domingo, 13 de dezembro de 2009

antes de beber - leia o rótulo!


Vê-se que é um vinho de pipa lavada. Se bem que hoje se usem cubas. E sabe-se – porque se prova – que é um vinho antigo, de bioquímicas sem electricidade, feito com a preocupação de ser vinho e não um produto de prateleira. A plain wine. Que digo eu: preocupação? Devo estar doido ou não dormi bem! Feito com um amor, assim é que é, entranhado pelo chão, pelas plantas, pelas cores das videiras, pelo calor que dão as vides quando se queimam na lareira. Que tudo é vinho: o lavrar e sachar, o podar e tratar, o espoldrar, o colher e esmagar, saber aguardar pela alquimia do mosto, pela alquimia da cuba, pela alquimia da cor que se vê contra a luz num copo facetado, até pela alquimia da evolução do sabor. Que só se sabe se é vinho se for bebido!


Lembro-me bem de que em nossa casa a pipa abria-se sob o lema de “in vino…Baco!”, escrito, aliás, desenhado a giz na porta da adega pela Guida e festejada com uma festarola para a qual se tinham cozinhado almendrados e amarantinos que um grupo de amigos do pai consumia animadamente, juntamente com fatias finas de presunto, pão torrado e salpicões de azeite (haveria mais coisas, decerto, mas são estas as que guardo comigo). E o vinho que se bebia, dessa pipa que se abria, a pipa do canto, mais comprida e respeitada, era parecido com este, um vinho de sabor especial como o é sempre o vinho do dono da casa. Una anos era mais tinto, outros era mais claro, “está mesmo um clarete!” diziam estalando a língua. “Palhete”, chamava-se-lhe por Macedo. E ainda se chama, essência de tons difíceis, amadurecida nestas vinhas de altitude e clima caprichoso (será por isso caprichoso, o nosso vinho?). Um vinho antigo. Bom para beber no Verão, “fresquinho vindo da pipa”, que apesar do tom ou da cor, nada impede que não escorra divinamente do frigorífico para apaziguar a canícula (o nosso Avô Amadeu era dado a astros, sabia as constelações todas e, contava o meu Pai, ele empregava esta palavra na sua verdadeira acepção: canícula era o período de conjunção do Sol com a constelação de Cão, um período do Verão quente e abafado). Deste vinho se fazia o melhor vinagre, num pipo pequeno de tampa aberta, em que o líquido nunca se acabava. E com este vinagre se temperava a água dos cântaros mais retardada, para que não fizesse febres, e se regavam as saladas no prato abundantemente, de certeza pelo mesmo motivo. Mas voltando ao vinho que aqui nos traz, é, por isto tudo, um vinho antigo cujo sabor eu já suspeitava. É que também o nosso tinha uvas de vinho e uvas de mesa. No dia da vindima era preocupação colher aparte os cachos sem defeito dos dedos de dama, da uva de rei, das sem grainha e das outras das cepas da ponta (impossível a Mãe deixar que alguém dissesse que eram as quilhões de galo…). Feita a escolha dos que se penduravam nos pregos da despensa para ir comendo e fazer passas, que não tivessem bagos chochos nem suspeitas de bolores, as outras iam directas para o esmagador de volante e cremalheira e misturavam-se na dorna, mexida diariamente com um trado de madeira, vigiada diariamente com um pesa-mosto. Depois de metido na pipa passava-se o Inverno como se não existisse – a menos que lhe saltasse a tampa, sinal que iríamos ter um vinho turvo – até se lhe meter a torneira a maço, dia de gáudio, “in vino… Baco!”, e se trasvasar para as garrafas. O preparar das garrafas tinha sido uma trabalheira: passadas por água, lavadas com escovilhão de arames, destroços de rolha retirados de dentro delas com utensílios engenhosos, chocalhadas com chumbos de espingarda para lhe destacar das paredes o sarro, as concreções, depósitos esquecidos. Iam-se alinhando. Num caldeiro ferviam as rolhas novas de cortiça, boiando e rebolando na água, rescendendo como se fossem uma infusão de magia (e não o era, tudo aquilo?), apanhadas num ápice para a goela do arrolhador que, com um gemido, as enfiava pelo gargalo da garrafa.

A garrafa verde que ontem me vieram oferecer a casa e tirei de uma caixa, aliás, de umas caixas onde estavam muitas mais, trazia rótulo. Tal como o vinho, não era nem é um rótulo qualquer, pretensiosice paga para captar clientes, cheio de anotações numéricas de normas, atestados e classificações e um paleio mole e piroso a elogiar o vinho… nada disso! É um rótulo elegante e feminino, como se fosse uma garrafa pronta e vestida assim, de vestido curto dos de dançar o Charleston nos anos vinte, colar largueirão de contas vermelhas até à cintura usado para as letras, muito simples e por isso requintada sedução de “que venha a festa que eu estou aqui, sou como sou!”. O Amendoeira 2008 é um vinho histórico. Pelo seu passado e pelo seu significado, bem expresso no rótulo, tão simples e significativo, da CASA DOS SERRAS: diz tudo o que é, como numa declaração de amor feita de coração na mão.

Antes de beber o vinho, comece a saboreá-lo lendo o rótulo, todas as palavras do rótulo, as escritas e as que foram sonhadas para que, vinho e rótulo, se possam ler e beber.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

cafés, pastelarias e casas de chá

Toda a vida gostei de cafés, pastelarias e casas de chá. As mais antigas lembranças da minha vida (lembranças, que as recordações são outras…), estão-lhes ligadas, ao seu som e ruído, ao seu cheiro inesquecível, ao seu conforto resguardado. Lembro-me de imensos sítios, de muito longe, ao colo ou pela mão do meu pai, aroma tão doce de cariocas que já não existem, à mesa com a minha mãe, diante de um prato de bolos sortidos, ou a servir de chaperon nos namoros das minhas irmãs, a olhar para as bolhas a subir num copo de canada-dry. Há episódios de cada um que se sobrepõem como centenas de flashes, que me vêm do Marzim, do Palace, do Guarda-sol, da velha Estalagem do Caçador, do Central, do Gelo, do Nicola, da Brasileira, da Suiça, da estação da Régua, da Helena Tirone, da Poveirinha, do Poças, do 140, da Aurora, do Texas, do Monumental, do Paladium, da Imperium, da Colombo, da Caravela, da Mexicana, da Flor da Granja, da Bénard, de tantos e tantos outros. De todos esses pedaços do meu tempo (já que foram pedaços de tempo, um bem tão precioso, que neles fui deixando) guardo uma especial memória de alguns. A intensidade desses momentos passados foi tal que ainda hoje – e, estou certo, até que um dia feche os olhos – deles cintila comigo a sua luz inesquecível e saborosa.
Tenho pena de serem impossíveis de revisitar com a mesma atmosfera. A começar pelo Diana Bar, pousado na areia da praia da Póvoa, em que se entrava com a sensação de tomar lugar numa nave prestes a partir e com gente sempre a chegar, ruído de cadeiras de madeira e de metal, sabor de yogurts amargos, dos verdadeiros, dos de se lhes por açúcar às colheradas tiradas de açucareiros também verdadeiros, cromados, de tampa com entalhe para a colher. Luz por todos os lados, do céu, do lado do mar, das vidraças, vento a ver-se lá fora no drapejar incessante das riscas das barracas e toldos de lona da praia. Da galeria redonda avistava-se a sala de baixo como quem assiste a um programa de variedades, toillettes e passos estudados, homens mais graves de chapéu escuro e fatos de importância, pose de leitura dos diários, óculos polidos para não macular a visão dos penteados e dos passos das senhoras e raparigas. Tantas saudades do Diana Bar! Do cheirinho do café de saco que vinha das máquinas do bar de baixo e subia como que empurrado pelos tabuleiros que os criados erguiam acima das cabeças de toda a gente, para não chocarem, repletos de chávenas e pires, e os levavam voando como se executassem um número de ballet. Bem sei que era poiso do José Régio e precisamente porque era poiso do José Régio, tenho a certeza que ninguém mais do que ele se teria oposto ao que é hoje: uma biblioteca, espaço cultural. Cultura, cultura, era o Diana Bar com toda aquela gente a fervilhar, a viver o seu tempo, a utilizar o seu espaço, tertúlia feita de quem a vive. Que mania esta de hoje, de querer viver a cultura como quem a exuma, em espaços cenografados de que se varreu a vida!
Em Lisboa voltei a encontrar o mesmo cheiro do café de saco no mais imperdível dos meus recantos: na Versailles. Descrever a Versailles e o que vivi na Versailles daria um livro para várias edições, todas revistas e comentadas mais ainda. E ainda me custa falar da Versailles. Ainda vou lá. Não tenho o à-vontade da distância e, sem isso, não tenho a liberdade de construir frases sem que sobre elas pese demasiado comedimento. Ora, ser comedido no que se escreve é o contrário do que seria autêntico sobre o que foram os meus anos mais intensos da Versailles: exuberantes. Descrever, por isso, a exuberância com comedimento seria falsear em absoluto o espírito com que dia a dia cruzei as portas de vaivém e vidro gravado que separavam e separam a Avenida da República daquele microcosmos de todos os regimes. O melhor sítio para se beber chocolate - à Versailles e à espanhola.
Toda a gente me dizia sempre que o café de Espanha era intragável. Horrível. De se não beber. Mas devo dizer que o café que bebi há imensos anos no Novelty, em Salamanca, me valeu por quase todos da vida. Tinha ficado embasbacado com a Plaza. Trovejava como num livro de tragédia e aproveitei uma aberta para me por no centro, ainda havia carros por ali nesses anos, mas raros, esplanadas à volta, fachadas de pedra à volta, um turbilhão de história a toda a volta que, num rodopio, me fez sentir uma vertigem daquelas que sabem bem, que nos arrebatam. Depois andámos pelas arcadas, surpreendendo o exótico, passos leves, querer tudo inspirar como uma possibilidade. Entrámos, então, no Novelty. Foi como quem muda as rotações de um gira-discos, de repente um 33 ou mesmo um 78 dos antigos, de ponta de aço e boca de gramophone, espelhos em que se via erudição e requinte mas tudo ao alcance de quem se deixa apenas ficar ali, passar a vista nas letras dos periódicos, ouvir cada frase sonora (sempre sonoras, as frases dos espanhóis) dita de forma decisiva e a misturar arte, paixão e estilo (até para matar um touro, os espanhóis o fazem com arte, paixão e estilo). Confesso que não me apercebi logo de que café era aquele. Apenas captei tudo o que o inesperado pode deixar captar de uma vez só, em que somos confrontados com a sensação de que era mesmo aqui que eu queria poder vir todos os dias. Ali o deslocado era eu, nas bluejeans, na mochila, no ar de visita. Mas fui encarado como da casa, como se fosse um cliente de sempre – deu-me ideia que ali os clientes não eram clientes, eram mais como se fossem membros de um clube, um clube de sempre, a cheirar a puros – e foi-me servido um café espanhol, com travo de café espanhol, numa chávena onde cabia uma colherona espanhola. Bebi-o concentrado, como se estivesse bebendo uma poção, tentando corresponder a que estava num local de arte, desde logo sentindo pelo sítio uma paixão e esforçando-me por fazê-lo com o meu melhor estilo. Estava mesmo bom, aquele café. Era daquele mesmo que tinham bebido tantos antes de mim, que o tinham cheirado, saboreado, sentido mais ou menos acre, mais ou menos forte. No fundo, aquele travo e aquele aroma era a forma mais próxima que eu tinha de me sentir chegado a todos os que tinham frequentado o Novelty antes de mim. Tinham-se visto nos mesmos espelhos, sentado nas mesmas poltronas e bancos, usado o mesmo balcão, as mesmas mesas. Quando hoje leio Torrente Ballester, por exemplo, imagino-o ali sentado ou em pé, discorrendo de forma sonora, observando as pessoas sob as arcadas, vendo Espanha e todo o mundo na Plaza, idealizando com arte, paixão e estilo cada uma das frases com que nos encanta ao lermos cada uma delas.
E por falar em encantamento, não posso deixar de dizer para memória futura que se houve granitados, sorvetes e batidos que o tenham tido, eram, sem qualquer dúvida, os da Ferrari. Começavam pelo colorido. Iam mudando de tom, conforme o tempo passava e os sorvíamos pelas palhinhas. Morangos com chantilly. A Ferrari era colorida também por toda a gente. O primeiro sítio de Lisboa em que eu, mais habituado a que as cores estivessem nas árvores e em tudo mas menos nas pessoas, monocromáticas e em frios tons de escuro, me senti como se estivesse num arco-íris. Estava também nos meus anos de arco-íris, Portugal estava de repente a ficar um país pequeno, eu a multiplicar horizontes para lá de parentes e primos. Tão boas as tardes na Ferrari, os fins de tarde na Ferrari! Foi numa mesa da Ferrari que tive as minhas mais inocentes conversas de flirt e também a minha mais séria conversa de namoro. A minha maior perda com o incêndio do Chiado foi a Ferrari. Alguém terá por aí uma fotografia tirada dentro da Ferrari?

