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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2010

Cândida Florinda Ferreira

Prestou provas perante a Universidade de Lisboa «a primeira senhora portuguesa que tentava obter as insígnias doutorais», como então proferiu o presidente do júri, de 13 a 16 de Janeiro de 1937. Foi brilhante, verdadeiramente brilhante, e os jornais, que noticiavam diariamente as sucessivas sessões do acto académico, iam tecendo um relato elogioso. Contudo, os examinadores reprovaram-na. Seria interessante investigar os porquês desta circunstância. Talvez um dia. Mas o que nos traz aqui hoje é determo-nos um pouco sobre quem era esta mulher.


Estamos a viver naquele que vai sendo conhecido como “o século das mulheres”. Um pouco por todo o lado, há cada vez mais protagonismo feminino. Em todos os sectores. Seria injusto não lembrar, por isso mesmo, aquelas que foram pioneiras. Aquelas que, de algum modo, se foram da lei da morte libertando muito tempo antes deste tempo que é o nosso.

Evocamos hoje, especialmente, uma das mais inteligentes e cultas pessoas que nasceu no nosso concelho e…

GUERRA JUNQUEIRO

Já não existe a casa dos meus bisavós (onde viveram as minhas tias Sousas e onde morreu a minha avó), demolida recentemente para dar lugar a uma rua perpendicular à rua Pereira Charula. Mas existem as histórias do muito que nela ocorreu. Visita relativamente frequente da casa foi Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 1850 – Lisboa, 1923), o poeta, candidato a eleições e deputado pelo círculo de Macedo de Cavaleiros para a legislatura de 1880, amigo do meu bisavô, o juiz Sousa (e também frequentador da casa dos sogros deste, os Morgados de Macedo, também conhecidos como Oliveira).


Uma vez, numa dessas visitas, pediu para ficar com um crucifixo que ainda hoje existe na nossa família. Este gesto pode parecer-nos esquisito, por parte do escritor, célebre por ter sido um denodado autor de obras ímpias, anti-monárquico e republicano entusiasta, tão assazmente anticlerical e anti-religioso que sobre ele escreveu o Abade de Baçal: “Muitas das obras deste brilhante génio estão traduzida…

Insecticida com penas

Desde o princípio do Verão que as vespas começaram a importunar – superchatas! – na varanda. Mas como temos um refúgio dentro de casa desde que há um ano pusemos redes mosquiteiras nas janelas por causa das moscas (aqui não há mosquitos), foi-se atrasando a aplicação de insecticida que de vez em quando, ao serem insuportáveis, se costuma fazer. O resultado foi surpreendente: apareceu por aqui um bando de abelharucos, uns sete ou oito, que todos os dias fazem razias de caça em volta da casa, à espera que elas volitem para longe e para o alto, a partir das frinchas das telhas. São lindíssimos, os abelharucos.

Estão empoleirados em grupo no fio do telefone, mas afastados, grandes bicos tortos para baixo, e de repente levantam voo um após outro, como uma formação de caças de guerra, um voo engraçado como se estivessem a boiar nas ondas, depois da rebentação. Batem as penas duas ou três vezes e depois planam rapidamente com um “krriuut, krriuut, krriuut” que parece fazer eco pelo ar fora, …

VIVA A CULTURA

Num ensaio escrito em Lima em Abril e publicado na “Letras Libres” de Julho de 2010 (LL, edición España, nr.106), Mário Vargas Llosa apresenta, diagnostica, elucida e prognostica o papel da cultura no mundo e no futuro. “Oposto à banalização, à perda de hierarquias, ao palavreado teórico e ao artifício desnecessário, MVL defende neste ensaio o valor da educação humanista e a capacidade que a literatura e a alta cultura têm para transformar a vida humana numa aventura profunda e apaixonante”.


Coincidiu ler este ensaio com reler as memórias de Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória I e II, ed. Círculo de Leitores. Foi feliz porque a vida de FC acaba por servir de espelho ao ensaio sul-americano. Vida cheia de casos e de acasos, de felicidade e de infelicidade, de projectos e de realizações, de momentos de afirmação e de dúvida, de grande agitação e de uma imensa serenidade, a vida desta escritora e intelectual portuguesa esteve impregnada de humanismo e de cultura em cada um dos seus pa…

Marilyn Monroe - Hello Norma Jeane

Está de regresso o interesse por uma das mais fascinantes actrizes do século XX. Desde um novo site no facebook (The Unknown Marilyn Monroe http://www.facebook.com/pages/The-unknown-Marilyn-Monroe-Marilyn-Monroe-inconnue/132209956817652 ) até artigos na imprensa internacional, um pouco por todo o lado está a ressurgir uma nova vaga de culto por esta figura mítica, para muitos conhecida apenas pela sua presença física (1,67 m de altura, 94-61-89 - 93-58-91 (de acordo com o estúdio); 88-58-88 (de acordo com o costureiro) - , cabelos loiros pintados, olhos azuis, lábios bem recortados e cheios). Ainda por cima, está de regresso pelo lado menos conhecido da actriz, por muitos julgada uma mulher superficial e frívola. Tal fica a dever-se ao lançamento mundial, anunciado para Outubro, de um livro original sobre MM.


