sexta-feira, 4 de abril de 2025

O vinho, o Douro e Trump

 



A hora de cada um

 

©Manuel Cardoso

 

Bolsas a descer, paralisia nalguns negócios, o dólar a perder, o ouro a subir: o palco destes dias parece ser todo dos líderes do medo e do pânico. E estes líderes dizem que é tudo por causa de Trump. E que as medidas de Trump se irão voltar contra os americanos. E estes líderes irão continuar a mais inventar a partir dos factos do dia a dia para nos meter medo, para criar cenários que nos causem espanto e desorientação e eles consigam manter-se… a continuar a ser os nossos líderes do pânico e do nosso dia a dia.

Ora, as medidas que Trump tomou iriam ser, mais dia ou menos dia, tomadas por outro líder americano cujo bom senso aconselhasse a mudar o rumo do seu país. E pena é que não tenha sido a Europa a dar início à mudança de rumo das coisas e a fazer sair dos discursos os absurdos que têm inquinado as nossas decisões políticas. A Europa é que criou o problema ao permitir o cocktail que nos trouxe aqui: a ilusão do comércio mundial sem limites, das migrações mundiais sem limites, do green deal (caríssimo green deal a troco de ilusões de pouca coisa), do tudo para todos e para já, gerando para tudo isto umas máquinas burocráticas que nos tiram para si, a cada consumidor europeu, mais de metade do que auferimos com o nosso trabalho, e nos impõem regras e normas de conduta contra as quais os nossos maiores pensadores, desde há séculos e até hoje, nos avisaram ser cerceadoras da liberdade.

Chegados aqui, devemos começar por fazer o nosso exame de consciência. É incrível como nós pudemos construir o embrulho absurdo de ideias e os labirintos legais com que nos oprimimos a nós próprios no dia a dia. Ao ponto de chegarmos a pôr em causa a nossa liberdade de expressão rotulando de desinformadores fascistas (pasme-se!) este e aquele, querendo calar os que pensem diferente!  

Toda a vida vi políticos e movimentos a agitarem papões para justificarem a sua razão de ser: o medo do desaparecimento da camada do ozono, o medo da bomba atómica, o medo das tempestades apocalípticas, o medo de que o petróleo está para acabar, o medo das epidemias de grande mortalidade, o medo do avanço rápido da desertificação, o medo da subida do nível do mar, o medo das pragas de gafanhotos, o medo das grandes invasões, o medo do dióxido de carbono, o medo do mar submergir a terra, o medo dos microplásticos, o medo das coisas que causam o cancro e as doenças. Sempre o medo. E agora, também, o medo de Trump e das medidas de Trump!

Não tenho nenhum medo de Trump, até sinto afinidades com ele: reza a Deus, ao mesmo Deus que eu, gosta de mulheres bonitas, gosta de proteger a sua família, gosta de ganhar dinheiro e de o dar a ganhar e distribuir pelos seus próximos, gosta de viajar, gosta do seu país. E gosta de premiar o mérito, não se poupa a elogios aos que se conseguem fazer triunfar dum objectivo na vida. Terá defeitos, como todos nós, mas não o de me querer meter medo, porque não mete. Conheço alguma coisa da história do mundo e dos Estados Unidos e de Portugal para compreender um pouco do que se passa. E o que se passa não é um momento para ter medo, de modo algum. É um momento para aproveitar a oportunidade. A oportunidade de haver um Trump com o qual se pode falar e a oportunidade de haver um país com regras claras para com ele se poder ganhar dinheiro. Vendendo coisas para lá. A começar pelo nosso vinho.

A Europa, a Península Ibérica, Portugal e o Douro estão com um problema enorme no vinho. Deixo para a Comissão Europeia a resolução do seu problema europeu (se a sua imaginação para o resolver se fica pelas podas em verde e pelo arranque de vinhas, deixa muito a desejar), deixo para os governos de Espanha e de Portugal a resolução do seu problema (se a sua imaginação para o resolver se fica pelas podas em verde, pelo arranque de vinhas e pela intervenção a destilar stocks, também deixa muito a desejar), deixo para o governo português a resolução do problema de Portugal (se a sua imaginação para o resolver se fica pelas podas em verde, pelo absurdo arranque de vinhas, pela intervenção a destilar stocks e pelas miragens de o venderem mais para o Oriente e para África, também deixa muito a desejar) mas já não deixo de querer escrever aqui algumas linhas gerais para discussão da resolução dos problemas (que são vários) do Douro.

Porque me têm chegado do Douro vários SOS aflitíssimos e sinto o dever de partilhar o que, em brainstorm, se pode e deve discutir para tentar chegar às soluções diferentes para os diferentes problemas colocados. Que têm uns sintomas, uma síndrome geral: há vinho a mais no Douro (Porto, Douro, duriense e sabe-se lá que mais…) e esse vinho, o autóctone, é proveniente de uvas mal pagas, no geral, e está na mão de grandes e pequenos produtores (que o não conseguiram vender aos grandes e, previsivelmente, continuarão a não conseguir na próxima ou nas próximas vindimas).

Os vários centros de discussão dos problemas relacionados deveriam, sem limites, saber conversar sobre cada um dos termos da sua equação, já que há séculos os andam a enunciar e de vez em quando têm sabido resolvê-los.

Compete ao Estado, IVV e IVDP, de forma proactiva e com urgência, começar por dar os passos necessários para, em tempo record, dar solução a todos os problemas administrativos eventualmente pendentes de empresas ou produtores, rever os que não tiveram solução até hoje e dar-lhes uma conclusão administrativamente possível. De forma expedita. Porque administrativamente, quando se quere, consegue-se dar solução a muitos processos aparentemente insolúveis, os juristas e advogados servem para isso. Compete aos fóruns interprofissionais a discussão e decisões sobre a produtividade por hectare; o número de pipas para benefício e se este deve ser fixado para uma vindima ou para um triénio ou um quinquénio de vindimas; se o caderno de especificações deve ser alterado e permitir o engarrafamento no destino fora da região quando se trate de destinos longínquos ou nas situações que o conselho interprofissional decidir; se a lei do terço deve ser mantida ou se deve ser modificada ou, até, abandonada pelas empresas que o queiram fazer, ficando de modo facultativo e podendo recorrer a financiamentos desenhados para o efeito com um calendário pré-estabelecido; deixar de discutir mitos e regressos a passados míticos que nunca existiram a não ser na imaginação de quem não estuda com atenção a história do Douro e da sua produção de vinho e de aguardente; fazer uma promoção moderna e inovadora dos vinhos que aumente o seu consumo e faça frente aos lóbis anti-vinho (porque os lóbis anti-álcool, com peles de cordeiro de salvaguarda da saúde pública, só o são em título, na realidade são lóbis anti-vinho que protegem os mercados da cerveja e das outras bebidas); discussão e acerto com o governo duma intervenção para destilação de vinhos em excesso mas que permita uma tábua rasa a empresas que o necessitem para relançamento da sua actividade e a um preço suficiente (os déficits ou recurso a montantes extraordinários devem ser criados quando servem para nos livrar de dificuldades e reerguer e não apenas para as maquilhagens das situações das TAP ou da banca!). Tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias.