sábado, 5 de setembro de 2009

Senhora da Serra - a surpresa da Eternidade

No IP4, acabara a subida de Vale de Nogueira, como tantas vezes, manhã luminosa a caminho de Bragança. Luminosa mas já com um arzinho de Outono, penacho a ser empurrado para fora da Senhora da Serra, semana da novena. Cliquei na 2 para ouvir o que dava. Nem de propósito: o coro final da Paixão Segundo São Mateus, de Bach, orquestra de Chicago dirigida pelo saudoso Georg Solti. Estava a passar depressa na descida de Rossas, Serra da Nogueira à frente, curva do ribeiro de Rebordainhos. Se a manhã, fora do carro, estava de se encher o peito de ar, via-se o recorte da Serra da Nogueira, ao fundo a do Montesinho e a da Cabrera, a paisagem de cá e de Espanha com uma nitidez em que se adivinhavam os campos, as eólicas e as árvores, dentro do carro, estava de querer voar, braços abertos, música a fluir, Bach a soprar eternidade. É que na véspera – ontem – eu tinha tido um choque. Um choque agradável.
Há já anos, não sei quantos, que eu tinha ido pela última vez à Senhora da Serra. Todo o Trás-os-Montes já foi à Senhora da Serra. Mas eu só ontem, só ontem é que entrei na igreja pela primeira vez! Das outras vezes eu fugira de lá ir, multidão à pinha em dia de festa, apenas tentara balbuciar qualquer coisa do lado de fora do templo. Algumas vezes nem saíra do carro, sítio desabrigado dado a ventos cortantes. Mas ontem – só ontem! – eu estacionei perto da entrada do adro, saí da carrinha apertando um colete almofadado que me deixou sentir o vento forte de forma agradável, com o seu quê de amigável, amigo velho. Abeirei-me do muro a Noroeste, luz do Poente de onde corria o ar, logo ali o morro do Pagus Celae, a Sudeste o morro quase gémeo de Alvelia. Fiquei preso do Sol, que esmorecia sobre um horizonte fantástico, mais baixo que eu, feito de milénios, de promessas e de intenções, de choros e de reconhecimentos, Lua redonda a subir de Nordeste, também mais baixa, ali tão perto, de face ao vento que soprava sobre as minhas costas, capaz de me tombar, um vento a ir e a vir daquele horizonte de eternidade, empurrando-me para a porta do templo. Entrei. Primeiro, um vazio. Nada de gente, abalada da missa da tarde, ainda não chegada para a prédica da noite. Hora sublime. Uma luz de cinema, vidraças a deixá-la entrar para o silêncio de igreja, uma ou outra de vidro partido a fazer esvoaçar cortinas de renda, como se alguém o quisesse. O assobio esfarrapado do vento, volume ondulante pelas frinchas de portadas e das tábuas do tecto, de todos os lados, o mesmo som que tanto me fazia ali, na Senhora da Serra, como há anos na Senhora do Cabo, batido do mar. O mesmo vento, o mesmo Sol, a mesma Lua, uma porta oscilando numa dobradiça rangente, marca repetida como um metrónomo a contar o tempo (o da nossa alma?). Um homem de joelhos, solitário, rapaz mais novo que eu, rezava lá à frente, calado. E eu fui andando pela nave numa surpresa de me ver mergulhado e a respirar a atmosfera carregada de sagrado, colunas de granito a suportar o céu e o tempo em vez de um telhado, imagens com a Senhora ao centro resplandecendo num diadema de estrelas de prata. Que o não precisava para resplandecer por si só! Como se não precisava também da imagem da Senhora para se perceber bem que Ela está ali, que Ele está ali com Ela. Seria do vento? Ajoelhei-me também, fechei os olhos numa reverência, deixei-me arrebatar de mim próprio, decidido a pegar nos pedaços soltos de mim próprio – quem de nós não tem pedaços soltos? Eu não fora ali para peregrinar. Fora para um jantar de carne assada, vitela e rodeão, batatas fritas e vinho, nos restaurantes, a convite. Não levava na ideia nenhuma pedinchice, nem ideia de promessa, nem gratidão estampada num ex-voto. Vim de lá jantado, pedido feito, promessa incerta e gratidão por lá ter estado. Segredos à vista da eternidade, naquela hora sublime de inesperado encontro.
E agora aqui ainda a pele se me põe de galinha, ao lembrar o instante, recordado no dia seguinte ao descer de Rossas pelo IP4, escrito mais tarde na agenda numa sala do IPB enquanto umas alunas tentavam acertar respostas de um exame, aqui transcrito para o computador no preciso dia em que fui interpelado por descurar o blog. Em qualquer sítio e em qualquer caso a reler e a escrever por causa de uma Senhora que, no alto de uma serra ou num penhasco de mar ou nas notas de um autorádio vibrando Bach, nos surpreende como se fosse um flash disparado da eternidade.

terça-feira, 10 de março de 2009

O Segredo da Fonte Queimada - apresentação em Lisboa


No próximo dia 26 de Março,
pelas 18,30,
na Loja Portugal Rural http://www.portugalrural.com/ ,
vai ser feita a apresentação d'
"O Segredo da Fonte Queimada"
pelo Professor Doutor Vítor Serrão.
Conto com a vossa presença!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O SEGREDO DA FONTE QUEIMADA

já existe!
quando for o lançamento, aviso.
"Na biblioteca de um velho capitão solitário figura um livro raro escrito por
um médico de D. João V. Que segredos encerrará esse Aquilegio Medicinal sobre as fontes e águas de Portugal? E que águas e fontes serão verdadeiramente aquelas a que se refere o seu autor? É o que nos propõe descobrir Manuel Cardoso nesta aliciante viagem no tempo até ao Portugal do século XVIII."

