Que o castelo de Bragança tenha história, lendas antigas e ainda muito por descobrir nos seus muros, quintais e recônditos, é coisa esperada e de que todos nós estamos cientes. Que é um dos sítios menos conhecidos e mais extraordinários de Portugal, também alguns de nós o sabemos, sendo que a sua justa fama esteja apagada por um trabalho de sistemático silêncio de séculos. Mas que na sua cidadela, ontem, tenha decorrido um evento vínico singular e exclusivo, a trazer Miranda do Douro e Mogadouro até Bragança, e para o qual tive o excepcional privilégio de ser convidado, é coisa inesperada, que não pode passar em claro, sem umas linhas. Para os que participámos foram umas horas descontraídas e cultas, em que provámos vinhos, cozinha de fusão e mérito, e em que à mesa conversámos de coisas sérias e coisas leves, historietas e trocadilhos, e cumprimos de forma alegre e em companhia o lançamento do Projeto Belfo da Arribas Wine Company.
A manhã estava fria mas o sol emoldurado pelas ameias da
muralha deixou-nos estar ali perfeitamente, no Largo do Duque D. Afonso, Rua
Rainha Dona Amélia, na esplanada do Contradição (o Duque para os
de Bragança), enquanto dentro se faziam os preparativos. Frederico Machado e
Ricardo Alves, donos e autores do projecto, António Picotês, seu compagnon de
route, William Wouters, sommelier em Óis-do-Bairro, João Oliveira, da All
Comunicação, o Emanuel e o Luís, da AEPGA. Quando cheguei, o Frederico segurava
em algo invejável: uma caixa de vinhos da Filipa Pato e do William. Cumprimentos
e apresentações, entrámos.
António e Óscar Geadas de anfitriões, acabámos por ficar
instalados na mesa da entrada onde logo apareceram copos com dois dedos de
Belfo, vinho de que já falei num artigo https://www.agroportal.pt/das-arribas-do-rio-douro-manuel-cardoso/
, cestinhos de pão (farinha de trigo barbela do Planalto Mirandês, especial
como conduto do mesmo projeto) e bola de carne, tacinhas de faiança com azeite
novo de santulhana, da Arvólea de Macedo do Mato. Num flash, a Diana Baltazar
gravou um vídeo para o Viver Aqui da Porto Canal e que está online. E
ficámos depois nós os oito mais os nossos guias e autores do repasto, intérpretes
do que se ia passando: croquete de rabo de boi com puré de maçã granny smith de
Carrazeda e mostarda savora; uma taça mágica que continha alheira grelhada e
pelada, pickle de maçã, croutons de trigo (outra vez barbela), batata palha-frita,
gema inteira de ovo a presidir… e que, uma vez misturada, se trincava em
garfadas que apeteciam rapar até ao fundo!; grão de bico com salpicão e samos
com umas lascas de bacalhau de fazer esquecer o que já tínhamos provado;
lombelo de porco bísaro em pequenas fatias e que era dispensável porque o arroz
em que assentava era por si um superlativo: carolino do Pepe, José Mota
Capitão, da Herdade do Portocarro, cozido com cogumelos silvestres de época, cantarelos,
boletus, lactários… que arroz! Nesta fase já tínhamos quase tantos copos em cima
da mesa como na do Jacinto no 202, acrescentados num ritual explicado e cheio
de observações pelo Frederico e pelo Ricardo, sempre com o António e o Óscar a
acrescentar mais curiosidades, o António Picotês também, João Oliveira a tomar
notas, Emanuel a explicar o que faziam na AEPGA e a tirar fotos, William e eu a
conversarmos sobre a excelência de Portugal! Garrafas várias foram fazendo
história: o Saroto branco, o Saroto rosé (autêntico vinho de lavrador, 12%, uma
pena que só tenham sido feitas 1200 garrafas!), o Manicómio e o Manicómio G, o
Raiola tinto… com um denominador comum a todos estes vinhos: uvas de vinhas
antigas das encostas do Douro Internacional da freguesia de Bemposta, pisa a
pé, intervenção mínima, leveduras indígenas, manipulações restritas “escola do
Dirk”, álcool abaixo de 13% o que, para quem sabe, aumenta a perigosidade do
vinho e de que maneira 😊 😊 😊!!! O Manicómio tem a particularidade de em cada ano ser feito com
cumplicidades diferentes: com o Dirk o de 2019, o João Tavares de Pina o de
2020, Carmelo Peña Santana o de 2021. E o Manicómio G é feito à parte,
estagiado numa barrica escolhida a dedo, G de Geadas. Nos doces voltámos
ao Belfo, pois claro: uvas vindas de Peredo de Bemposta duma vinha em que há
granito e calcite, mistura rara, field blend de muitas castas mas em que a
predominante é a posto-branco ou barranquesa… para eruditos a discussão de
sinonímias e encaixe classificativo!, e voltámos ao Belfo muito bem casado: pera
fusionada em moscatel com gelado de café, brioche de laranja com creme de
queijo,… chocolate… gelado de côco… … … Ninguém estava com vontade de vir
embora e à porta cá fora, já nas despedidas e fotos, agradecimentos também à
Cíntia, ao Ruben e ao Igor que mantiveram a nossa mesa em ordem com grande
profissionalismo.
Para mais sobre o projecto pode e deve ir-se ao site www.arribaswine.com mas não posso terminar
este post sem dar um outro link americano porque estão lá referências e um mapa
eloquente https://thesourceimports.com/newsletter-december-2021/?fbclid=IwAR2xsQYPENKc-VDH14BJ-XuErIvJCpZ8RxxCglTxts64ztbvlzTCV3KGP3o
que foram publicados este mês. Vale muito a pena lê-lo e interpretá-lo com
detalhe, até porque foi escrito por quem nos está a ver de longe e não
distingue as diferenças entre nós e que tantas vezes nos tolhem por estarmos
próximos – e não deviam!
Escrever este post é um exercício de gratidão mas não só. A especialidade
dos vinhos e do almoço já o mereceriam com justiça, mas há uma perspectiva mais
importante, a meu ver, que tem a ver com todos nós. É que o realizar-se este
evento significa que há esperança no desenvolvimento e na permanência de gente
nova e empresas novas no interior. Cultivar vinhas nas Arribas do Douro, no
Planalto Mirandês, em Montalegre, na Terra Quente ou seja onde for nestas
bandas tão longe do mar, manter viva a agricultura com as Arribas Wine Company,
com a Menina d’Uva, a Wine Indigenus, com todas as empresas de nome individual
ou colectivo que têm surgido nas nossas aldeias, vilas e cidades de interior, é
muito mais do que um negócio de vinho: é a sustentabilidade económica da região
a afirmar-se, base fundamental para que a cultural, social e ambiental se
possam afirmar e manter também. O próprio facto de ter decorrido em Bragança e
não em Lisboa ou no Porto também é importante. Por tudo isso, na tarde de
ontem, quando me dirigi à minha usada carrinha estacionada ao pé da igreja
de Santa Maria no castelo, ao olhar para a torre de menagem (soberba e
magnífica como nenhuma outra em Portugal!) pensei por momentos na transcendente
importância dos copos que acabáramos de beber. Que também por ali já se bebiam
no tempo dos Bragançãos, truculentos, feros e indómitos, teimosos em manter-se
na sua terra! Ao arrancar e depois fazer a A4 (também lindíssima como nenhuma
outra em Portugal!) senti-me sortudo e esperançoso. Frederico e Ricardo, Muito
obrigado!!!
1 comentário:
De cortar a respiração! Paisagem, cultura e lugares à mesa. Obrigado pela partilha...
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