Os tempos não estão para demoras em decisões nem para lamúrias anti-Trump. Os tempos estão para negócios a sério de quem queira perfilar-se para continuar a mandar e vender vinho para o mercado mais promissor (o das Américas, incluindo os Estados Unidos da América), sem descurar o mercado nacional e o europeu, especialmente os nossos tradicionais ingleses cujos negócios, como numa música em baixo-contínuo, se têm mantido apesar de todas as vicissitudes ao longo dos séculos.

Muitos estarão a sorrir destas linhas e das medidas propostas (haveria ainda outras, que tenho sugerido a empresas e que, por isso, não seria ético estar aqui a descrevê-las) ou a achá-las absurdas. Serão. Também vi esse sorriso e esse achar absurdo a muitos que imaginavam as medidas de Donald Trump – e o que é facto é que estão aí! Todas serão discutíveis, todas são discutíveis, umas terão mais bondade, outras exigem mais esforço, algumas nem serão de aprovar, eventualmente. Mas devem ser discutidas, analisadas, avaliadas. Ficar parado e não fazer nada, é que não.

As bolsas e o dólar vão voltar a subir, os Estados Unidos vão continuar a comprar. Saibamos vender. Saibamos exportar. Saibamos trabalhar bem para vender e exportar bem.

Começando por produzir melhor, vinho da melhor qualidade, arrumando a casa, premiando o mérito, não tendo medo. O medo nunca foi bom conselheiro. Agora é a hora de cada um!

Saúde.

Ah, já estou mesmo a ver o sorriso mordaz e de desprezo com que os do costume comentam o que eu digo ou escrevo – je m’en fous! 😊 😊 😊                      


terça-feira, 18 de março de 2025

Portugal, o vinho e Donald Trump

 Com as tarifas já anunciadas por Donald Trump, este artigo ficou ainda mais actual do que no dia em que foi publicado!!!!! Seria bom Portugal começar a mandar as naus desde já!!!!


©Manuel Cardoso

Giovanni Papini e O Relógio Parado às Sete, a nossa vida a sincronizar-se com o resto do mundo apenas quando este coincide com a nossa imobilidade, duas vezes por dia. Giovanni Guareshi com Don Camillo e Peppone,[1] metáfora sobre a impossibilidade de se mandar no tempo, quando ambos rivalizam para que o relógio se antecipe a dar as horas, ou, se quisermos, do que acontece quando nos alheamos da realidade para impor as nossas vontades sobre a verdade, neste caso o tempo. Tempo que vai ficando cada vez mais desfasado! Estes desfasamentos, literários, ganham outros contornos e significados quando aplicados à nossa vida real. Vivemos num mundo a ficar com horas desfasadas, muito desfasadas. O desfasamento não será nosso?

1.      Portugal é um país importante, entre outras coisas, pela produção de vinho. Tanto no presente como historicamente falando. Não se entende, por isso, o quase alheamento da população em geral para com o vinho, a timidez da promoção, quando não, mesmo, o combate interno que lhe é feito, o desprezo a que é votado em muitos ambientes, se o compararmos com a cerveja, por exemplo. Muito menos se entende a ignorância política sobre o vinho, quer em relação à produção quer ao comércio e, muito mais ainda, ao consumo. Não se entende mesmo! Será propositada? Deveria fazer parte do dia a dia o conhecimento do vinho nacional pela positiva, na economia de Portugal e na nossa cultura. Mas não. Não é compreensível nem é aceitável tanta ignorância – e este estado de coisas tem de mudar, a começar pelos políticos.

2.      Há três ou quatro dias que, mais uma vez, se foi sobressaltado por uma ameaça de Donald Trump, o Presidente dos Estados Unidos da América, que, desta vez, nos afectaria estrondosamente: 200% de aumento nas tarifas de importação de vinho. Logo começaram os megafones com as vozes contra Trump. Tem sido assim que o tempo vai correndo quando se trata de Trump em relação a seja o que for: talvez o pensamento de muitos esteja parado antes de Trump, quase como o relógio de Papini, ou o compasso das horas acicatado por Trump, como os ponteiros nas torres do pequeno mundo de Don Camillo, tenha dessincronizado as moléculas dos que não se deveriam deixar dessincronizar.

3.      Há dias, também, estava na sala dos microfilmes da Biblioteca Nacional a desbobinar as páginas dos Diário de Notícias de há mais de cinquenta anos, e os meus olhos iam lendo títulos dos mais diversos, parando só aqui e ali para apontamentos que me interessavam para o tema de estudo, que nessa manhã não era o do vinho. Mas alguns dos títulos de primeira página eram inevitavelmente sobre o vinho, sobre as tarifas alfandegárias que pendiam sobre o Vinho do Porto, sobretudo, por políticas de diferentes países. Tarifas sempre houve. E haverá. Não é de agora. A ameaça de Trump em impor tarifas de 200% sobre o vinho e produtos alcoólicos europeus não partiu de Trump. Partiu dos europeus, ao considerar tarifas sobre o bourbon, o whiskie americano, em retaliação pelas de outros produtos, como metais, da ordem dos 50%. É incompreensível que não se antecipasse a reacção da Casa Branca às tarifas ameaçadas pela Europa! Por isso a minha estupefação perante a reacção dos europeus em relação à reacção de Trump. Não se mentalizaram ainda de que estamos numa guerra comercial de reciprocidade de medidas e de ricochetes constantes? Não compreenderam ainda os argumentos da nova Administração Americana? Não compreenderam ainda Trump?

4.      Presta-se um muito mau serviço à estratégia e tácticas comerciais das nossas empresas se um sentimento em relação ao Presidente do mais poderoso país do mundo antecipar uma análise fria e uma decisão informada – e precipitar reacções descabidas! Portugal exportou mais de 100 M€ de vinho para os Estados Unidos da América no último ano. É um número importante à nossa escala. E estão de parabéns as empresas que o têm feito. E está muitíssimo de parabéns a ViniPortugal pelas iniciativas perseverantes que tem desenvolvido, e em que tem sido exemplo e tem sido seguida, para que o potencialmente mais significativo destino de exportação dos nossos vinhos seja desbravado, e sejam estabelecidas redes de promoção e de comercialização perduráveis. A promoção dos vinhos nacionais no estrangeiro, e dentro de portas, deveria merecer muitíssimo mais atenção do que aquela que tem tido e é uma tristeza que não tenham sido esgotadas as verbas previstas no programa para o efeito. Sim, mudaram normas ou regulamentos, sim, em Espanha também isto ou aquilo, mas, desculpem lá!, em Portugal deveria ter havido capacidade de antecipação e manobra para que se fizesse doutra maneira. Quer por parte das empresas quer por parte das entidades. Ainda por cima o nosso orçamento é tão pequeno! Deveria ter havido imaginação e diligência da parte dos mentores e decisores. Poderei estar a ser um pouco injusto porque também não disponho de todos os dados sobre o assunto, mas quero com isto dizer que tem de haver proactividade, criatividade e inovação para que se possam ampliar e tornar muitíssimo mais eficazes as acções de promoção dos nossos vinhos!