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

o primeiro avião nos céus de bragança


O PRIMEIRO AVIÃO
Que veio ao Distrito de Bragança,
aterrou em Macedo de Cavaleiros

© Manuel Cardoso e Brigantia[i]


O primeiro avião que veio ao Distrito de Bragança, em 26 de Julho de 1922, foi um biplano Breguet, aterrou em Macedo de Cavaleiros e foi pilotado por Sarmento de Beires. O pretexto da sua vinda foi o da festa de Santa Bárbara, desta vila, a ser celebrada a 29, 30 e 31 de Julho, mas a sua repercussão ultrapassou em muito quer o âmbito geográfico quer religioso das festividades.

As viagens e peripécias aéreas dos nossos aviadores, então ainda pioneiros e impregnados de espírito de aventura, estavam no auge. Nesse ano e nos meses que antecederam esta incursão pelos céus trasmontanos, os jornais tinham-se enchido com a saga da Travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Patrocínios, subscrições públicas e procura de propaganda, a que a venda e disputa de público leitor pelos principais jornais não estava alheia, tornavam efervescentes todas as iniciativas que pusessem a voar aquelas máquinas extraordinárias, quais brinquedos de entreter de forma séria um povo inteiro que queria, a todo custo, um escape para os tempos sombrios, conturbados e infelizes da Primeira República. Macedo não fugia à regra geral. Os grupos que remexiam na baixa política de campanário e que estagnavam o progresso ao estar envolvidos em intermináveis discussões bizantinas e em conspiratas menores de farmácia e barbearia, precisavam urgentemente de um facto que saísse do ramerrame e galvanizasse o povo. Se não o povo, pelo menos a sua esperança. Foi daí que um dos sectores, numa inspiração elevada na completa acepção da palavra, se lembrou de fazer vir um avião até Trás-os-Montes.


Esta viagem implicou contactos, negociações e recolha de fundos. Já o jornal “O Século” de 13 de Julho de 1922 trazia uma antecipação do que estavam a ser os preparativos, anunciando quem iria ser o piloto, qual o avião e que já havia a necessária licença do senhor Ministro da Guerra. Noticiava-se mesmo que o senhor Venâncio de Carvalho Morais, industrial, representava a comissão de festas em Lisboa e tinha, junto do governo, assumido o compromisso de providenciar o campo para a “aterrissage”.

Um campo que foi nivelado com uma lavra por juntas de bois, gradado, compactado a cilindro e despedregado dos maiores calhaus, numa extensão de mais de três centenas de metros, para que a máquina voadora pudesse pousar e levantar. Fez-se uma edição de postais ilustrados para angariar algum dinheiro e propagandear o acontecimento.

Contactaram-se os jornais para patrocínio, vindo a ser o “Diário de Notícias” o eleito. Se bem que o contagiante rodopio de preparativos das festas, de cuja comissão fazia parte o senhor Francisco Parente, chegasse a todos os outros órgãos de informação e tenha sido novamente “O Século” que, a 22 de Julho, noticiasse que iria ser um deslumbramento para quem se deslocasse a Macedo: quatro bandas de música, iluminações à moda do Minho, barraca de kermesse artisticamente ornamentada na qual venderiam sortes as mais gentis damas macedenses. Da parte religiosa constava missa a grande instrumental, procissão de penitência e missa campal. A coluna do jornal não termina sem que se refira: “Um dos grandes atractivos das festas será a vinda de um aeroplano pilotado pelo capitão-aviador sr. Sarmento Beires, o qual deverá aterrar no campo que está preparado para esse fim, no dia 28 às 9 horas[1], fazendo antes algumas evoluções sobre a vila, mostrando assim, ao povo trasmontano, os progressos da nossa aviação. O interesse regional procura atractivos de forma a tornar a vila de Macedo de Cavaleiros, que é já a mais bonita do distrito, a mais conhecida e a que mais distracções e comodidades oferece aos forasteiros. Espera-se por isso que as festas sejam grandemente concorridas.”[2]

Dias antes, sob instruções técnicas do piloto e da esquadrilha a que pertencia o aparelho, a da Amadora, tinha vindo por caminho de ferro o combustível necessário, óleo e apetrechos. Combinara-se mesmo haver uma fogueira fumarenta à hora da aterragem, para que se pudesse aperceber do alto de que lado estava o vento.

No dia 26 de Julho de 1922, às seis horas e trinta e cinco minutos da manhã, um biplano “Breguet 2” levantou voo da Amadora. Pilotava-o o Capitão Sarmento de Beires e vinham mais dois tripulantes, o Tenente José Carlos Piçarra como observador e o Sargento Ajudante Pinto de Gouveia como mecânico.

Percorreu os 350 Km até ao destino, sem escala. A sua aventura foi sendo seguida de terra pelas povoações sobrevoadas como Salgueiros (Casal Jusão), em que chegou a haver pânico nalgumas pessoas e onde o senhor João de Figueiredo Agostinho, comerciante em Benguela, fez subir alguns morteiros de saudação; Vila Moreira, às 8 horas, Sernancelhe, às 9; transportando a bordo centenas de Diários de Notícias, foram sendo despejados sobre Mangualde, Lamego, Moimenta da Beira e, no meio de uma euforia geral, sobre Macedo de Cavaleiros. Estes jornais, pela primeira vez recebidos no Distrito de Bragança a escassas quatro horas de terem sido impressos, foram disputadíssimos entre a população, tendo havido coleccionadores que chegaram a pagá-los a 10 escudos quando o seu preço de número era de 10 centavos (100 réis)!

Os macedenses e forasteiros tinham madrugado para assistir ao voo de chegada e aguardavam com nervosismo a ansiedade as horas que passaram desde que o telégrafo tinha avisado que a aeronave levantara voo da Amadora.

Por fim, um ronco contínuo foi sentido a vir dos lados de Bornes. Aterrissagem às nove horas e trinta minutos. Três horas, da Amadora a Macedo de Cavaleiros! Foguetório e banda de música, numa manhã de sol em que as senhoras se tinham munido de sombrinhas, os vivas e as saudações aos aviadores foram efusivas!

A comissão tinha um brinde para esta iniciativa e os seus elementos, o senhor Venâncio Morais, Manuel Serra, Lázaro Rodrigues e Francisco Parente, em sintonia com a Câmara Municipal, comunicaram que esta última tinha decidido oferecer ao estado por intermédio do senhor Capitão Sarmento de Beires, o campo de aterrissagem. Era a primeira tentativa séria, feita da parte da sociedade civil, para que o Nordeste, “esta região do extremo do país”, como se lhe refere o Diário de Notícias nos telegramas recebidos de Macedo de Cavaleiros, tivesse ligações aéreas com o resto do mundo! Milhares de pessoas aguardavam e observaram a aterragem.
Foguetes, sinos a rebate, correrias, foi um dia de entusiasmo e espanto. Aliás, uns dias. Porque o avião ficou por estas bandas uma semana.

No dia 30[3] o aeroplano levantou voo para fazer um tour pelo distrito, tendo sobrevoado Bragança, facto que ocorria pela primeira vez na história! Foi às seis horas e dez minutos da manhã! Houve foguetes e correrias e o assunto foi acaloradamente discutido pelos cafés e botequins, tendo sido esse facto decisivo para que a opinião pública bragançana despertasse para o progresso que representava a viação aérea!

O regresso à Amadora deu-se no dia 3 de Agosto. A viagem iniciou-se com a descolagem às 5,30 h, passou por Mangualde pouco depois das 6 e por Carregal do Sal às sete menos um quarto, tendo aqui sido saudado por uma morteirada. Passou sobre a Serra da Estrela e Coimbra, causando a sensação da novidade por todo o lado. Aterrou na Amadora às oito e vinte. Foi um record nacional de velocidade! 350 Km em duas horas e cinquenta minutos!

Durante anos perdurou na memória de quantos assistiram esta primeira vinda de um aeroplano ao Distrito e este testemunho documental e fotográfico aqui fica para a história de Macedo de Cavaleiros e para a história regional.




Bibliografia e fontes

Diário de Notícias
O Século
Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, Vol.IX, pg.233

Manuel Cardoso, Macedo Rua a Rua, ed. Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

Fotografias da família Sousa Cardoso

Postal ilustrado s/d, possivelmente da Casa Parente, Macedo de Cavaleiros


Na primeira página do Diário de Notícias de 27 de Julho de 1922 há uma fantástica notícia desta aventura, com uma fotografia em que aparecem os três aviadores da façanha.

[1] Acabou por ser a 26, como se pode ver neste artigo.
[2] In O Século de 5ª feira, 22 de Julho de 1922. Devo ao Dr. Lécio Leal e ao Dr. Carlos Mendes, da Associação Terras Quentes, a paciente busca deste jornal na Biblioteca Nacional.
[3] Não pudemos confirmar ou desmentir esta data ou outra indicada para este facto. O Abade, nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, vol.IX, pg 233, escreve que terá sido a 31 de Julho. De acordo com a redacção dada no jornal, terá sido a 30 mas pode tratar-se de uma interpretação do correspondente pelo que continuamos com a dúvida de 30 ou 31! Talvez algum leitor tenha uma prova irrefutável!!!! Uma foto datada!!! Uma carta que refira o acontecimento!!! Qualquer documento!!!

