzinho arrepiava a pele da cara. Passaram pela ermida do Espírito Santo, erguida no rococó do século XVIII e que no pequeno arco do sino tinha ainda agarrados uns restos de festões do último arraial. O Riacho recomeçara a andar. Seguiam-se apenas duas curvas que se contrariavam silenciosamente. Chegaram.
Quatro estradas estreitas desembocavam umas nas outras, sem sinalização, fazendo quase que um labiríntico nó. O arvoredo, ralo e moldado pela luz da lua, envolvia-o numa sombra tão metálica quão orgânica e leve. Troncos grossos, muitos grossos e altos, uniam-se uns aos outros pelo emaranhado difuso dos galhos finos e desfolhados. Um pássaro nocturno esvoaçou com uma restolhada breve e fugiu para longe. O centro do cruzamento era ocupado por um círculo relvado por ervas espontâneas, do meio das quais se erguia um bloco de rocha deixado ficar para trás pelos empreiteiros da estrada. Uma bruma adensou-se a partir dele, esbatendo ainda mais os contornos irregulares das bermas e em breve e a um tempo, o João e o Pai deixaram de ver a mais de um palmo do nariz.
- Caramba! Um nevoeiro assim!...
- É verdade! Que estranho!...
E um cheiro a enxofre e a folhas queimadas, primeiro brando mas depois mais forte, revelou-lhes que algum acontecimento estava iminente. Não havia a claridade que os nevoeiros possuem e neste parecia que eles se iriam dissolver e apenas os olhos ficar pairando, espectadores que incompreendiam o transcendente a que estavam sujeitos. Horizontalmente, o nevoeiro formou uma bolha límpida no seu interior mas opaca para qualquer horizonte. No centro, o pedregulho começou a irradiar uma claridade intensa como se estivesse a ponto de fundir-se. O João assustou-se quando o Pai lhe segurou no braço para lhe dizer que ficariam até que acabasse o que quer que fosse. Surgiram à volta daquela luz branca-avermelhada nove figuras de mulheres agarradas a bordões e vestidas de túnicas de seda negra de uma elegância perfeita e de uma íntima magestade. Num gesto coordenado, levantaram os braços e a vara e desceram-nos com lentidão, como se medissem o ar ou o tempo. Repetiram tal gesto umas quinze vêzes e então viraram as costas à rocha dando meia-volta e afastando-se dela radialmente, a passos lentos, com paragens rítmicas e tão certas que dir-se-ia haver ali uma coreografia perfeita.
Uma delas ia precisamente na direcção do João e este entreolhou-se com o Pai cuja expressão de incredulidade era ultrapassadíssima pela de surpresa. O João empunhou o revólver e com a outra mão abafou o clic produzido ao puxar a cão atrás. Mesmo assim a bruxa levantou a cara bruscamente e olhou para eles, surpreendida. Deu um grito agudo e apontou-lhes o pau, desatando num estribilho incompreensível de sons desmodulados. As outras acorreram e o João, esquecendo tudo o mais, nem sequer olhando para o Pai, disparou. Uma só vez.
O tiro soou longamente como se o som fosse segredado pelo nevoeiro molécula a molécula e toda a sua textura, fazendo ressonância, o afastasse a custo, em ondas que esmoreciam, poderosas, em ralenti, de chapa contra o fraguedo da Boca do Inferno. As bruxas sumiram, aquele encanto desfez-se, o rochedo escureceu. Depois de uma troca de palavras tremidas e lacónicas, acenderam o foco e abandonaram o local.
Rompeu-se, então, um temporal perseguidor. Trovões encheram o ar de granizo e chuva. Entraram no quintal a correr e subiram as escadas de dois em dois degraus. Encharcados até aos ossos, estavam também a transpirar como se tivessem estado a arrancar batatas sob o sol de Agosto.

III.