5.      A existência de delegados comerciais residentes e itinerantes além-Atlântico, para os nossos vinhos, tanto na América do Norte como na América do Sul, com uma estratégia definida de promoção, uma carta de missão clara e de objectivos e metas mensuráveis e geríveis, estatuto e acção que fossem estabelecidos e protocolados pela ViniPortugal, pela ACIBEV, pela AEVP e por empresas que quisessem aderir independentemente, financiados pelos orçamentos dos IVV e IVDP, poderia e deveria ser uma resposta séria, para além duma manifestação de intenções, na tentativa de contrariar os efeitos prejudiciais que as tarifas, ou seja o que for, possam causar. Um menu de acções possíveis poderiam ser desenhadas a partir disto, com benefícios certos para as marcas e os vinhos nacionais, perduráveis, a dar sustentabilidade às transacções, continuidade no tempo a coisas que só se conseguem manter se tiverem essa continuidade no tempo. A boa política comercial só o será se for acompanhada dum claro movimento de impregnação da cultura do vinho de Portugal na cultura americana. Há tanto a fazer nessa perspectiva! Há tanto que se pode beneficiar duma política comercial bem conduzida!

6.      Na circunstância actual de que só quem tenha unhas é que poderá tocar guitarra, ou seja, só quem tenha massa cinzenta e capacidade de conceptualização, é imprescindível estudar bem e conhecer bem os adversários, porque duma guerra comercial se trata. E conhecer muito melhor os aliados para que não se tornem nossos competidores sem darmos por isso. Há quem o faça, quem o esteja já a fazer. Por isso, no meio do coro, algo uníssono em volume mas cacofónico e desafinado por falta de maestro, ouvem-se algumas vozes – felizmente! – a encarar a realidade. A de que é necessário pensar o que e como o fazer perante tarifas impostas e conseguir sobreviver comercialmente, assim. A de que há que perceber como tirar partido de tarifas percentualmente iguais inter pares, a de ser engenhoso e ter a arte de o conseguirmos. Se os 200% se aplicarem igualmente ao champagne, ao cava e aos nossos espumantes, nós ficamos em vantagem competitiva? E os outros nossos vinhos, não podem tirar partido disso? Os americanos não vão deixar de beber vinho se estivermos presentes e atentos, poderão fazê-lo momentaneamente mas rapidamente recuperarão o seu poder de compra!... E dependerá de nós preferirem o nosso vinho e não outro. Não nos enganemos com argumentos fáceis de que o melhor será mudarmos de mercados e deixarmos livre para outrem o nosso espaço na América! Saibamos ver para lá das tarifas, saibamos penetrar no gigantesco mundo e futuro americanos!

Ao longo da História de Portugal houve sempre mitos a tolher-nos e a ensombrar o nosso horizonte mas para os quais houve sempre gente de categoria para os ultrapassar. Foi assim com o Bojador, com o das Tormentas, com o do Mostrengo que estava no Fim do Mar! Que não nos deixemos amedrontar por mitos, hoje. Que assumamos o nosso papel e esforço. E saibamos estudar e entender os novos tempos. Outrora soubemos estender a mão e fazer tratados com povos que desconhecíamos. Também hoje temos de o saber fazer. Compreender aqueles com quem nos queremos continuar a dar porque podem ser, serão, o nosso melhor cliente. Mesmo com tarifas.

Não nos intimidemos com estas tarifas nem com a perspectiva de que as vindimas serão em excesso, de que morreremos afogados em vinho! Não nos iludamos com a responsabilização de outros pelos nossos fracassos. Saibamos decompor os problemas nos seus diversos factores e resolver cada uma das suas equações. Com brio e com optimismo no futuro. Sem mitos, sem medos, com inteligência. Se outros são capazes, nós também somos.

Donald Trump está a querer fazer a América grande outra vez e está no seu direito. Teremos tudo a ganhar se pudermos continuar a vender o nosso vinho aos americanos: fazendo-o bom, vendendo-o bem, garantindo que continua a chegar aos seus destinos, a fazer parte da vida americana – e bebendo-o também! Saúde, aos nossos clientes!

Foto: composição livre com páginas em papel da Collier’s de 9 de Abril de 1949. Sobre a Collier’s:  https://en.wikipedia.org/wiki/Collier%27s                      

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Viver no Campo

 ©Manuel Cardoso

 


Tentávamos meter ordem, para fazer caber uma estante num vão de janela, e uma pilha de publicações deslizou como se fosse um glaciar que descongela, deixando ver de relance coloridas capas e títulos e trazendo, para este avançar para o segundo quartel do século XX em que estamos, inúmeras imagens e temas que nos fizeram viajar no tempo.

Acaso de arrumações, numa rima de antigas revistas Figaro Magazine e Madame Figaro, com outras de séries menores, que se acumulam no caos do meu escritório, apareceram mais de meia dúzia de números, que julgava perdidos, da “Viver no Campo”, publicação portuguesa dos anos 90 com existência fugaz, infelizmente fugaz.

Numa conversa de livraria em Lisboa, nesses anos, contaram-me que se tratava duma ideia da Isabel Stilwell levada à prática por um grupo de entusiastas da vida no campo, um certo sabor neo-rural. Não sei. Talvez isso fosse um resumo demasiado redutor mas significativo. Vivendo nós, a Mariana e eu e os nossos filhotes, no Portugal profundo, a revista foi, então, uma espécie de promoção e atestado de vida dos que, apesar da distância ao litoral e à Cidade, pelo menos tínhamos a audácia de viver nesse Portugal profundo. Fomos, por isso, leitores atentos. Ao rever e reler agora essas páginas, ilustradas com belíssimas fotografias, paginadas com arte e escritas com uma dose qb da paixão que costuma imbuir o ruralismo, fica-se com uma pena enorme de que não tenham continuado a ser publicadas.

De vez em quando há suplementos ou números dedicados à vida no campo compostos por jornais e revistas generalistas, bem sei, e há algumas publicações sectoriais que trazem uma ou outra reportagem… há-as, até, temáticas sobre agricultura e agroturismo, vinhos e produtos, mas numa perspectiva diferente daquela que começava a respirar-se na Viver no Campo. Às que se publicam falta-lhes autenticidade, um olhar de quem observa, vive e sente, e não apenas de quem vê e relata.