[i] Uma versão deste artigo foi publicada na revista Brigantia, do Arquivo Distrital de Bragança, em 2007.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Zé Carlos Ary dos Santos : um outro olhar

“Não, minha mãe. Não era ali que estava.

Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.(…)” (1)



© manuel cardoso 2009



Ainda é difícil escrever-se com total objectividade sobre José Carlos Ary dos Santos. Por várias razões. Uma delas tem a ver com o facto de ser uma figura pública que há pouco tempo desapareceu de entre nós, estando ainda vivos, felizmente, muitos dos seus companheiros e amigos. Morreu precocemente, quando contava 47 anos de idade (se fosse vivo teria hoje 73 anos [...], feitos em Dezembro de 2009, pois nasceu em 7 de Dezembro de 1936). Assim, a perspectiva está ainda muito desfocada pelo pouco tempo que nos separa desse 18 de Janeiro de 1984 na Rua da Saudade, em Lisboa. Outra, tem a ver com o forte ruído ideológico (para o qual concorreram diversos factores) sobre o José Carlos, tanto sobre o que foi a sua vida, vista de diante para trás, como sobre o que é a sua memória. Finalmente, há a dificuldade nascida dos anticorpos que, um pouco por todo o lado, geraram o seu comportamento e a sua conduta. Algumas pessoas, das contactadas para sobre ele falarem (das muitas que com ele conviveram e para lá das do costume que sobre ele discorrem…), mostram-se reservadas ou, pura e simplesmente, não querem que seja tornado público o seu testemunho, numa atitude em que essa reserva tem, precisamente, que ver com um determinado parti pris em relação ao homem e ao poeta ou com uma má experiência no seu convívio. Não era uma pessoa fácil, em muitos aspectos.

Para o definir com três palavras e de acordo com os testemunhos ouvidos, foi um homem inteligente, vaidoso (muito vaidoso) e só (muitíssimo só). A inteligência acompanhou-o a vida toda; a vaidade, prejudicou-o a vida toda e a solidão acabou com ele. A inteligência nunca lhe deixou ver disfarçado o vazio, o fosso que se foi cavando à sua volta ao longo dos anos e que o foi afastando de todos os seus afectos. Pelo contrário, a inteligência dava-lhe dia a dia um certíssimo quinhão de sofrimento pela consciência de que esse vazio existia e de que cada vez aumentava mais com o passar dos anos. A vaidade, amarfanhadíssima pelo silêncio que sobre si faziam quase todos os poetas do stablishment e seus contemporâneos, foi corroendo a sua capacidade de resistir à degradação dos valores em que se educara, opostos ao culto da sua imagem. Como fuga e compensação, aceitava o populismo que à sua volta crescia, passou a ceder à glória fácil de ter o aplauso dos que diante de si se babavam sem o compreender. Em nome da vaidade cometeu actos de irreverência que muitos confundiram (ou justificaram) com génio (que o tinha também). A solidão, nascida de um episódio familiar abrupto que o tomou de choque e o marcou para toda a vida, veio estender um céu de chumbo cujo peso imenso, em muitos momentos, lhe deu a insuportabilidade de tudo não crer e nada querer.

Um Zé Carlos incongruente com tudo e todos foi-se formando ano após ano. De tal modo que, hoje, há os que o idolatram e vangloriam sem o conhecer; os que o conheceram e sobre ele tudo dizem sem dizer nada e os que sobre ele mais não fazem do que inventar, intangível que lhes é como pessoa e incompreensível como artista, autor de letras de canções, poeta.

Há, assim, um outro Zé Carlos para além daquele que nos tem sido dado a conhecer. É o mesmo, claro. Está nos mesmíssimos versos, nas mesmíssimas atitudes e brincadeiras, nos mesmíssimos sítios com a força, a veemência, o génio, os palavrões, a impertinência, a truculência desconcertante e o humor sulfúrico. Mas é outro também, ao mesmo tempo, talvez visto ao espelho. Basta saber vê-lo. Sempre esteve e tem estado por aí. Talvez não tenhamos, mas é, reparado que sempre tem estado por aí.



1- O primeiro livro

Quase todas as notas biográficas, publicadas em jornais, revistas e livros ou disponíveis na net, referem as datas do nascimento (por sinal enganando-se sucessivamente: nasceu em 1936 e não em 1937!) e morte, as origens “aristocrático-burguesas”, a “saída de casa”, o “génio literário-artístico”, o êxito profissional, o sucesso mediático das suas letras para cantigas, o espírito truculento e inconformista, o passado antifascista, a homossexualidade, a militância comunista e o seu primeiro livro, Liturgia do Sangue.

Contudo, acontece que o seu primeiro livro não foi Liturgia do Sangue mas, sim, Asas, que foi publicado muito antes da Liturgia do Sangue (2); a sua militância comunista, muitíssimo repetida por muitos biógrafos (e protagonizada pelo próprio em numerosos comícios e sessões do PCP), é uma colaboração com o PCP mas sobre o qual há dúvidas de que tenha, algum dia, sido militante filiado no partido ou que, pelo menos, o tenha sido ininterruptamente (3); a sua “homossexualidade assumida” não era uma bandeira da sua vida mas até, nalgumas ocasiões, desabafada como uma fatalidade infeliz (4). Foi abundantemente bandeirada por outros. E terá sido a razão para que, durante um longo período – senão sempre – lhe tenha sido vedada a filiação no PCP (5). Daí que, com estas contradições entre a verdade oficial e verdade autêntica de si próprio (se é que se pode falar de verdade autêntica de alguém que criou imensos cenários de verdade aparente) se possa inferir que a maioria dos retratos com que é apresentado carecem ainda de muita da mesma verdade.

O Zé Carlos tinha qualidades humanas para lá dos rótulos com que têm sido embrulhados o seu carácter e a sua personalidade. Qualidades onde perpassam sentimentos de solidariedade pelos outros. Sob a superfície, em que o vemos num permanente desfrute, oferecimento e conflito, como era a sua postura perante a sociedade e o mundo, como se estivesse constantemente perante uma plateia e a divertir-se com ela, sob a superfície, diga-se, havia uma serenidade insuspeita para muitos, em que a tal solidão imensa deixava um vazio medonho.

Ele tinha um terrível medo de estar sozinho. Medo que entrava em erupção terminal nos seus momentos de catarsis, normalmente com um derradeiro confidente no fim de noitadas ou de etapas de várias noitadas em que se misturavam o cansaço, o gin e o excesso. Um medo que lhe vinha desde o dia em que sentiu que tinham sido traídas as dedicatórias que tinha escrito no seu primeiro livro, Asas, já que, a partir de então, tentou, para o bem e para o mal, apagar esse livro e o seu significado, como se o criador quisesse fugir à criatura.

A sua vocação poética foi exibida quando era ainda muito novo e há testemunhos de, em S.Martinho do Porto, onde ia para a praia com o grupo familiar, declamar na “Rua dos Cafés”, inflamados versos a uma rapariga, menina-de-família, alvo da sua paixão (6). Que não terá sido a única. Foi nesta esteira que foram escritos os poemas de Asas e, provavelmente, muitos mais que terão ficado por publicar. Os versos deste primeiro livro tiveram e têm um mérito reconhecido e auguraram tudo de bom para si, com um acolhimento favorável nos círculos das suas amizades e fora deles.

Asas foi publicado em 1952 (7). ZCAS tinha apenas 15 anos de idade. Dedicou o livro “À saudade de minha Mãe, os meus primeiros versos, que nasceram da infinita dor de a ter perdido. À presença de meu Pai, o meu primeiro livro pelo tanto que lhe quero e que lhe devo”.

Desde o primeiro verso do primeiro soneto “Dispo a tristeza inútil que me invade.” – que é uma afirmação de um acto – que está ali o José Carlos de sempre. Não está parado (ele dificilmente conseguia estar parado), está a agir, a despir-se. De quê? Da tristeza – a tristeza que foi uma das suas fobias – e não de uma tristeza qualquer, não daquela tristeza poética, inspiradora da melancolia dos poetas, não! Da “tristeza inútil”. Uma tristeza que não servia para nada, a não ser para o pôr triste. E esse soneto termina com uma outra afirmação que profetiza o seu modo de encarar toda a vida: “Que todo o mundo é meu e eu vou partir à conquista dos reinos da poesia!” (8). É um imperativo, um projecto de futuro.

Ler Asas é ler o prefácio da vida de José Carlos, como se o resto da vida não fosse mais do que capítulos no seguimento desse prefácio, o executar, secreta empreitada!, de um caderno de encargos.

Está ali tudo sobre si, em Asas, como num caleidoscópio que lhe antecipasse a vida e a obra: “Homens famintos, ébrios de vingança; Crianças que se matam e se odeiam; A morte a amortalhar a esperança; Os pobres, os mendigos e os ladrões” (9). “Caminho? Eu sei lá qual é o Caminho! Talvez por uma estrada de impossíveis para o país longínquo dos meus sonhos!” (10). O seu tom excessivo e rasgado, transgressor, a roçar o libertário, está já na inspiração dum poema intitulado, algo profeticamente, Libertação: “Rasgou minha alma um grito agudo/ De libertação./ E eu desdobrei as asas nos espaços,/ Sem peias, sem pudor e sem razão,/ Abrindo os braços,/ Como um irmão,/ Ao mar e ao céu!”.

