terça-feira, 16 de outubro de 2007

trovisco

TROVISCO
Daphne gnidium L.


Há duas plantas diferentes com este nome. Uma chama-se trovisco-macho, existe na Madeira e é muito diferente da que nos interessa e sobre ela nada aqui dizemos.

O trovisco que existe em Trás-os-Montes é um arbusto da família das Timeliáceas cujo nome científico é Daphne gnidium L (1). Há ainda duas plantas muito parecidas, também da mesma família e que têm os mesmos nomes vulgares em diversas regiões do país: trovisco-fêmea, trovisqueira, gorreiro (Alentejo), erva-de-João-Pires, mezereão, mezéreo-menor, mezereão menor. O mezereão, Daphne mezereum L., e a Daphne Laureola, são esses outros elementos desta mesma família. O sabor deste vegetal é muito amargo e, em geral, os animais evitam-no. Contudo, se for ingerido por cavalos pode ser mortal e o mesmo acontece com as galinhas, como se pode avaliar pelo seu nome no país vizinho.

Sinonímia internacional:
- Castelhano: torvisco, matapollos, bufalaga, matapulgas, matagallina, torbisca, trovisco;
- Galego: trobisco;
- Inglês: spurge flax, mediterranean mezereon, flax-leaved Daphne;
- francês: garou, sainbois, daphné Saint-bois;
- alemão: purgierstrauch;
- italiano: gnidio.

É uma espécie perene, vivaz e sempre verde, floresce precocemente de Março a Setembro. Formam-se verdadeiras comunidades destes arbustos, denominadas troviscais. Prefere o clima mediterrânico e existe até aos 800 metros de altitude. Pode atingir quase dois metros de altura. Tem ramos delgados e flexíveis. As folhas são lanceoladas, coriáceas, de tonalidade verde-azulada e produzem uma secreção resinosa no anverso. As flores são brancas ou levemente amareladas, aromáticas, formam cachos terminais ou em panícula, nas extremidades dos ramos. O fruto é carnudo, uma drupa, ovóide, de coloração que começa por ser verde, evolui para laranja brilhante e vermelho quando maduro e depois passa a ser preto.
Costuma haver flores e frutos simultaneamente e as flores chegam a preceder, na primavera, o aparecimento das folhas novas.

Esta planta está associada frequentemente a um insecto, uma borboleta , Lobesia botrana, aranhiço da videira – tignoletta dell’uva (it.), grape moth (ing.), arañuelo de la vid (cast.), que nela deposita as suas larvas.

Todas as partes da planta são tóxicas. Sobretudo as bagas que são os seus frutos, pelo seu carácter atractivo e por serem semelhantes às de outras plantas comestíveis, representam perigo e em especial para as crianças . A dose mortal não é muito elevada, sobretudo se forem bagas do mezereão (Daphne mezereum): dez bastam para que uma criança possa morrer se não for socorrida a tempo. Os sintomas desta intoxicação são náuseas, vómitos, hipercatarsis, diarreia sanguinolenta, congestão e ulceração da boca e garganta. Também é produzida irritação renal que pode ser grave.
O povo usa a raiz triturada numa preparação com farinha, cinza e terra para fazer bolas que, atiradas para os fundões das ribeiras, entorpecem os peixes permitindo a sua fácil captura. Este método de pesca é chamado de troviscada.

Os componentes activos da planta são uma resina e a dafnetoxina (2).

O contacto da seiva com a pele pode causar dermatites e vesicação.
A resina, presente nos frutos, é tóxica quer para homens quer para animais mas foi, apesar de tudo, usada ao longo dos anos quer em cosmética para preparação de um unguento para tingir os cabelos de preto quer em medicina como cicatrizante de feridas. Em Espanha usou-se muito para promover a cicatrização aquando da perfuração das orelhas das meninas, utilizando-se um troçozinho que se introduzia no orifício. Também como insecticida foi usada largamente para eliminar pulgas, piolhos, etc (3).
Nalguns países foi usada como purgante, estimulante, diaforética e catártica. Em doses pequenas.
Nas situações de doenças insidiosas da pele e nas escrófulas foi empregue externamente.
Os homeopatas usaram-na nas dores periósticas que se seguem à sífilis e no reumatismo.
Como revulsivo e vesicante e sempre que se pretende provocar a supuração de um abcesso mergulha-se a casca em vinagre e água para a amolecer e aplica-se sobre a zona a incidir com uma compressa, repetindo-se este tratamento à tarde e de manhã até que o resultado esperado se produza. Nenhuma destas utilizações deve ser feita por curiosos mas sim de modo consciencioso porque, repetimos, o uso desta planta não é inofensivo.

As sementes de trovisco vendem-se a 225 € + IVA cada 250 grama (4).


(1) O nome do género deriva do grego, Daphne, loureiro, nome da bela jovem casta educada no horror ao casamento e que ao ser perseguida por Apolo invocou a ajuda da Terra-Mãe e se transformou num loureiro (daí ser esta a árvore preferida de Apolo).

(2) Mezereína, denomina-se também o diterpeno tóxico presente.

(3) Foi extraída desta planta e das outras da mesma família a casca para usos medicinais. O princípio activo é a dafnina C15H16O9+2H2O. Esta pode ser decomposta em açúcar e dafnetina, que é uma dioxi-cumarina (Ver Bibliog.: King’s American Dispensatory...).

(4) www.sandemanseeds.com



BIBLIOGRAFIA

Dr. Oliveira Feijão, MEDICINA PELAS PLANTAS, Lisboa, 1952.

SEGREDOS E VIRTUDES DAS PLANTAS MEDICINAIS, Selecções Readers Digest, Lisboa

José Murcia e Isabel Hoyos, CARACTERISTICAS Y APLICACIONES DE LAS PLANTAS, 2001, www.zonaverde.net

www.botanical-online.com/fotosdaphne.htm

www.minerva.uevora.pt

www.fotodisardegna.it

DUNES ATLANTIQUES 2001, in http://perso.wanadoo.fr

DAFNE (Daphne mezereum) in http://w3.uniroma1.it

King’s American Dispensatory, Harvey Wickes Felter, M.D., and John Uri Lloyd, Phr.M., Ph.D., 1898. in Henriette’s Herbal Homepage, www.ibiblio.org/herbmed/eclectic/kings/daphne-meze.html

Plantas Silvestres de España in www.hoseito.com

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