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GUERNICA

Nós os cinco e os amigos das Arcas tínhamos ido até Madrid. Em 2001. Sobre isso escrevi então um brevíssimo texto que publiquei algures. Aqui se transcreve, impulsionado pela série que acaba de estrear no National Geographic Magazine. Sem revisão. Para entender o acontecimento fulcral: https://en.wikipedia.org/wiki/Bombing_of_Guernica



 EM GUERNICA MORRERAM MENOS


Era Agosto e tínhamos rumado a Madrid. A intenção era ir contra a corrente, fuga às multidões e ao barulho. Acertámos em cheio! Mesas vazias em cafés e esplanadas apetecíveis, exotismo qb para quem vai desanuviar do ultramontano de todos os dias. E cultura. Um banho de cultura que queríamos dar à miudagem já espigadota e a deitar olho de lado à paisagem e às indumentárias que vestem outros corpos e despem outras almas. Para nós também. Respirar noutro cenário que não fosse a nossa pequenez fatal  -  e para isso nada melhor que ir aqui ao lado: “España es grande!”.

Em Madrid rumámos aos museus num dia de brasa. Não fomos ao Prado porque a dose poderia ser excessiva para a miudagem não habituada, mas não deixámos de nos passear em grupo pelo D.Quixote e Sancho Pança e, sobretudo, mergulhámos no ar condicionado do Thyssen com vontade de o desmontar e trazer para cá, pô-lo talvez a meio caminho entre o que nos faz falta e aquilo que nunca poderemos ter.

Mas foi no Rainha Sofia que uma revelação haveria de acontecer. Comecei a ver as colecções de forma ingénua, diria mesmo inocente. Sala a sala, comecei, a certa altura, a arrastar a vista já penosamente por trabalhos indecifráveis. Até que cheguei a uma sala enorme com uma tela enorme. Foi então aí que me assaltou um assombro também enorme. Foi horrível. Não estava preparado para aquilo. Fugi. Ainda hoje me perturba essa visão cinzenta. 

Só podia ser cinzenta. Cinzenta, preta e branca, um branco sujo manchado de culpas, um preto inevitável e forte que marca um fim desesperado, um cinzento que esbarra e impede qualquer fuga. Como se nós, ali diante, morrêssemos inevitavelmente também. Se a morte pode, de algum modo misterioso e suspeito, existir desapegada da vida, ela está ali. Aquela tela é um apelo à morte. Não denuncia o genocídio de um povo. Denuncia que a única forma de fugir ao medo será a morte. E eu não podia suportar esta ideia, aquela forma de estar, cinzenta, aprisionante de um desespero que não queria encarar. Para mim, a fuga à morte são a fé e a esperança. Fugi, portanto.

Apesar de depois espairecermos numa esplanada com umas canecas geladas, aquele cinzento não mais me largou e, já dias depois, em momentos inesperados, aparecia insinuando-se aqui e ali, entorpecendo-me alguns gestos, acabrunhando-me alguns pensamentos. Esta persistência começou a laborar como se uma gestação de pavor se formasse, uma gestação de um pavor indefinível mas de intuição pessimista. Comecei então a perceber que a minha fuga dera origem a uma perseguição, uma perseguição cinzenta. Só que o perseguido era eu, a minha entropia de medos fugindo de costas àquela autêntica enxurrada de branco, cinzento e preto do Picasso e do Guernica. Ainda por cima não eram cores, pelo menos não eram, nunca foram, as cores de Espanha, do Quixote, do Lazarilho, do Sombrero. Não eram cores: eram o próprio espírito, a própria essência de uma situação limite, de um ponto de não-retorno (alguém sugere outras cores para pintar um ponto de não-retorno que não sejam o branco, o cinzento e o preto?).

Semanas depois estava de novo em solo vizinho, desta vez em Salamanca. Era 11 de Setembro. Tínhamos ido três no carro do meu amigo Castro, da Ferradosa, e visitávamos pavilhões de uma feira agropecuária quando um telefonema da Pilar me alertou para algo que se passava nos Estados Unidos. Liguei de imediato à Mariana para lhe pedir que visse a televisão e o que me contou deixou-me perplexo, tão perplexo como ficara no Rainha Sofia diante da tela enorme. Decidimos logo regressar a Portugal.

A perplexidade foi-se mudando para um receio mais profundo, um despertar quase genético de insuspeitas memórias de tempos aflitos conforme íamos ouvindo na rádio do carro os sucessivos comunicados e notícias em castelhano. Parámos numa área de serviço. Apesar de prevenido, desta vez prevenido, fiquei mais do que pregado ao chão ao ver, ao poder ver pela primeira vez as imagens descritas dos aviões fundindo-se nas torres. Foi, decisivamente, o momento da minha vida. Estava ali a ver, multiplicado um número inimaginável de vêzes, o mesmo ponto de não retorno da tela grande. Só que, desta vez, as cores não eram as do desespero  -  eram as de uma realidade enorme e muito maior do que a do desespero da tela grande.

De repente, pensei naquele meu momento de Madrid diante do Guernica, um lampejo denso como os que Borges descrevia, o vislumbre de que o pintor soube, o pintor sabia e viu diante de si nas semanas em que pincelou, frenético, a preto, a branco e a cinzento mais do que um episódio: pintou com a intuição profética de uma época que começava e que abalaria o mundo. O pintor soube, o pintor sabia que aqueles aviões não tinham estado só a arrasar um pueblo do seu povo mas a abrir uma porta, uma das portas que de quando em vez se abrem para deixar passar a humanidade de um tempo para outro e que, para se abrirem, se enchem de mortos. Mortos que ficam a impedir que se fechem, que ficam ali dia a dia diante da humanidade que passa como um testemunho da irreversibilidade.

Não se sabe que época está a vir aí. Mas sabemos que da outra vez, para posar para a tela, em Guernica morreram menos.  

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