Em Incógnita, há um expressar da consciência da dualidade dentro de si, talvez involuntário, talvez demasiado explícito para ter sido reflectido mas, por isso mesmo, autêntico e franco: “Mais para além de mim/ Havia outro./ Um outro que não via,/ Nem falava.”... Este outro acompanhou-o toda a vida, mudo mas nem por isso menos presente.

A figura da Mãe, a saudade da Mãe, que motiva a dedicatória desta primeira obra do autor, vai ser alvo de recorrentes versos que vão sendo escritos ao longo da vida. É como se, de vez em quando (para não dizer sempre) a presença (ou omnipresença) da Mãe fosse invocada em momentos de extrema necessidade de companhia e carência de ternura. De tal modo que, no derradeiro momento da vida, 32 anos depois de Asas, na solidão da casa, já no seu leito de morte, o seu pensamento vai para a Mãe uma vez mais e compõe um último soneto, talvez dos mais sentidos e belos que escreveu, que é, simultaneamente, o fechar de um ciclo, o retorno ao regaço, um desejo (desabafo, talvez) uterino de descanso: “Talvez que a tua voz que ainda me fala.../ ...o meu berço enfeitado a buganvília.../ Tenho tantas saudades, minha mãe!” (11).

Depois de Asas, o Zé Carlos sai de casa. E sai de casa, ao que tudo e todos indicam, em ruptura com o pai. Uma ruptura que terá sido dilacerante e dramática (12). A saída é, até, mais do que isso. É uma fuga, um pânico sem retorno. Sem transigências nem condições. Deu-se em 1953, tinha 16 anos. Embora isso não tivesse representado um voltar de costas a toda a família. Continuou a dar-se, nomeadamente, com as suas irmãs. Mudou-se para um quarto alugado na Rua do Alecrim, onde permaneceria durante anos, bem dentro do raio de acção protector da sua avó paterna, Maria Guilhermina de Pina Manique Pereira, que vivia na Travessa da Espera, a escassos trezentos metros, e a cujos jantares de clã comparecia.

Em 1954 alguns dos seus poemas já publicados foram incluídos na Antologia do Prémio Almeida Garrett. Este reconhecimento público viria a ser importante por um pormenor que se prende com a sua ruptura familiar e com um aspecto patente da sua personalidade: é que nada melhor para o seu amor-próprio, num momento de grande carência, do que sentir um apoio como foi esse – apesar do desdém com que muito mais tarde ignorou toda esta fase ou o “revisionismo” que sobre ela fez cair…



2- A mãezinha, a Tia Fernanda ou a génese do Tempo da Lenda das Amendoeiras

Um dia, em 1963, o Alexandre Ribeirinho, director do Teatro Universitário, apresentou José Carlos a Fernanda de Castro. A empatia entre os dois foi imediata e desde logo surgiu o tratamento de mãezinha e de Tia Fernanda que passou a adoptar para com a grande senhora: “24 horas depois de me ter conhecido queria que eu fosse a mãe que ele já não tinha” (13). Esse primeiro encontro deu-se no Algarve, em Alporchinhos, onde a escritora e autora tinha casa. José Carlos declamou o seu poema dramático Azul Existe, que hoje está incrível e misteriosamente eclipsado. Mesmo o ZCAS poucas vezes o mencionava e não o incluiu, nem excertos, em qualquer uma das suas colectâneas ou antologias. Também não consta da sua obra postumamente publicada. Mas então, nesse encontro com Fernanda de Castro, foi o clic definitivo para um período fecundo. Uma roda de novas relações, de que fazia parte Natália Correia e muitos outros, abriu-lhe horizontes e possibilidades que vieram a ser mais alargadas ainda com a frequência dos serões em casa de Fernanda de Castro, na Calçada dos Caetanos, ao Bairro Alto.

José Carlos e o seu irmão Diogo fizeram parte da trupe e da plêiade que, sob a direcção de Fernanda de Castro, com a coordenação e montagem de Alexandre Ribeirinho, José Francisco Azevedo, Mário Cardoso Pereira, Jorge Cenáculo e Edith Arvelos, incluía Manuela Machado, Catarina Avelar, Norberto Barroca e Maria Germana Tânger, tendo-se constituído como Teatro de Câmara António Ferro!

Fernanda de Castro é reveladora, ao referir-se a um ensaio para um dos serões seguintes, em que Zé Carlos tinha de declamar uns versos dela: “Desfolha-se em badaladas/ o velho sino de bronze./ As senhoras abastadas/ vão sempre á missa das onze/ (D.Aurora de mantilha,/ D.Francisca de véu,/ D.Gertrudes e a filha,/ de luvas e de chapéu.)”(…). Ao vê-lo, Fernanda de Castro desatou a rir e a cena resultou indelével na sua memória: “Jamais poderei esquecer a cara, os gestos, os ademanes, os olhares marotos e o riso contagioso do José Carlos ao falar da D.Aurora de mantilha, da D.Francisca de véu, da D.Gertrudes e a filha de luvas e de chapéu. Contado isto não tem talvez graça nenhuma, mas quem conheceu o Zé Carlos, tinha então 24 anos (14), compreende perfeitamente o que eu quero dizer e o efeito hilariante da sua recitação” (15).

O próximo espectáculo deste Teatro de Câmara António Ferro já não pôde ser na Calçada dos Caetanos por falta de espaço, embora aí tenham decorrido numerosas sessões de ensaio, a que assistia um público variado e interessado de intelectuais e artistas. Foi realizado no Tivoli.

É importante notar que este, como o anterior e os seguintes, sendo espectáculos de poesia em que o mote era dado por Fernanda de Castro, muito terão influído em muitos dos vincos da obra, tanto no campo puramente poético como no campo das letras para canções, de José Carlos. Repare-se neste poema: “Se os poetas dessem as mãos/ e fechassem o Mundo/ no grande abraço da Poesia,/ cairiam as grades das prisões/ que nos tolhem os passos,/ os arames farpados/ que nos rasgam os sonhos,/ os muros de silêncio,/ as muralhas da cólera e do ódio,/ as barreiras do medo,/ e o dia, como um pássaro liberto,/ desdobraria enfim as asas/ sobre a noite dos Homens./ Se os Poetas dessem as mãos/ e fechassem o Mundo/ no grande abraço da Poesia.”. Trata-se de um poema de… Fernanda de Castro!(16)

Difícil será não reconhecer, nos versos de José Carlos Ary dos Santos, muitas ressonâncias recorrentes destes mesmos versos. Neste Teatro de Câmara, no seu segundo espectáculo, o poema dramático Azul Existe foi encenado por Pedro d’Orey e foram seus intérpretes Heloísa Cid, Águeda Sena, Rogério Ferreira, Vasco Wallenkampf, Alexandre Ribeirinho e o próprio José Carlos Ary dos Santos, com a Edith Arvelos a ter a seu cargo os efeitos musicais (17).

Houve ainda mais dois espectáculos deste Teatro de Câmara António Ferro, em Junho de 1964, e da trupe chegou a fazer parte Eládio Clímaco.

Seguiu-se o I Festival do Algarve, Verão de 1964. Foi um momento a desabrochar em esplendor para o José Carlos. O contacto com o exotismo, Larbi Jacoubi e os príncipes Ouazani, a comunhão vivida com os participantes e actores, a proximidade ganha com Amália Rodrigues. Sobretudo, a consagração do seu poema Tempo da Lenda das Amendoeiras, apresentado pela primeira vez no Castelo de Silves em 12 de Agosto, dedicado a Fernanda de Castro, que iria ainda editar nesse mesmo ano como edição de autor, impresso em Lisboa, na Tipografia Americana.

No ano seguinte, acontece o II Festival do Algarve. Fados, folclore, poesia popular e erudita. Mais uma vez o Tempo da Lenda das Amendoeiras, dedicado a Fernanda de Castro. Este poema transforma-se num trampolim oportuno, até então a obra de maior fôlego de José Carlos Ary dos Santos.

A partir daí e até ao fim da vida manteve-se a amizade e, mesmo, cumplicidade, entre os dois escritores.

O suicídio do Diogo, seu irmão, em 11 de Março de 1965, tinha 21 anos, foi um momento de débacle (18).

ZCAS tinha-lhe dedicado “A Liturgia do Sangue”. Acompanhavam-se em trabalho e em noitadas, Diogo tinha participado também no Teatro de Câmara António Ferro. Irmão solidário e irmão-cúmplice, este desgosto ficar-lhe-ia indelével. Foi uma sombra, feita de profundo remorso e auto culpabilização, que nunca mais havia de o abandonar na vida. E que, sempre que pegava num gin, de algum modo evocava. Sigamos Fernanda de Castro: “O José Carlos Ary dos Santos era um amigo tão íntimo da casa que, durante certos períodos, como por exemplo o do Teatro de Câmara António Ferro, que ele viu nascer na década de 60, e mais tarde nos dois períodos que antecederam os dois Festivais do Algarve, foi um dos meus mais eficientes colaboradores, chegando a passar alguns meses na minha casa de Alporchinhos com o meu irmão Francisco, a Inês Guerreiro e a Edith Arvelos, a equipa que tão entusiasticamente me ajudou a levar a cabo estes empreendimentos.”