Se a Viver no Campo estivesse toda escrita em inglês, passaria por revista inglesa, se em castelhano, por espanhola. E existiria ainda. Mas em Portugal há esta pecha de estarmos sempre a mudar pela ilusão de tudo ter de estar sempre a recomeçar para se justificar existir! Quantos esforços, tantas vezes frustrados, para fazer perdurar uma ideia ou atingir um desígnio, entre nós!

Que bom seria se voltasse a existir uma Viver no Campo!

Bem sabemos que um certo mundo rural já desapareceu. Mas há outro, com o seu sabor, com a sua vida que vale a pena, com o entusiasmo e a perspectiva actual de se poder viver no Portugal profundo com muito mais facilidade do que nos anos 90. Também a exigir denodo para enfrentar dificuldades, que as há novas, a começar pela solidão e rarefação do tecido social da província, despovoada que está. Viver no campo e viver do campo são coisas diferentes, como bem explicava Tomaz Dentinho num dos artigos.[1]  


Reaparecidas ontem pelas arrumações no meu escritório do sótão, iremos fazer cá em casa algumas das receitas em memória desses anos 97, 98… e estamos a reler alguns desses artigos, tão actuais, tão intemporais nas suas observações! Num dos Editoriais, Carmo van Uden escreve “A Golegã, tal como muita coisa nesta vida, é muito difícil de explicar mas muito fácil de sentir”.[2] Em vez de Golegã, poderemos ler o monte alentejano, a quinta, o casal, ou Vale Pradinhos, o Romeu, Latães… os lugares longínquos e tão perto de nós. E, noutro Editorial: “Há sempre alguém ou alguma coisa que nos abre os olhos para aquilo que muitas vezes durante uma vida inteira nos esteve à mão sem termos sequer querido estender o braço para lhe tocar”[3]. Será que alguém com engenho e arte poderá voltar a pegar nesta ideia? Seremos assinantes!          



[1] Viver no Campo número 7, Dezembro 1997, pg.12.

[2] Viver no Campo número 6, Novembro 1997

 

[3] Viver no Campo número 9, Fevereiro 1998

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Casulas Secas

 


© Manuel Cardoso

 

Toda ela é rica ou, senão, especial, a gastronomia transmontana. Especialíssima nos pontos de transição entre a Terra Quente e a Terra Fria, que conseguem juntar o melhor dos dois mundos. Quer os produtos característicos duma e doutra das zonas neles confluem de forma feliz, quer os saberes, nalguns casos ancestrais, se apuram no resultado das receitas que, inspiradas das cozinhas, já de si saborosas, dos vales do Tua e do Sabor, sobem para o Planalto Mirandês e para as Terras de Bragança e de Vinhais, levadas pelos viajantes ao longo de milénios, que daqui foram fazendo descer outros tantos ingredientes, condimentos e fórmulas, ainda por cima coloridas com Castela e Leão, com a nossa querida vizinha Espanha.  

As antiquíssimas vias de comunicação de Trás-os-Montes, que cruzavam os trajectos leste-oeste com os norte-sul, serviram para que os produtos e as receitas pudessem fluir e as necessidades desses viajantes pudessem ser satisfeitas nos seus pontos de paragem ao longo dos itinerários. As velhíssimas redes de circulação pré-históricas ao longo dos rios e das linhas dos vales vieram a ser sobrepostas pelas vias romanas, cuja principal, que daria características ao nosso território, foi a XVII Via, dita de Braga a Astorga, que antecipou a direcção de todas as outras que se lhe seguiram. Por isso as estradas reais lhes vieram a fazer o paralelismo, sobretudo a que depois o Estado Novo denominou Nacional 15, do Porto a Bragança, subindo do Romeu para o planalto da Serra de Ala por Gradíssimo, descendo a seguir para o Pontão de Lamas antes de seguir para Vale de Nogueira e Rossas, dali se avistando já Bragança.

A descrição duma viagem no A Arte e A Natureza em Portugal, há mais dum século, merece a nossa admiração perante as muitas horas do dia e de toda a noite num carro a cavalos, desde a estação de caminho de ferro de Mirandela até à cidade de Bragança.

Ao longo destes trajectos havia “estalagens”, onde umas carreiras se articulavam com outras, pessoas e cavalos retemperando-se, haveres à espera nos patamares das escadas por onde se carregavam para o estrado superior das carroças, dos carros-matos e das diligências. Todo um mundo que sumiu há muito, de que hoje restam algumas designações na região de Macedo de Cavaleiros, cruzamento de diversos corredores de passagem. O quiosque da diligência, a estação e barracões do Menezes Cordeiro, a Estalagem do Ruço, de Sesulfe, a taberna e muda de cavalos do Pontão de Lamas.

Hoje há a A4, que sucedeu à N 15, e esta à Estrada Real, e esta à XVII Via. E à Estação de Muda do Pontão de Lamas, onde se entroncava a estrada que vinha de Macedo de Cavaleiros e de Vale de Prados, sucedeu o Restaurante e Hotel Panorama, um ponto de passagem e paragem rés-vés à autoestrada. Há que tempos eu não parava ali! Mas o Filipe desafiou-me há dias a ir lá comer umas casulas secas – em boa hora lá fui, ao fim duma manhã de trabalho!

Uma forma antiga de conservar o feijão, na Terra Quente, era fazendo-o secar com a vagem, guardando-se em sacos de linho ou em arcas de madeira, depois de desidratar ao sol sobre uma lona durante uns dias, modo de ganhar a aparência conhecida de casulas secas. A forma antiga de conservar a orelha, os pezinhos, as costelas e as tiras de toucinho entremeadas com carne magra, era na salgadeira e num sítio escuro da despensa, às vezes numa mosqueira espetados nos ganchos de pendurar e onde se mantinham inalcançáveis aos ratos. Sobretudo na Terra Fria, todas estas vitualhas se aguentavam primorosamente semanas ou meses depois das matanças do porco.

Nesta época de frio e de mau tempo, o cinzentão dos dias faz apetecer mais um prato forte e original como o é o das casulas secas, bem quentes, com ou sem butelo. Por isso em Bragança, em Vinhais, no Planalto, sabem tão bem nesta altura. E muito melhor ainda se forem comidas em Macedo, onde o tempero e a textura do feijão, das batatas, das carnes gordas e dos enchidos ganham um sabor (será da altitude? Talvez da água…) especial. E muitíssimo melhor se forem cozinhadas com a receita cuidada da Dona Lúcia, a mãe do Filipe.