O que está a vir a público neste momento em que se comemora mais um aniversário sobre a sua morte inesperada e misteriosa, ocorrida a 5 de Agosto de 2010, é algo que vem revelar …

VALE DE PRADOS

Vale de Prados é uma antiga freguesia do município e da cidade de Macedo de Cavaleiros, outrora e durante centenas de anos conhecida muito justamente como Vale de Prados-o-Grande, vila e sede de concelho. Hoje em dia é constituída pelas povoações de Vale de Prados e da Arrifana.


O seu povoamento é muito antigo, como o provam os registos medievais que se lhe referem, e bem assim alguns achados arqueológicos, como o de uma sepultura, pelo povo denominada “sepultura dos mouros”(1). Em tempos medievais houve outros núcleos de casas, a que se referem documentos velhos como as Inquirições do século XIII, então denominados Casas Queimadas, provavelmente relacionados com as guerras de então. E no Alto de Santa Catarina terá havido uma torre senhorial, erguida numa fraga gigantesca, entretanto arruinada e que os séculos foram gastando para pedra de construção. A própria fraga serviu para material de obra nos séculos XIX e XX e na década de cinquenta forneceu toda a pedra que em Macedo se gasto…

Um livro

Há momentos da história de Portugal que se transformam em fontes subterrâneas de actos políticos do futuro. Momentos de fractura. E um desses momentos foi o dia 20 de Abril de 1911, o da promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas. A perspectiva histórica desse dia tem uma das suas linhas de fuga nitidamente desenhada desde o pombalismo e a expulsão dos Jesuítas em 1759 (que a nós, trasmontanos, nos prejudicou e sem nos ter dado nada em troca) e outra das suas linhas enraizada na extinção das Ordens religiosas feita pelo liberalismo e por D.Pedro IV em 1834 (que a nós, trasmontanos, nos prejudicou mais ainda e sem nos ter dado nada em troca, mais uma vez). E hoje, quando vemos governos com leis que mandam tirar os crucifixos das escolas (pormenor de intenção muito mais funda do que a mera remoção da parede…), assim como as atitudes e discurso de hipocrisia religiosa da nossa nomenklatura e da nossa inteligentzia, tudo isto tem o mesmo hálito de bafio porque bebe a água da me…

Um livro notável

De vez em quando aparecem obras que ficam para a posteridade como marcos na paisagem do mundo editorial. Isso é tanto mais válido quanto mais exíguo for o universo bibliográfico do assunto versado ou quanto mais elevado o nível da obra produzida. Aconteceu isso com a Ilustração Trasmontana (assim mesmo: trasmontana sem “n”, aliás como deve ser – não se escreve Trans-os-Montes mas Trás-os-Montes), para sempre uma autêntica jóia da nossa bibliografia, há cerca de cem anos, e acontece agora o mesmo com o livro Bragança Marca a História, a História Marca Bragança. Um livro notável.

Claro que houve outros, cada um deles uma obra do seu tempo, alguns de justa reputação, mas estes dois, que refiro em particular, tiveram e têm o condão de ficar como obras de referência. Daquelas que fazem boa figura na estante e que hão-de tornar-se tema de conversa e fonte de outros saberes por muito tempo.

Evidentemente que seria e é possível fazer uma leitura crítica do mesmo, tal é-o sempre nisto como e…

Olá, Clara!

(a propósito de um livro da Clara Ferreira Alves)

Desculpe, eu sei que não se mexe numa carteira de senhora mas não resisti. Fui ali à Praça da Sé, à Rosa d’Ouro, e pedi que ma mandassem vir da D.Quixote. Veio numa segunda de manhã e fui, já com ela na mão, beber um café ao Flórida, a essa hora mais desempoeirado e cheio de sol. Corri o zip. Foi surpreendente.