“Foi um colaborador precioso, honestíssimo trabalhador e ainda por cima alegre, entusiasta e cheio de força criadora. Era um bonito rapaz, afectuoso, que me dizia muitas vezes:

- Depois da morte do Diogo, a Tia Fernanda é a pessoa de quem eu mais gosto no mundo.”

“Nessa altura ainda o José Carlos não bebia, ou, pelo menos, bebia normalmente, como qualquer rapaz. Creio que foi o enorme desgosto que teve com a morte do irmão que o levou ao desespero, começando assim, sem talvez se aperceber, a vida dolorosa, triste e, sobretudo, estúpida que pouco a pouco inutilizou, deturpou ou corrompeu o que nele havia de melhor e era muito, muitíssimo” (19).

Para ilustrar este “nele havia de melhor”, Fernanda de Castro cita dois exemplos reveladores. O de uma velhinha sem abrigo a quem ele encontrou e a quem durante anos vestiu e pagou um quarto e comida e o de que, todos os anos, no aniversário de uma sua senhoria de quarto, a vestia como uma dama, levava a jantar e ao teatro. Questionado por Fernanda sobre esta sua atitude, respondeu: “Porque cada vez que eu tinha gripe ou anginas ela punha-me papas de linhaça e levava-me chá de limão à cama.”

- Só por isso? – perguntou Fernanda.

- Só?! Se soubesse como é importante, quando se vive sozinho, um chazinho de limão, uma conversinha amiga, um cobertor suplementar!...”

“Este era o Zé Carlos verdadeiro, o que me fez perdoar-lhe, durante anos, o gin, as palavras irreverentes, os extremismos, a incoerência de muitas das suas atitudes. Não se passava uma semana sem me convidar para jantar. (…) (20).



3- 1969 ou o charco da pedrada

Para muitos e para o próprio, 1969 foi um ano fulcral. Não o foi por acaso, inserido na vida do país e com a efervescência que quase todos os sectores então atravessavam, na aurora da Primavera marcelista. A sua aura de poeta tinha vindo sempre em ascensão e o seu nome era assumido em quase todos os círculos da capital. Mesmo no fim do ano anterior, um serão em casa de Amália Rodrigues tinha-o juntado com Vinicius de Moraes, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Alain Oulman e Hugo Ribeiro, tendo sido feito e editado um disco de vinil com as poesias, fados e guitarradas dessa noitada que ficava como uma antevisão do frenesi de 1969.

Foi o ano da militância política na CDE, Comissão Democrática Eleitoral, e o ano da vitória da Desfolhada no Festival RTP da Canção. Este último facto foi importantíssimo e decisivo. Experimentou uma euforia que lhe demoraria anos a passar, um certo sentir-se ébrio com a projecção e, até, o poder, que, de repente, lhe deu esse triunfo. Parecia que todas as facetas da sua vida lhe estavam a sorrir. Na poesia, na publicidade, na política. A sua criatividade e produção estavam num expoente (21). Mas nem por isso se libertava de uma persistente ingenuidade, duma certa deriva que toda esta euforia lhe veio fazer, ofuscando o sentido de profundidade. Natália Correia notou-o bem e passou a ter para com José Carlos uma pendência de diferença de pontos de vista que duraria toda a vida – mas sem pôr em causa a amizade entre os dois, assanhadíssimos a discutir em numerosas ocasiões!... Para Natália Correia, o poeta estava a sacrificar a poesia, calcada sob o género mais superficial das canções (22). Contudo, se não tivesse sido a projecção que lhe foi dada pela “Desfolhada” e toda a fase vertiginosa que iria viver a par da fama de Simone de Oliveira e do grupo “dos festivais”, dificilmente a sua vida teria sido como foi. Nunca seria como foi.



4- A revolução ou o fim da qualidade

Com o golpe do 25 de Abril e no período revolucionário que se lhe seguiu, Zé Carlos enveredou decididamente pela militância política e abandonou, ou pelo menos arrefeceu, algumas das suas anteriores amizades. Foi o caso de Fernanda de Castro, com quem, apesar de tudo, haveria de fazer uma reconciliação já na década de 80, e ainda o de Amália Rodrigues, que desabafa: “(...) Dávamo-nos muito bem os dois. De repente, dá-se o 25 de Abril e nunca mais aparece. Telefonou umas três vêzes a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Mais nada. Fiquei um bocado zangada com ele. Era um amigo de todas as noites, de uma convivência quotidiana, não tinha nenhuma razão para ter aquela atitude.” (23)

Surpreendentemente ou talvez não, durante o Prec e depois dele manteve a mesma postura elitista do seu modo de vida, sapatos de marca italiana, camisa e fatos de seda, a ponto de um dia ter sido interpelado por um camarada de partido que lhe reprovava o traje e a sua casa burguesa e a quem terá respondido que “o meu comunismo vem-me por via Czarista”! (24)

Certa vez, Fernanda de Castro questionou-o sobre a sua razão de ser comunista. A resposta pronta teve como contraponto da escritora que o que ele tinha era um fundo cristão e que aquele “comunismo” já tinha uma idade de dois mil anos e chamava-se cristianismo...

De facto, apesar do show off, da militância e das suas proclamações veementes, José Carlos não esconde, na sua poesia, nas suas letras de canções e nos seus gestos de solidariedade para com o próximo, um sentido espiritual, na concepção, e de amor, na concretização, de que nunca se afastou – ou de que nunca se quis separar.

Num dos últimos sonetos que escreveu, “Poesia-Orgasmo”, há um verso revelador: “que transporte do humano ao infinito”, e também no “Soneto de Inês” há “amor que torna os homens imortais” (25). Ora, o infinito e a imortalidade escapam ao cânone do materialismo dialéctico marxista...

José Carlos Ary dos Santos nasceu em Dezembro e morreu em Janeiro. Foi como se tivesse escolhido um ano velho para aparecer e um ano novo para desaparecer. “Escolhido” está mal dito. Porque o Ary raramente terá escolhido fosse o que fosse de decisivo ao longo da sua vida. Alguma vez os poetas escolhem seja o que for? Não são, antes, eles os escolhidos pela vida, pela sorte, pelas musas, pelo génio, para nos verter em palavras traduzidas o que a nossa vida nos põe à frente e nós, tantas vezes, não vemos?



5- Uma forma de fim

Não houve inocência na vida do Zé Carlos. Nem houve inocentes na vida do Zé Carlos. Parece-me que esta poderá ser a característica mais marcante que fica deste pequeno esboço sobre o poeta e o homem, uma primeira aproximação sobre poder haver “um outro olhar sobre a vida de José Carlos Ary dos Santos”. Como se pudesse ter havido um fenómeno de contágio de uma não-inocência. Ele, aliás, convidou a isso com o célebre “falem de mim, bem ou mal, mas falem!” repetidas vezes proferido. Não admitia uma atitude neutra, uma atitude tolerante. Este estado de espírito fê-lo antecipar a ideia e a encenação da sua morte. Morte, aqui, em sentido literal, com toda a coreografia imaginada e desejada como algo de fantástico e teatral. Chegou a confidenciar a ideia de que o seu enterro fosse marcante pelo espectacular. Mas com o fim da sua vida, que não chegou serenamente com uma velhice madura mas de modo súbito com a mesma violência com que ele passou pela vida – a começar pelas violências sobre si próprio –, algumas atitudes e frases, alguns versos e gestos de quem está para abandonar um palco, fazem pensar ou, pelo menos, deixam espaço para isso, que pela Rua da Saudade passava uma aragem de verdadeira saudade da inocência perdida.

Quando?

É uma pena não ter ficado terminada, ou em vias disso, a autobiografia romanceada em que trabalhava, “Da Estrada da Luz à Rua da Saudade”. A morte que se lhe fizera anunciar como uma presença solitária num período em que alguns dos seus mais chegados o abandonavam, não lhe deu tempo a concluir os projectos que já sabia serem os últimos. Contudo, ironia de poeta, havia de morrer precisamente nessa Rua da Saudade a viver da saudade. Forma de morrer tão portuguesa! E não de uma saudade qualquer. Nem da saudade da cidade que amava, nem saudade do país que tratava com uma certa distância: “Será possível que depois de Abril/ ainda adormeçamos acordados/ neste país-raiz de sofrimento?” (26). Não.

A sua vida acaba depois de voltar à infância, com muitas saudades:

“Tenho tantas saudades, minha mãe!” . (27)

Pois tinha.



(1)José Carlos Ary dos Santos, Infância,VIII sonetos, in Obra Poética. Edições Avante!, 1994


(2)A fotobiografia, que sobre José Carlos Ary dos Santos foi escrita e elaborada por Alberto Benfeita –Alberto Benfeita, Ary dos Santos, o Homem, o Poeta, o Publicitário, Fotobiografia. Editorial Caminho, Lisboa, 2003. – vai um pouco mais longe e é um livro bem estruturado e com episódios, fotos e documentos importantes e reveladores. Faz referência ao Asas, embora omita completamente alguns períodos e factos importantes da vida de José Carlos Ary dos Santos. Citando o autor a partir de uma entrevista, nela é referida a desvalorização que ZCAS fazia, a posteriori, deste seu primeiro livro e da poesia nele versada. Seria por causa da dedicatória ao pai que o abria? Seria o querer apagar, ao seu jeito iconoclasta, toda e qualquer imagem do pai da sua memória?