Ao ver a travessa que veio para a mesa, temi fazer má figura pela abundância da dose ser muito superior à minha avaliação do que comeria. Mas postos no prato os troços de entremeada, as costelas, as batatas, as casulas translúcidas com os feijões a escorregarem para fora, a orelha que se desfazia ao encostar o garfo, tudo regado abundantemente com azeite dos Olmos, da Casa Cordeiro, tudo a fumegar, tudo a rescender um cheiro antigo de recordações a que se misturou o do tinto colheita de 2008 da Duorum, ao olhar lá para fora pelo vidro até ao chão, de que avistava o Inverno, acabei com a travessa. As melhores casulas secas dos últimos anos. Seria por estar a pensar nas que terão sido servidas aos extenuados viajantes das diligências que por ali passavam há mais dum século?

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

O termómetro, a pastelaria e a Arte


© Manuel Cardoso



Ela parou no passeio e as colegas ficaram a vê-la fazer o seu ritual de sempre que escolhiam aquela rua.

Agora só volto depois do Verão!, confirmou ele ao dono do café, deixando as moedas em cima do balcão, pegando na mala e no chapéu para se dirigir à estação de comboios. A silhueta dela apareceu-lhe de tal maneira inesperada ao sair da porta que, ao abrandar o passo e acertar os óculos para poder prolongar por uns segundos o relance, obrigou a que um outro homem, que seguia atrás, tivesse de o ultrapassar subitamente com umas “boas tardes, senhor doutor!” em tom mais aceso, mas a que respondeu absorto e sem desviar o olhar, concentrado em admirar aquele flash de sandálias e soquetes, saia lisa e fina a descair pelas curvas que adivinhava, a tapar até à meia perna, blusa de manga curta e mãos finas, uma apoiada na cintura, cabelo apanhado em rabo-de-cavalo cujas pontas brilhavam com o sol. Um perfil de capa de almanaque ou revista, com o narizinho espetado como se fizesse pontaria, olhar convergente na parede, queixo que lhe apeteceria trincar, prolongado para um colo tão bom para segredos e para o peito despontado de menina que seria uma fruta, toda ela ali para se colher e ele já a imaginar um rapto em sonho, quimera fugaz de volúpia e puro prazer, a ter de passar o dedo pelo colarinho para descolar a camisa e engolir em seco, a travar-se de não dizer uma palavra imprópria e doce, mais pessoas se cruzavam no passeio, num passo ficou a menos de palmos e reprimindo a mão para não lhe apalpar as nádegas, girando um pouco a cabeça e olhando para trás, a vê-la mais um instante. O preciso instante em que ela se pôs em bicos de pés, continuando virada para a parede, esticando mesmo uns dedos para a frente para se apoiar nos azulejos e conseguir ler bem, na escala da coluna colorida do termómetro SINGER, a temperatura dessa tarde. “Estão trinta e um graus, ainda…”, disse no seu meio sorriso educado com que seguiu adiante, segurando uma pasta de estudante, as colegas do internato aguardando uns metros mais à frente, livros e cadernos nas mãos, ele só então reparando nelas. Todo o instinto lhe ficara a ferver e aquela sua obsessão fulminante faria com que o comboio se perdesse, a partida se adiasse um dia e os pais e a família dela os fizessem casar em Setembro. Ela nem tempo teve de saber a que saberia um namoro, enrolada no drama da inevitabilidade e das discussões em casa em que se viu privada de dar opinião, a quererem-lhe incutir uma culpa que não se justificava e o marido, logo a seguir, a impor-lhe ficar interna nas Doroteias do Porto para que acabasse os estudos, que não queria ao lado uma menina como mulher enquanto parecesse menina, que se diria de si e de todos?      

As frases optimistas dos jornais com o fim da guerra, as sensacionais com a entrada do mundo na era atómica, dos sucessos dos filmes nos cinemas, as mais trágicas dos relatos da miséria nos países vencidos, todo esse frenesi de notícias fazia um turbilhão contrastante com a seca, as carências, as senhas do racionamento que perduravam, a velocidade dos comboios que ainda permaneciam ronceiros, as luzes de incandescência tremeluzindo fracas e a obrigar a velas frequentes. Com a rotina do colégio, as novidades entradas com as latas de fiambre e de queijo americano da Caritas, a míngua de novas de casa. Do marido, umas raras linhas, umas visitas e saídas que preferia não ter, que ainda por cima chovia sempre, naquele Porto. Muitos tempos preenchidos com um olhar sobre si, as memórias das casas na aldeia e na vila, das colegas do colégio de Bragança – que seria delas?!, a recordação escura do acender da lareira a crepitar, tachos e obrigações. Valia a tia, cada vez mais habitual a visitá-la no Porto, a irem as duas à baixa, a pastelarias ou alguma loja, preciosas horas que compensavam bem as que a tia demorava nos comboios do Tua e do Douro, para uma ida e volta dum dia para o outro, para ter a sua visita no colégio. Valia-lhe, também, um irreprimível desejo de desenhar e escrever. Desconcertante opinião da perspectiva das coisas, na rotina do colégio, nas ruas, nas viagens, será que ninguém sente todo o tempo biológico, todo o denso fluxo de vida, todo o atrito dilacerado entre a vontade e o ter-de-ser? A vida tem pouco de científico, não se pode gastar em tentativa e erro, mas vive-se em duplas, triplas, múltiplas dimensões. Aquele rapaz parece um bonitão de cinema!, diziam-lhe as colegas, Um frasco com um pincel espetado!, sorria ela. E desenhava um frasco naïf com o pincel espetado, cerdas de riscas desalinhadas, algo que de se mexer ou tocar suscitaria o horrível. A beleza do caos, a que ela dava sentido, envolvendo numa ideia os objectos e as situações à sua frente – ou fazendo o processo inverso, dispondo a ordem em obediência à ideia do seu pensamento. Porque o próprio caos era uma ideia para si, a forma amiga de lidar com a amargura e a intensidade. Fechado. Imaginado. Contido, mantido no interior da caixa porque na vida de conveniência não podiam chocar isto nem aquilo nem aqueloutro, acumulando-se-lhe no íntimo os ritmos da Lua, das gravidezes, das sombras e melancolias dos puerpérios, do permanente e insidioso reflectir sobre a sua circunstância.

Ela e o marido mudaram-se para a província, na realidade um regresso, pequena vila com casas, estação, igreja, cinema, estabelecimentos, cafés e jardim – e alguma gente, pouca, muito entretida no diz-que-diz. Pequeno universo medido a metros. Com uns picos de mais rotações no Natal, Páscoa, Verão, festa na aldeia, bolos de anos com glace e velinhas, ajustar vestidos para um ou outro baile cheio de aferições e preconceitos. As filhas. A família ali a dois passos, o tempo de atravessar a rua. Viviam numa casa-andar, sentimento de ser uma caixa, sem bálsamos nem cânforas porque tinha vida ainda – e tanta! – mas cheia de paredes.

