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Mensagens

A mostrar mensagens de 2009

antes de beber - leia o rótulo!

Vê-se que é um vinho de pipa lavada. Se bem que hoje se usem cubas. E sabe-se – porque se prova – que é um vinho antigo, de bioquímicas sem electricidade, feito com a preocupação de ser vinho e não um produto de prateleira. A plain wine. Que digo eu: preocupação? Devo estar doido ou não dormi bem! Feito com um amor, assim é que é, entranhado pelo chão, pelas plantas, pelas cores das videiras, pelo calor que dão as vides quando se queimam na lareira. Que tudo é vinho: o lavrar e sachar, o podar e tratar, o espoldrar, o colher e esmagar, saber aguardar pela alquimia do mosto, pela alquimia da cuba, pela alquimia da cor que se vê contra a luz num copo facetado, até pela alquimia da evolução do sabor. Que só se sabe se é vinho se for bebido!


Lembro-me bem de que em nossa casa a pipa abria-se sob o lema de “in vino…Baco!”, escrito, aliás, desenhado a giz na porta da adega pela Guida e festejada com uma festarola para a qual se tinham cozinhado almendrados e amarantinos que um grupo de ami…

cafés, pastelarias e casas de chá

Toda a vida gostei de cafés, pastelarias e casas de chá. As mais antigas lembranças da minha vida (lembranças, que as recordações são outras…), estão-lhes ligadas, ao seu som e ruído, ao seu cheiro inesquecível, ao seu conforto resguardado. Lembro-me de imensos sítios, de muito longe, ao colo ou pela mão do meu pai, aroma tão doce de cariocas que já não existem, à mesa com a minha mãe, diante de um prato de bolos sortidos, ou a servir de chaperon nos namoros das minhas irmãs, a olhar para as bolhas a subir num copo de canada-dry. Há episódios de cada um que se sobrepõem como centenas de flashes, que me vêm do Marzim, do Palace, do Guarda-sol, da velha Estalagem do Caçador, do Central, do Gelo, do Nicola, da Brasileira, da Suiça, da estação da Régua, da Helena Tirone, da Poveirinha, do Poças, do 140, da Aurora, do Texas, do Monumental, do Paladium, da Imperium, da Colombo, da Caravela, da Mexicana, da Flor da Granja, da Bénard, de tantos e tantos outros. De todos esses pedaços do meu t…

Senhora da Serra - a surpresa da Eternidade

No IP4, acabara a subida de Vale de Nogueira, como tantas vezes, manhã luminosa a caminho de Bragança. Luminosa mas já com um arzinho de Outono, penacho a ser empurrado para fora da Senhora da Serra, semana da novena. Cliquei na 2 para ouvir o que dava. Nem de propósito: o coro final da Paixão Segundo São Mateus, de Bach, orquestra de Chicago dirigida pelo saudoso Georg Solti. Estava a passar depressa na descida de Rossas, Serra da Nogueira à frente, curva do ribeiro de Rebordainhos. Se a manhã, fora do carro, estava de se encher o peito de ar, via-se o recorte da Serra da Nogueira, ao fundo a do Montesinho e a da Cabrera, a paisagem de cá e de Espanha com uma nitidez em que se adivinhavam os campos, as eólicas e as árvores, dentro do carro, estava de querer voar, braços abertos, música a fluir, Bach a soprar eternidade. É que na véspera – ontem – eu tinha tido um choque. Um choque agradável.
Há já anos, não sei quantos, que eu tinha ido pela última vez à Senhora da Serra. Todo o Trás-…

AUTÓGRAFOS NO PORTO

O Segredo da Fonte Queimada - apresentação em Lisboa

No próximo dia 26 de Março, pelas 18,30, na Loja Portugal Rural http://www.portugalrural.com/ , a Campo de Ourique http://www.portugalrural.com.pt/LOCALIZACAO.ASPX , vai ser feita a apresentação d' "O Segredo da Fonte Queimada" pelo Professor Doutor Vítor Serrão. Conto com a vossa presença!