(3)Provavelmente, o Zé Carlos terá sido filiado episodicamente no PCP em 1969 e posteriormente expulso. Eduardo Pitta, Blog da Literatura, na entrada “Ary dos Santos”, publicada também em livro, Intriga de Família, Edições Quasi, Lisboa, 2005, afirma mesmo que ZCAS nunca foi militante filiado do PCP por oposição da direcção deste partido, avesso a homossexuais, e apenas terá sido inscrito no MDP-CDE. Durante um determinado período, soube-se no inner circle do poeta que não estava inscrito no partido. A sua colaboração era equivalente à de um compagnon de route e foi mais a seguir ao 25 de Abril que a sua colagem ao PCP foi pública e notória. Nas pessoas ficou a ideia de declarações públicas do desejo do poeta, feitas pelo próprio “de ser comunista” e da vontade de “ser do partido comunista”, sendo que nenhuma das quais atesta a sua efectiva filiação. É evidente que agora, a posteriori, ainda por cima tendo sido herdeiro de ZCAS, o PCP terá todas as razões para afirmar algo diferente.

(4)“(...)A única coisa que me falta é um filho, mas tal como sou, acho que não teria sido um pai suficientemente atencioso e não poderia dedicar ao meu filho toda a atenção necessária”, Jorge Figueiredo , “Ary dos Santos – Assumir a solidão acompanhado”, Revista Gente, 11-1-1984, citada por Alberto Benfeita in obra citada, pág. 115.

(5)Segundo Zita Seabra, in Foi Assim, Editora Aletheia, Lisboa, 2007, pág. 35, terá sido com o pretexto da homossexualidade que Júlio Fogaça, “principal teórico e dirigente do Partido” foi suspenso e expulso do PCP. Não cremos que tenha sido aberta uma excepção para ZCAS, a menos que tenha havido um especial acordo para o facto e mesmo este só tardiamente, após o 25 de Abril, dado que o poeta veio a fazer testamento da quase totalidade dos seus bens ao partido. Uma outra hipótese é a de ZCAS ter sido encarado como um dos “desvios de direita do PCP”, dados os seus antecedentes familiares e a sua postura social.

(6)Chamava-se Lisa.

(7)O livro foi impresso “nas oficinas da Sociedade Industrial Castor, Lda.” com um prefácio de Ramiro Guedes de Campos. in José Carlos Ary dos Santos, Obra Poética, Edições Avante!, 1994, sendo que nesta edição as poesias de Asas estão relegadas para o fim, fora da ordem cronológica, e escritas num tipo mais pequeno de letra!...

(8)Conquista, Asas, in Obra Poética.

(9)Poema sem Nome, Asas, in Obra Poética.

(10)Escuridão, Asas, in Obra Poética.

(11)Infância, VIII sonetos, in Obra Poética. Segundo a nota de Francisco Melo da página 392 desta edição, citando Manuel Gusmão, este soneto poderá ter sido escrito precisamente no dia da morte de Zé Carlos.

(12)“Que a terra lhe seja pesada./ Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos, ...”, In Memoriam, A Liturgia do Sangue, in Obra Poética.

(13)Fernanda de Castro, in Ao Fim da Memória, II Volume, pág. 184, Ed. Verbo, Lisboa, Abril de 1988.

(14)Na verdade tinha 26/27 anos dado que este episódio se passou em 1963 mas o José Carlos foi quase sempre muito ilusivo quanto à sua idade…

(15)Fernanda de Castro, obra citada, págs. 209 e 210.

(16)Fernanda de Castro, obra citada, pág. 211.

(17)Fernanda de Castro, obra citada, pág. 212.

(18)Ocorrida em casa de família na Travessa da Espera, 8, 3ºandar, em Lisboa.

(19)Fernanda de Castro, obra citada, págs. 310 e 311.

(20)Ibidem, pág. 312.

(21)Foi nesta época que terá aparecido na televisão a célebre frase de segundo sentido “Pescadinhas de todos os mares, uni-vos!”, um paralelismo irónico com o lema parafraseado de Marx, “Proletários de todos os países, uni-vos!”. Segundo Zita Seabra, in Foi Assim, Editora Aletheia, Lisboa, 2007, pág. 22. Contudo, esta versão inicial de Zita Seabra terá sido posteriormente e pela própria tornada mais exacta, tal como me foi transmitido pela minha amiga Drª. Isabel Lopes: «E, já agora, a tal frase célebre, a Zita Seabra cita-a mal, já o reconheceu numa entrevista; era assim: «Peixes de todos os mares, congelai-vos»; inspirada em «proletários de todos os países, uni-vos», e foi utilizada numa campanha para divulgar as vantagens do peixe congelado, indústria que as frotas pesqueiras do Henrique Tenreiro começavam a explorar, e a graça da história era essa! ».

(22)Natália Correia tinha incluído poemas de José Carlos na sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, editada no Rio de Janeiro em 1965. Defendeu esta inclusão em numerosas ocasiões e foruns. Sentiu-se algo traída quando posteriormente assistiu à cedência do escritor perante a facilidade comercial da poesia das letras para canções e mesmo de alguma “poesia militante” que considerou menor e algo indigna do vate. Ficaram célebres as discussões entre os dois, nomeadamente as provocadas pelo José Carlos, que não perdia a oportunidade de uma provocação e de um protagonismo do género. Tal como sucedeu no Casino de Afife, num recital, e em muitos outros momentos. Natália Correia havia de dizer um dia “(...).Confesso que fui excessivamente dura com ele quando o vi desviar-se do caminho que então considerei a via nobre da sua poesia e que continuo a assinalar no seu livro Adereços, Endereços, para enveredar por aquilo que na altura lhe verberei como publicismo poético”.(...), in Natália Correia, “Ary: um poeta da comoção até ao grito”, Jornal de Letras, 24-1-1984.

(23)Vítor Pavão dos Santos, Amália. Uma Biografia. Lisboa, contexto, 1987.

(24)Este episódio é referido com o mesmo sentido mas contado de maneira um pouco diferente por Benfeita, obra citada, pág. 114.

(25)Vide VIII sonetos, in Obra Poética, já citada.

(26)Insónia, in VIII sonetos, in Obra Poética, já citada.

(27)José Carlos Ary dos Santos, Infância,VIII sonetos, in Obra Poética. Edições Avante!, 1994


©Manuel Cardoso 2009

domingo, 11 de janeiro de 2009

AS SETE SOMBRAS DA MORTE ©

Tentei encontrar um livro sobre a morte. Para sobre ela poder escrever um outro. Mais bem dito: sobre as mortes. Pensei que, com todas as filosofias que o homem elaborou, com todos os poemas declamados a um pôr-do-sol mediterrânico, com todos os contos que os nórdicos repetiram nos longos serões árcticos, com todos os romances que encheram milhões de páginas e fizeram chorar donzelas nas suas torres, com todos os corpos que juncaram chãos em todas as batalhas, com todo o sangue que correu em quartos, em noites, em jardins e em sonhos, pensei que houvesse um estudo metódico, profundo, sensível e, até, verdadeiro, sobre a morte. Mas não há. Nem pode haver. Porque todas as filosofias, poemas, contos, romances, todos os corpos que juncaram chãos, todo o sangue que correu tem como origem alguém que está vivo. Estando vivo, não tendo a experiência própria da morte, é impossível descrevê-la metodicamente, analisá-la profundamente, senti-la verdadeiramente. Teria que ser um morto a discorrer sobre a morte para ser autêntico o que sobre ela se dissesse. Por isso, da morte só temos a sua definição pela negativa, o seu estudo exterior, a sua decomposição incompleta em livros incompletos. Talvez que a incapacidade ou impossibilidade de se saber algo da morte esteja no próprio homem: está vivo e não sabe, também, definir a vida! Como o poderia da morte?

Divaguei, então, por velhos autores que circunspecta e gravemente se ocuparam da morte. Desde a morte domesticada de um romano mandando um escravo cortar-lhe as veias num banho morno, à morte celta de Artur em que um mundo morreu consigo, às mortes bíblicas – tão universais e diferentes – e às mortes hindus e tibetanas com grandes aves vindo dilacerar a carne putrefacta e abrindo as entranhas para soltar hálitos e espíritos para os céus. Meditei no horizonte (há sempre uma morte a passar no horizonte, sobretudo ao fim da tarde, momento em que os druidas e sacerdotes de muitas épocas e mundos veneravam a morte diária do Sol), nas mortes perfumadas dos egípcios, dum morto em posição fetal e coberto de pétalas aninhado numa cista neolítica, nas mortes horrendas das vítimas sacrificiais dos Incas ou dos desesperados condenados por infames estalines e hitleres, nas dos Távoras sob o sorriso íntimo do Pombal. Divaguei por muitas mortes. Inevitáveis, suicidas, heróicas, desesperadas, nefandas. Nenhuma delas foi uma morte completa no sentido que abarcasse todos os tipos de morte. Não há morte sem mortos e os mortos são de uma infinita série diferente de tipos. Daí também uma infinita série diferente de mortes.

Mas houve uma morte – há uma morte – que se sobrepõe a todas as outras. Uma morte prodigiosa. Nela se resumem todas as capazes de ser substantivas: o horrível, o heróico, o suicida?, o inevitável, o perfume, tudo, tudo está nessa morte. É a morte de Cristo. O único morto que se afirma estar vivo. Não me vou, por isso, ocupar desta morte que, afinal, o não foi definitiva. Alguma morte o será?