Promovido a notário, senhor de si e queixo mais levantado, humor dos de que ninguém-se-meta, o marido tinha o escritório à distância de atravessar o jardim. A tia, com uma pastelaria nova, Queres um queque? Um imperador? Um para as “minhas” meninas?, ficava ao tempo e à meia-distância de seguir pelo passeio o trajecto para a repartição do notário. Os biberons, as fraldas, as papas, as meninas a andar e a aprender. As pessoas a cumprimentar, a reparar nas gracinhas, olhos parecidos com a mãe, porte bonito da mãe. O pequeno buliço da vila. Um apito de comboio ou buzina da automotora que se ouvia lânguida e ao longe, as sirenes da serração e da oficina dos automóveis a marcar turnos, o sino muito perto, demasiado perto com as missas e as avé-marias – não lhe tinham já sido demasiadas?! Um bando de miúdos que brincavam com gritos e gargalhadas, a correrem com aros na estreita rua travessa, descalços alguns, senhora de lenço à cabeça tomando conta, escola antes da escola. A música do rádio e a que vinha do chão, da loja dos discos e de apetrechos eléctricos, vizinha de baixo, sob o soalho. Jornais, livros e revistas, por correio ou de mão em mão, felizmente, ou vindos do Porto, duma ida ali ou a Espinho, ou a Bragança, ou aonde quer que fosse. Folhas em branco para anotar, visão para muito mais do que as evidências do trivial. Mas o quê, se não lhe ensinaram? Um dos irmãos, piloto, de vez em quando levava-a a voar, maravilhosamente, no pequeno Cessna – uma beleza a deslizar sonhos, haverá outras formas de liberdade? Sempre a Mãe e irmãos, do outro lado da rua, farmácia a dois passos, conmel para dores de cabeça e de outros dias. As idas e voltas de tarde, passeio ao longo das casas e da pastelaria da tia até ao fundo, a constante pastelaria nova naquele tempo intenso, afinal quem lhe teria dado o dinheiro para montar a pastelaria?, regresso pelo passeio do jardim, filhas ali consigo, canteiros com flores e árvores.

Dentro de portas, rotinas e ralhos de mau génio que ela sofria, fosso gigante entre os quarenta e sete dele e os vinte e seis dela, anos assim, suportara onze. Mas não só os anos. Alguns vislumbres das pessoas que, ao cruzaram-se e falarem às filhas, olhavam atentamente na direcção da pastelaria, algumas coincidências de não ver a tia ao passar, A senhora está lá dentro… quer que a chame?, e a cada mais significativa de o marido não estar nem sentado na sua secretária, O senhor doutor saiu, não deve demorar, quer que vá saber dele?, nem na mesa do Café Central. E as mais frequentes meias frases da vila, os olhares das senhoras a treslerem-lhe bons-dias e boas-tardes, o ar compungido dalguém da família, o balbucio da tia que não explicava a ninguém a origem dos contos que custaram montar o salão com mesas, balcão e cadeiras altas, o desaforo sem palavras do marido, o som do sino, as conversas passadas com esta, aquela e aqueloutra, um enorme remoinho perturbador e condensado de vertigem… despertaram em si uma determinação, forjada nas aulas dos dias frios de Bragança, nas idas à casa de aldeia, nas salas das Doroteias no Porto, na leitura meditada dos textos e imagens de jornais e revistas. Inabalável vontade, decisão de deixar brotar o tudo que acumulara, de que o tempo teria de ser muito mais do que o repetitivo e diário dar à corda no despertador. Uma saída em frente, em desiderato. Tribunal, separação de pessoas e bens, fosse o que fosse, qualquer coisa que o não deixasse ter as filhas, qualquer coisa que a deixasse voar com elas, queria-as a voar consigo!

Quando fechou a porta à chave por dentro, abriu de repente o seu novo mundo. Não o fez apenas com o sentido de impedir que entrasse alguém para si já não-existente, jamais. Fê-lo a fechar um capítulo de modo material, determinada, chave de ferro em fechadura de ferro. Tudo seria novo.

A tia e o marido sumiram-se, empurrados para Zamora com impropérios escancarados por toda a vila, que lhes não perdoava, acabaram corridos até África.

Ela, de malas feitas para Coimbra, um querer ir respirar. Do bater de asas, deixou rasto de vestígios, traços e actos indeléveis, um voo para a Arte. Nessa Arte permanece. Para sempre. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O Senhor David, Jardineiro

 

1.       Com as idas para a D. Ester, a nossa pré-primária de há sessenta anos, a Câmara Municipal ficava em caminho e, por isso, várias vezes eu aparecia na repartição onde trabalhava o meu Pai, a dos Serviços Municipalizados, então no rés-do-chão, no corredor da direita de quem entra, porta em frente da que nessa altura era a primeira das três do Registo Civil. Trabalhava lá, também, o Senhor Carloto, com paciência e sempre um sorriso para mim, disposto a responder-me às perguntas sem filtro que faz um miúdo de cinco, seis ou sete anos. O balcão era altíssimo e, ao nível dos meus olhos, tinha um pequeno orifício redondo por onde eu espreitava, mas nada via, e onde cabia o meu dedo indicador. Um dia, disparei a pergunta: “Porque é que há aqui este buraco redondo?”. Os dois entreolharam-se e foi o meu Pai quem mo revelou: “Esse buraco está redondo porque foi feito por um trado nessa tábua para se poder tirar uma bala de pistola que se encravou na tábua de dentro!”. Não vou explicar agora como é que eu já sabia o que era um trado, mas posso e devo dizer que o meu Pai foi sempre assim, sobretudo quando a minha Mãe não estava por perto, de dizer claramente as coisas e continuar as explicações sobre o que fossem as perguntas seguintes! Nessa época as minhas pistolas eram de fulminante ou sem fulminante nenhum, o som era o de dizermos “Tau! Estás morto!” nas brincadeiras de índios e cowboys nos nossos bandos da Praça, do Trinta, do Prado de Cavaleiros e da Bela Vista, e imaginado pelos filmes ou nos bonecos animados. Ali, de repente, eu estava confrontado com um tiro real, uma bala real que fora disparada e se encastoara no balcão da repartição, furando a primeira tábua de forro, um laminado de madeira. Tive, de imediato, as explicações pelo Pai e pelo Senhor Carloto. Que tinha havido um assalto à Câmara muito antes de eu nascer, que o ladrão estava no Registo Civil, que, ao ser descoberto, ele disparara uma pistola e um dos tiros tinha ali acertado. Claro que, a seguir, outras tantas perguntas minhas levaram a outras tantas respostas. Se era de noite, porque é que a porta da repartição estava aberta (teria que estar para não ter sido furada nem ter travado o tiro), que acontecera ao ladrão, quem o descobrira… todas as respostas que tive ficaram-me indelevelmente marcadas, tal como a imagem de ver o sítio onde tinha sido a “casa do guarda da câmara”, onde “ele vivia com a sua mulher”, no que era então o arquivo da repartição do Pai e, durante anos mais recentes, um dos aposentos da informática, no vão das escadas. E quem era o guarda? Era o Senhor David, jardineiro.