Saíram de lá tantos conhecidos como quem passa numa porta de teatro em dia de estreia: Papini logo sôfrego a citar o Gog, Huxley de olhar no horizonte a ver a paisagem, muitos americanos que quase não conheço a declamar textos que apetece agarrar, Borges, ah, o meu Borges a escolher aquela palavra justa que a perfura até à sina, confesso que nem dei pelo café nem pelo resto da manhã nem sei o que se passou a seguir: a mesa ficou repleta, eu confuso, aflito de ter que arrumar tudo outra vez e não saber como iria caber.

É sempre assim com uma carteira de senhora: sai de lá muito mais do que o inesperado. Mas quando lhe peguei, f…

“Dialectos de ternura”

Os sentimentos foram sempre – serão sempre – o âmago do coração. Pode haver Ovídio, Dante, Shakespeare, tantos outros, mas seremos sempre nós, os portugueses, os heróis dos sentimentos – e as suas presas!

Com Camões, com todos os outros até aos Damásio, até cada um de nós. Por causa de muitas coisas, por causa do fado, por causa dos Da Weasel! Por causa dos sentimentos.

Um dos sentimentos, que não o único, em que somos um povo perito, é o do amor (pretensão minha, começar logo pelo maior e melhor de todos – mas haveria de começar por algum outro?).

Ora, uma das expressões do amor é a ternura. A ternura faz-nos falta. Imensa falta. Sem ela, o amor é um quadro sem nada, um quadro de todos os possíveis, desde o ciúme ao ódio. Com ternura, o quadro tem tudo de bom escrito nele! Tudo.

Não vou aqui dizer de que amor falo nem de que ternura. Isso fica para quem ler. Para a circunstância de cada um, a situação e capacidade de cada um. Mas há que trazer a ternura ao nosso dia-a-dia. Ternura …

ANTES QUE ACABE SÓ EM PIZZA

No Verão passado esteve em nossa casa, em Latães, a Rosalba Facchinetti, escritora, em trânsito numa ida e volta entre S. Paulo, no Brasil, e Angellara, lugarejo no Cilento, Salerno, em Itália. Esta rota do Brasil à Itália e que passa pela Serra de Ala, aqui em Trás-os-Montes, enche-nos a casa, periodicamente, de exotismo exuberante – a Rosalba fala imenso sobre coisas raras e interessantes – e apetecido encanto. Deixou-nos um livro seu, intemporal e cheio de carácter, “um pouco da minha alma ítalo/brasileira”, cujo título é “Antes que acabe (só) em pizza”. Em italiano: Sàngue non diventa àcqua mai!

(“acabar em pizza” é uma forma de dizer quase como “ficar em águas de bacalhau”. Digo quase porque as pizzas podem-se comer enquanto que ninguém pensa beber as águas de bacalhau...)

A Rosalba foi levada para S.Paulo com três anos e teve uma vida de “paulistana e 4 filhos ítalo-brasileiros”. Diz que entrou para a escola e nunca mais saiu até hoje, sempre escrevendo, do jornalismo à pedagog…

UM HOMEM E AMIGO

Um dia, no rescaldo do Verão Quente de 75, encontrava-me sozinho na Praça de Moncorvo a fazer um discurso político. Um grupo ouvia o que eu proclamava das escadas de granito, megafone na mão, entusiasmado pelos comentários e com a força que temos quando os nossos 16-17 anos (nem sequer votava ainda!) nos mantêm na inconsciência do que nos pode acontecer!


Passada meia hora e entrado no período de perguntas e respostas, vejo um VW Brasília dar duas ou três voltas à Praça e o condutor de cara surpreendida, sorriso franco. Saiu da viatura e ficou por ali, à espera que eu acabasse, braços cruzados, falando com este e aquele, sorriso escancarado e a acenar com a cabeça num gesto de “este tipo faz cada uma!”. Era o Dr. José Manuel Ruano, que conhecia de Macedo, onde conversávamos muitas vezes numa tertúlia de que eu era o júnior e que se juntava na mesa do Dr. João Pessoa Trigo, no restaurante Montemel.

- Você está tonto de todo! Então vem para aqui fazer um comício sozinho?

- Que é que tem?

ARTIGOS DIVERSOS

Reparei que tenho em arquivo umas centenas de artigos que foram sendo publicados nos últimos anos em diversos órgãos de comunicação. Acontece que muitos deles não estão on-line pela simples razão de que alguns jornais ainda não tinham, na altura, versões on-line das suas edições ou ainda pelo facto de que outros não colocam na net os artigos de opinião. Decidi-me, por isso, e a partir de hoje, publicar neste blogue alguns, bastantes, desses artigos, dando-lhes uma ou outra revisão. Impossível colocar a referência de onde foram publicados porque isso obrigar-me-ia a um trabalho fatigante de folhear jornais ou de classificar e-mails enviados e não tenho tempo para tanto!