Tantos escritores que esbarraram sobre a impossibilidade de saber o que é a morte! Apesar de haver milhares deles a descrever milhões de mortes! Aconteceu-me, até, algo até certo ponto perturbador: para um romance que escrevi, investiguei um certo Patrício Nolan, há trezentos anos negociante de escravos no Bairro Alto, em Lisboa, em cujo estabelecimento há um crime de morte. Coincidentemente, Borges usa este nome num dos seus contos em que coloca também um Manuel Cardoso a vencer um desafio no momento da morte, esvaindo-se em sangue! …

Cheguei a pensar que este será, um dia, porventura, o derradeiro esforço que se exigirá a um literato, a um sábio, a um cientista: compreender e saber o que é a morte. Não podendo, por tudo isto, escrever algo de palpável (das vezes que rocei por ela e ela por mim senti o frio medo de a ter por irreversivelmente perto e afastei-me, receoso e aflito), resta-me fazê-lo sobre a sua sombra. E não podendo escrever algo de vivido sobre a morte (como se se pudesse viver a morte!), resta-me fazê-lo sobre a sua ficção, porventura mais medonha do que se o fosse sobre a sua realidade!

Pus-me, então, a admirar iluminuras esguias e descarnadas de velhos pergaminhos, a ver gravuras antigas, lavradas por Dürer, de caveiras encapuzadas com mangas empunhando uma foice sinistra, do Triunfo da Morte de Pieter Brueghel, dum colorido escuro pintado de desespero e inevitabilidade, de clips do Youtube em que esqueletos grotescos são caricaturas absurdas do dia a dia deste século, um século de morte escamoteada pela propaganda, a querer escondê-la. Sentei-me para ver as mortes dos campos alemães, dos prisioneiros russos, dos refugiados das guerras, de todos aqueles pelos quais a morte passou mas que, em si, já não são a morte mas mortos (deviam os mortos ter outro nome?). E há ainda outras representações da morte mas em que ainda estão vivos os homens que a ela vão sucumbir, como se o artista não pudesse, não quisesse ou não atingisse como teria sido o derradeiro momento (o primordial momento) do desfecho fatal: na Morte de Sócrates, na Morte de Nelson, na de Marat, na de César, na de Napoleão, na de Lavoisier, nas dos mitos antigos, nas dos combates coloniais do século XIX, nas dos piratas lançados ao fundo do mar amarrados a um peso. Em todas, os mortos ainda estão vivos, ainda não exalaram o último suspiro, quando não, estão mesmo fitando-nos nas telas ou nas fotos com uma exoftalmia irreal ou com o ar denunciado de uma representação.

A morte teve momentos ébrios de alucinada atracção de massas: as do Circo Máximo de Roma, as do Gólgota dos Judeus, as das fogueiras medievais em França e em Inglaterra, as dos Auto-de-Fé de Portugal, as da guilhotina da Revolução Francesa. As forcas, as execuções públicas, as punições dos condenados de guerra crucificados ao longo das estradas romanas, os empalados para aviso nas fronteiras transilvânicas da Europa, os massacrados pelas formas mais eficazes da guerra moderna. O calafrio provocado sempre acicatou a curiosidade mórbida – quando não o prazer – de um incontável número de necrófilos. Mas é a morte que toca à porta, a morte caseira, a da almofada que abafa ou do pescoço que se aperta, do punhal que se enterra na pele mole, do veneno que entorpece ou paralisa num esgar, do tiro que surte instantâneo, da água que afoga em silêncio, do gás que mata adormecendo, do choque eléctrico que quebra qualquer resistência, da pancada que traumatiza o cérebro e o anula, é esta morte mais pequena em escala mas maior em sofrimento e em remorso, aquela que esvazia verdadeiramente toda a vida: a vida já tinha começado a abandonar-se e a dar lugar á morte mesmo antes de esta chegar.

A sombra desta morte não é tão grande como a de uma explosão que num instante destrói um milhão de vidas: mas é mais negra. Porque não é anónima. Não é fria, irreal e inconsequente. Não é tão colossal que possa ser ignorada ou vitoriada. Não faz parte da renovação da natureza. Não é a morte como corolário de uma vida. Não é, sequer, a morte encomendada de um mandarim no oriente a troco de dinheiro, conforto e sucesso: é a morte solitária, quente e absoluta de uma alma. Uma morte que espalha e mancha. Uma morte que vai ficar como indelével a ser carregada por quem está vivo. É a morte das mortes. A que dá uma vertigem.

A sombra da morte não é uma sombra como a das árvores, viva e agitada pelo vento nas folhas, semeada de tons de luz a passar e a sobrepor-se pelos espaços do recorte dos ramos revestidos. Não há transparência na sombra da morte. Não. É uma sombra opaca como o chumbo. Mas multiplicada por todos os lados onde se espalha. Tal como a luz se espalha, também assim a sombra da morte. Com uma qualidade característica: a sombra da morte é invisível. Não se sabe por onde está a impedir que passe a luz a não ser no preciso momento em que se faz escuridão, choro e lamento. Esta invisibilidade (de que só me dei conta muito tarde, embora dela tivesse o pressentimento quando li a Divina Comédia ou quando um velho, numa rua de Santiago, meio bêbado, insistia que o morto da catedral não podia ser o Santo porque estava morto – pareceu-me um dia que este mesmo velho estava também à porta da Sé de Lisboa a tresandar a sardinha e a vinho e a recitar de cor argumentos de refutação do Tomismo) foi a mais difícil de entender e, por isso mesmo, a dificuldade em conseguir surpreender a morte. Daí a facilidade audita com que a morte nos surpreende.

Não haverá, então, possibilidade de antecipar o momento, de prever o momento em que essa sombra nos atinge? Há, claro. Soube-o Shakespeare (disseram-me numa pequena biblioteca inglesa, numa daquelas bibliotecas de paróquia de luz incandescente de abat-jour de pano e em que servem chá enquanto lemos livros, que este autor não terá morrido, terá conseguido iludir a morte e, daí, toda a polémica sobre se terá ou não existido – se o não tivesse, como poderia, de facto, ter morrido?) e escreveu-o nas entrelinhas do Romeu e Julieta. Já o tinham sabido os medievais que produziram Eloísa e Abelardo, flagrantes a intuir a morte e a sublimá-la em todos aqueles romances e gestas de cavalaria. Herculano, no “Eurico,o Presbítero”. Wagner, na sua música, particularmente nos coros do Tannhauser. Mozart, nalgumas frases do Requiem. Tantos.      

Confesso que, primeiro, não percebi nada disto. Mas um dia, num arquivo em Coimbra, ao cair-me uma folha escrita a pena dum in-fólio em que procurava uma iluminura alusiva à morte, entrevi, numa letra disfarçada com evidente ingenuidade mas com artifício, uma velha receita que atiraria para a fogueira dominicana, sem remissão, quem quer que fosse o seu autor: nada mais nada menos que uma antiga oração para escapar à morte, escrita em português, em latim e em hebraico. Comecei a lê-la quando uma mão nodosa e pigmentada me tapou o texto. Olhei para o lado e vi uns olhos azuis aguados que me diziam mais do que queriam, cercados de rugas e de bondade. “Schiu”, disse-me, como se temesse ser escutada pelas estantes, acordar qualquer lombada inquisitorial. “Não leia isso! Desperta o contrário do que está a ler”. Depois, colocada a folha frente a um espelho, via-se uma sombra a passar sobre o texto, uma sombra opaca que tapava algumas das palavras e resultava numa invocação à morte. Compreendi então todos aqueles quadros de todas as épocas e estilos em que há alguém a ver o seu reflexo na água. Não está apenas a contemplar, numa atitude de narcisismo, a própria face: está a ver a morte a aproximar-se.

Espelhos! Sempre e mais uma vez o sortilégio dos espelhos! “Tem tudo a ver com a luz”, disse-me ela ainda. “Há sete sombras da morte, visíveis em sete espelhos diferentes. Porque há sete cores no arco-íris. O preto anula-as todas. Tal como o branco. Por isso o luto é preto ou branco ou ambos. Este é um desses espelhos”. Afastou-se entre as estantes, levando debaixo do braço alguns livros para arrumar. Quis encontrá-la mais tarde. Não fui capaz. O bibliotecário disse-me que não trabalhava ali nenhuma mulher, que nessa tarde não entrara ali nenhuma professora, assistente ou aluna. Podia garantir-mo já que teriam de ter passado por ele para entrar ou sair, sentado que estava na secretária da porta. Perguntei-lhe que espelho era aquele, ali na cabeceira de uma estante, emoldurado num torcido barroco e dourado. “Está aí desde D.João V. É um espelho precioso, de vidro italiano e prata do Brasil. Dizia-se que brilhava sozinho sempre que morria um rei ou um escravo na cidade. E que depois ficava escuro uns dias, sem servir para nada porque nada reflectia”.

Como não consegui encontrar o livro que eu queria sobre a morte, escrevi este texto, entretanto, como uma prevenção. Nunca o coloque o leitor diante de um espelho. Não sabe se será um dos outros seis. Se o souber, poderá não ter tempo de o contar a alguém.

© manuel cardoso