O Senhor David! Com que admiração renovada passámos a ficar especados ao vê-lo a regar o jardim, algo sempre agradável, os miúdos que fui levando a ver o buraco da bala e que, autorizados pelo Senhor Carloto, pelo orifício redondo sentiam, com a ponta do dedo, a madeira desfibrada no interior. Confirmação da verdade!

2.       O espaço do jardim, à época chamado Jardim Doutor Oliveira Salazar, era o fórum da vila. Todo o maior movimento diário passava por ali: o da Câmara Municipal, do Tribunal, do Registo Civil, do Notário, dos Correios, das bombas de gasolina da SACOR, dos táxis e autocarros (que paravam ao fundo, ao lado das bombas), das duas pastelarias da moda, a Arco-Íris, da Helena Tirone, e a Flórida, do Café Tirone (um café pioneiro com uma taberna anexa), dos talhos (na rua ao fundo), da barbearia do Senhor Moura e, ainda, nos dias especiais, as verbenas com música de altofalante, o fluxo de pessoas que se dirigiam à Associação para ver filmes, bailes ou conferências. Também se pode dizer que a Casa Paroquial ficava no jardim, tal como a nossa escola primária, a funcionar no rés-do-chão da Casa Moreno. Durante anos, a sirene dos Bombeiros e da Defesa Civil do Território estava por cima da fachada da Associação e era accionada por um interruptor na parede quase ao lado da barbearia. E sempre que havia visitas oficiais, de ministros ou figuras gradas, a comitiva parava na rua em frente à Câmara e depois percorria a pé o trajecto até aos degraus dos Paços do Município sobre tapetes de flores ou de motivos desenhados com serrim colorido. Fotografias de casamento eram tiradas no jardim, bandas de música acertavam passo e tocavam no jardim. Tinha bancos de ferro fundido com ripas de madeira pintadas a encarnado, noutras épocas a verde e, noutras ainda, a branco. Como havia um pavimento de cimento liso no espaço de protocolos em frente à Câmara, nalguns períodos de maior complacência de polícias e zeladores havia quem por lá patinasse, mas os verdadeiros momentos de glória eram as noites de Verão em que as meninas se passeavam a exibir toilettes e a exercitar os saltos altos, a que nós ainda éramos alheios. Toda a vila ia passear ao jardim, voltas e voltas aos canteiros, acima e abaixo, num sentido e noutro sob as tílias, olhares perscrutadores a surpreender cruzares de insinuação e namoro. Jardim que ficava mudo e silencioso sob os nevões que lhe realçavam as formas geométricas de Inverno, transcendente quando as lâmpadas de Natal coloriam as tuias e o abeto grande. Hoje em dia diríamos que o jardim seria um hotspot de biodiversidade e tal estaria certo.


Na silhueta do seu entorno, pontificava o velho cipreste, ao lado do canteiro da estátua da Maria da Fonte e entre esta e a Fonte do Paço. Bordaduras de relva aparada, buxos cortados que poderiam examinar-se com régua, canteiros escavados sem uma erva estranha e onde cresciam maravilhosas rosas, simples, dobradas, repolhudas ou abertas, rescendentes de aromas ou mais discretas, em dezenas de cores e variedades, elogiadas por todos, ao ponto de um jornal da época referir “O jardim em frente aos Paços do Concelho é já um oásis acolhedor onde a vista, cansada da monotonia de todos os dias, repousa, deleitada, sobre a alacridade das relvas e das roseiras floridas“.[1] Coleccção de árvores de troncos rugosos e lisos, castanhos e cinza, coníferas e caducas, faias e um álamo, um abeto. Uma hévea. Ao pé dos Correios e pelo passeio acima, castanheiros da Índia, carvalhos americanos e áceres que nos encantavam pelas sementes a voar em helicóptero! Flores! Lírios brancos, azuis, amarelos, jarros, violetas discretas num cantinho, até de Outono havia flores, mais tímidas, com as geadas a vir. E sempre mais rosas, de todas as variedades e cores!

3.      


O ponto magnético de Macedo era o jardim. Foi-o, durante décadas. Quem passava todo o tempo a cuidar deste orgulho colectivo? O Senhor David, jardineiro. Sempre me lembro de o ver de sacho mais longo ou mais curto a cuidar da terra ou a misturar estrumes preparados, ancinho a arrastar folhas mortas ou a alisar um canteiro de que nasceriam surpresas, pequena lâmina curva de cabo com que afagava o encosto duma roseira a crescer mais torta e que ele forçava a ficar mais direita. Tesoura grande de aparar o buxo e a relva, tesoura de poda mais curta com que cortava caules com espinhos ou ramos indesejados com golpes certeiros e decididos. “Temos que as cortar agora para que rebentem outra vez!”, explicava-me um dia em que eu, ignorante, senti certa pena ao vê-lo fazer desaparecer pela base, à tesourada, uma série de roseiras que ainda há pouco enchiam de amarelos, vermelhos e brancos todo o espaço a seguir ao relvado do passeio em frente à Helena Tirone, onde eu tinha ido comprar um imperador. E todo o movimento relacionado com a mangueira, que arrastava para perto duma das torneiras de amarelo polido que sobressaíam da terra, era um cerimonial: ligar a mangueira, abrir a torneira, ir premir o botão que ligava o motor eléctrico para bombar a água do poço (que tinha uma tampa verde, de ferro, fechada a cadeado), depois senti-la a encher a borracha do tubo, a brotar com espasmos de ar, ele a segurar na ponta e colocar o dedo para espalmar o esguicho para que não magoasse as plantas nem sulcasse a terra, apontava metodicamente para este e aquele canteiro, lavava a poeira dos buxos que reverdeciam e agradeciam a frescura enchendo o ar de perfume, a humidade a pouco e pouco despertando todas as folhas e flores, transmitindo-lhes viço e alegria que nos contagiava a nós. Fazia tudo sozinho, mas não era um trabalho solitário porque imensos transeuntes metiam conversa, perguntavam segredos e nomes, pediam pés de roseiras para plantar. Tratava do jardim, mais dos canteiros da Avenida da Estação, do triângulo em frente à Estalagem, do grande e comprido da nossa rua (a que os detractores políticos do Padre Faria chamavam “a manjedoura”!) e dos da Casa dos Magistrados. Era o executante duma praxe, boa praxe, de Macedo: quando era colocado cá um novo Juiz, ou Delegado, ou Notário, ou Conservador, ou Delegado da Junta Nacional dos Serviços Pecuários ou outro cargo daqueles que, na verdade, contribuíam para o povoamento do interior, a Câmara mandava-lhe a casa, aquando da chegada, sendo o David o portador, incumbido pelo Presidente, uma grande canastra nova com um garrafão de azeite, outro de vinho, um pão centeio, outro de trigo, e… um grande e magnífico ramo de rosas e flores, por si composto!