Alguém bateu à porta da cozinha. As pancadas, iguais a tantas outras, assumiram na ocasião o mesmo efeito que teriam as dadas de dentro de um túmulo. Tirada a tranca de castanho, entrou o Tio com a sua corpulenta figura toda molhada apesar do seu velho e vasto sombreiro.
- Safa, que temporal! Desculpem vir neste estado e a esta hora... oh!, mas estão todos ainda a pé?!...
Cumprimentou a irmã, a Mãe e o cunhado e voltou-se para o João com um risonho “também cá estás?”. Serviram-lhe um cálice da tal aguardente, ouviu a história do João e do Pai com um olhar que começou por ser interessado e que no fim se exprimia por oscilações entre a suma incredulidade e a suma desconfiança de que neste mundo havia muito para além do que o conseguir produzir os nabos mais monumentais das redondezas.
Bateram outra vez à porta. Era o Joaquim, feitor do tio, comunicando o raio fuzilador do negrilho grande do pátio da casa.
- E a casa? – perguntou o Tio.
- A casa não teve nada, graças a Deus, mas, se o senhor não se importa, nós dormíamos hoje na Georgina...
- Nós?! Ó homem, então traz aí a família? Entrem, ainda apanham uma gripe!
E entraram oito olhos assustados e claros, de madeixas coladas às testas e Mãe atrás, matrona mas ainda bonita como o Joaquim a conhecera na festa do Vilar. A lareira transformara-se num auditório. O Padre João, cuja casa ficava mesmo por detrás do quintal, foi o próximo a chegar para pedir emprestada a escada comprida afim de poderem atar o sino com umas cordas porque estava em perigo de cair. Não chegou a ser precisa a escada. O sino caiu e o bronze fez-se em cacos como se fossem os pratos de Cantão da sala. O Padre João ouviu a história e ficou grave, pensativo, tenso.
- Então foi isso? É o demónio!
Os seus muitos anos e o cabeção davam um tom surreal a esta confirmação do que todos adivinhavam. Rezaram o terço e passaram a noite em velada, de volta do lume, em conversas sumidas e em torradas com fatias de carne que se pôs a assar. A Mãe ainda fez um caldo quente mais tarde, sorvido por todos já quase na alva.
Foram, então, até à igreja. Estava indescritivelmente confusa mas o altar-mór escapara indemne à falta de telhas e aos destroços do campanário que jaziam por toda a nave como se uma bombarda tivesse explodido naquele lugar santo. O pavio da lamparina de azeite do Santíssimo ardia num amarelo sobrenatural, impassível ao vento. A aldeia em peso aglomerou-se entre as paredes, à chuva, rezando. O Padre entoou uma Ladainha, rezou o Terço e por fim ficou conversando baixinho num latim sagrado, num esforço de intimidade com as Potências Celestes. Passaram momentos infindos sem que ele ou a multidão arredassem pé e a cada momento a ansiedade crescia.
O dia passou opressivo. Não se fez a tradicional visita ao cemitério. À noite, o João, o Pai e o Padre foram, a pedido do último, ao cruzamento dos quatro caminhos. Iam fazer um exorcismo.
Ao deixarem a casa, descendo as escadas da varanda, o temporal tornou-se genesíaco. A estrada era um charco contínuo com a água a dar-lhes pelos tornozelos e imensos galhos caídos davam um aspecto de um campo de batalha juncado de cavaleiros decepados. Aproximaram-se do local e, ao passarem pela capela do Espírito Santo, jorrou dela uma luz láctea e forte que saía pelas frestas e pelas telhas e se projectava rectilínea pelo negrume em volta. O pequeno sino começou a tocar como se tivesse saído dos gonzos e rodopiasse por cima da floresta.
De repente, do meio da estrada, saltou-lhes o Riacho, raivoso, olhos impressionantes, dentes brilhando. Mordeu na bainha da batina ensopada do Padre que, a um gesto, o fez sair uivando, embrenhando-se na escuridão em correria espavorida.
Chegaram. O rochedo lá estava, negro. O Padre João benzeu-se, abençoou o João e o Pai, levantou os braços com um crucifixo na mão direita e, quase aos gritos, com uma voz forte mas calma, iniciou o esconjuro que repetiu três vêzes. Do rochedo saiu alguém que era igual ao João mas não era ele; alguém igual ao Pai mas não ele. Puseram-se à frente deles. O que era igual ao João empunhava um revólver negro e, com uma mão negra também, apontou-o ao Padre. O Riacho uivou ao longe um uivo daqueles que os cães fazem quando pressagiam a morte dos donos. Ouviu-se um tiro e o Padre apoiou-se no Pai olhando em frente para a bruxa que era quem disparava e terminou a Oração dizendo-lhe um Amen que se fez sentir como o tiro que o João disparara contra ela, do mesmo modo entranhado de céu a rasgar-se. Desta vez o Padre João estava morto.

IV.

Na véspera do dia de Todos-os-Santos, ao fim de uma clara tarde de Outubro, daquelas que são as melhores para se ir da cidade para a província, o João arrumara o carro, bem disposto, na garage de casa dos Pais. Abraçara todos apertadamente. A Avó, a Mãe, o Pai e até a Adélia, a sempre criada da casa e que queria ao senhor doutor como a um filho. O quintal tinha já o verde ralo que vem com as primeiras águas de Outubro.
- E o Riacho? – perguntara o João pelo que era o seu perdigueiro infalível e que costumava bambolear-se sem desfitar os olhos dele, à espera da sua efusiva festa de recepção.
- Oh!- respondera-lhe o Pai – nem to dissemos na última carta para te não deixar triste! Ninguém sabe o que se passou mas imagina que o Padre João apareceu morto com um ataque de coração à porta da Capelinha do Espírito Santo e, o que é mais estranho ainda, o Riacho estava morto ao pé dele, com um tiro, um tiro de revólver ou pistola.
O João ficou perplexo mas, ao subir as escadas de casa, teve um vago vislumbre de tudo aquilo não ser novidade. Ao jantar, enquanto devoravam um prato de cabrito assado, ele e o Pai fizeram planos para irem à caça no dia seguinte.

© Manuel Cardoso

The meaning of Azibo. Everything has a begining...

No one knows for certain what's the meaning of the word Azibo.
It's an ancient word for "earth"? And if it is, why?
It's the forgotten name of a plant? Which one?
Perhaps it's time to go for a quest for it!...

Today, Azibo is the name of a small river and a beautiful artificial lake.
In Portugal. You may see it at http://www.azibo.org/

This blog is an experimental one. Too see what it comes. Like fishing at Azibo lake. A misterious one.