O SEGREDO DA FONTE QUEIMADA

já existe! quando for o lançamento, aviso. "Na biblioteca de um velho capitão solitário figura um livro raro escrito por um médico de D. João V. Que segredos encerrará esse Aquilegio Medicinal sobre as fontes e águas de Portugal? E que águas e fontes serão verdadeiramente aquelas a que se refere o seu autor? É o que nos propõe descobrir Manuel Cardoso nesta aliciante viagem no tempo até ao Portugal do século XVIII." http://www.principia.pt/det_livro.asp?idlivro=451

o primeiro avião nos céus de bragança

O PRIMEIRO AVIÃO
Que veio ao Distrito de Bragança,
aterrou em Macedo de Cavaleiros

© Manuel Cardoso e Brigantia[i]


O primeiro avião que veio ao Distrito de Bragança, em 26 de Julho de 1922, foi um biplano Breguet, aterrou em Macedo de Cavaleiros e foi pilotado por Sarmento de Beires. O pretexto da sua vinda foi o da festa de Santa Bárbara, desta vila, a ser celebrada a 29, 30 e 31 de Julho, mas a sua repercussão ultrapassou em muito quer o âmbito geográfico quer religioso das festividades.

As viagens e peripécias aéreas dos nossos aviadores, então ainda pioneiros e impregnados de espírito de aventura, estavam no auge. Nesse ano e nos meses que antecederam esta incursão pelos céus trasmontanos, os jornais tinham-se enchido com a saga da Travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Patrocínios, subscrições públicas e procura de propaganda, a que a venda e disputa de público leitor pelos principais jornais não estava alheia, tornavam efervescentes todas as iniciativas que p…

Zé Carlos Ary dos Santos : um outro olhar

“Não, minha mãe. Não era ali que estava.

Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.(…)” (1)



© manuel cardoso 2009



Ainda é difícil escrever-se com total objectividade sobre José Carlos Ary dos Santos. Por várias razões. Uma delas tem a ver com o facto de ser uma figura pública que há pouco tempo desapareceu de entre nós, estando ainda vivos, felizmente, muitos dos seus companheiros e amigos. Morreu precocemente, quando contava 47 anos de idade (se fosse vivo teria hoje 73 anos [...], feitos em Dezembro de 2009, pois nasceu em 7 de Dezembro de 1936). Assim, a perspectiva está ainda muito desfocada pelo pouco tempo que nos separa desse 18 de Janeiro de 1984 na Rua da Saudade, em Lisboa. Outra, tem a ver com o forte ruído ideológico (para o qual concorreram diversos factores) sobre o José Carlos, tanto sobre o que foi a sua vida, vista de diante para trás, como sobre o que é a sua memória. Finalmente, há a dificuldade nascida dos anticorpos que, um pouco por todo o lado, geraram o seu comportame…

AS SETE SOMBRAS DA MORTE ©

Tentei encontrar um livro sobre a morte. Para sobre ela poder escrever um outro. Mais bem dito: sobre as mortes. Pensei que, com todas as filosofias que o homem elaborou, com todos os poemas declamados a um pôr-do-sol mediterrânico, com todos os contos que os nórdicos repetiram nos longos serões árcticos, com todos os romances que encheram milhões de páginas e fizeram chorar donzelas nas suas torres, com todos os corpos que juncaram chãos em todas as batalhas, com todo o sangue que correu em quartos, em noites, em jardins e em sonhos, pensei que houvesse um estudo metódico, profundo, sensível e, até, verdadeiro, sobre a morte. Mas não há. Nem pode haver. Porque todas as filosofias, poemas, contos, romances, todos os corpos que juncaram chãos, todo o sangue que correu tem como origem alguém que está vivo. Estando vivo, não tendo a experiência própria da morte, é impossível descrevê-la metodicamente, analisá-la profundamente, senti-la verdadeiramente. Teria que ser um morto a discorrer …