4.      


No dia 27 de Setembro de 1953, às quatro horas da manhã, um audacioso gatuno arrombou uma das portas do salão nobre que dão para a varanda do edifício da Câmara Municipal, para onde terá trepado pelo tubo condutor da água. Dali terá ido para a repartição do Registo Civil e o guarda do edifício, David Ferreira Ramos, e a sua mulher, Maria dos Anjos Gaspar, ouviram os ruídos e tentaram intimidar o ladrão com um pau de vassoura. O que conseguiram, se bem que o criminoso tenha desatado aos tiros, atingindo-a com uma bala que lhe acertou no tórax e ficou alojada na região sub-clavicular. O gatuno fugiu, entretanto, dando ainda mais tiros já fora do edifício, o David foi buscar socorro e a sua mulher foi hospitalizada de seguida. Para trás ficara um molho com quase cinquenta chaves e uma chave de fendas e o assalto correra mal: apenas tinha roubado selos de pouco valor. Chegou a pensar-se que teria agido com cúmplices, mas não sabemos se terá sido assim. Cerca de quinze dias depois, nas Arcas, deram por sinais de haver um moinho que teria sido assaltado. Dois sobrinhos do dono montaram guarda e detectaram que haveria alguém escondido num outro moinho. Apareceram com surpresa e determinação e detiveram o intruso, que estava armado de pistola. Ainda tentou fugir, já desarmado pelos valentes rapazes, mas um deles acertou-lhe com uma pedrada que o tombou. Foi conduzido a Macedo, preso. Confessou o crime do assalto à Câmara assim como outros de que também fora autor. Ficou preso. Era de Chaves, casado, 24 anos, pai de um filho ainda pequeno…

5.       Hoje em dia uma grande e excelente equipa de jardineiros e ajudantes zela pelos canteiros que fazem o orgulho da terra. Há um trabalhão para os manter viçosos e bonitos a que devemos dar o devido valor. Quando se vê algum menos cuidado, não falta quem diga “Se cá estivesse o David não estaria assim!” – e não estaria! Lembrar o trabalho e o excelente desempenho que teve uma das figuras mais conhecidas em Macedo vem a propósito em particular este ano, que se constrói e planta um significativo parque ajardinado que ficará magnífico (e que não demore a ser ligado ao velho Jardim e ao largo da velha Igreja!) e esplendoroso. Que por ele se venha a sentir o orgulho e brio, profissionalismo e competência de que o David Jardineiro foi exemplo!



[1] Há dias, ao folhear antigos Mensageiro de Bragança, deparei-me com a notícia do assalto e os dados reportados à época e baseio-me nesses apontamentos e nas notas que amavelmente me deu o meu amigo e Presidente da Junta Sérgio Borges, que também me enviou as fotos com que se ilustra este post, para os dados mais factuais. Maria dos Anjos Gaspar (18.11.1915-14.11.1972) era natural de Vale de Prados. David Ferreira Ramos era natural de Águas Santas, Maia, onde nasceu a 19.02.1914. Era filho de Augusto Ferreira Ramos e de Rita Moutinho. Veio para Macedo nos anos trinta. Morreu a 15.11.1997, em Macedo. A foto do casal é de 1952; com o David a regar, 1974; com o seu neto Sérgio Borges, junto a um dos seus esplendorosos canteiros com as omnipresentes roseiras, 1984.   Esta versão deste post, de 5.08.2022, está na sua forma provisória e será revista oportunamente.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Vinho em Portugal - Os anos do tudo ou nada

©Manuel Cardoso

27.06.2022



Apesar de estarmos formatados, na leitura das estatísticas, para considerarmos os anos civis como referência, até por facilidade de leitura e comparação (“2021 foi um bom ano para as exportações, melhor do que 2020 e apesar da pandemia”), o certo é que, por Regulamento Europeu, o ano vitivinícola decorre de 1 de Agosto até 31 de Julho do ano seguinte. É uma espécie de sincronia com o início das vindimas, convencionada, semana atrás ou semana à frente, daquela data, na Europa. Neste momento anda o pintor pelas vinhas e em breve começarão a surgir as previsões probabilísticas da vindima.

O próximo ano vitivinícola terá pouco a ver com os anos que antecederam. Os sinais estão aí, já referidos por muitos, e, além da preocupação, devem merecer muita atenção e tomadas de decisão: o encarecimento de factores de produção e transportes, a irregularidade no cumprimento de prazos de fornecimento e na circulação, a inflação e o aumento das taxas de juro… pandemia, guerra, novos competidores e necessidade de cumprimento de critérios de sustentabilidade por responsabilidade social e para ombrearmos com a concorrência, são elementos dum conjunto que é necessário compreender em toda a extensão.

Os vinhos portugueses têm-se distinguido pela diversidade. E têm estado a aumentar o valor, ano a ano, de forma sustentada. Mas este valor ainda é baixo demais, sobretudo para as gamas de entrada, e carece dum esforço para incremento e manutenção, porque a diversidade dos nossos vinhos só continuará a existir se for mantida!

Uma grande percentagem da população portuguesa, nas últimas décadas, deslocou-se para as cidades e este afastamento das raízes agrárias do país provocou um desligar da mentalidade da vida no campo e dar-se aso à criação de mitos urbanos desinformados sobre os que vivemos nos vales e serras de Portugal. O vinho pode – e deve – desempenhar nas cidades um papel cultural importante, indo ao encontro dessa grande multidão de novos potenciais consumidores, hoje voltados quase exclusivamente para a cerveja e gin tónico, mas abertos a novidades, ao entendimento do que é consumo responsável e hedonista, que procuram prazer imediato, mas também qualidade e transparência no produto que lhes é oferecido. A ideia de que o vinho é um produto de confiança tem de multiplicar-se connosco, como já é feito nos outros países. Não é por acaso que os filmes franceses (o vinho é o terceiro produto mais importante na economia francesa, a seguir à indústria aeroespacial e aos perfumes) e italianos são frequentes as cenas em que aparece a fruição do vinho, actores e actrizes fazendo a sua pedagogia com gestos e até palavras: visam aumento do consumo interno sem publicidade explícita, almofada importante para os imprevistos do turismo e da exportação. Há que descomplicar o consumo do vinho, inovar nas embalagens, fazê-lo estar presente nos festivais e na praia. É estranho que muitas lojas, adegas e cooperativas vendam vinho, mas não o sirvam a copo nesses locais… perdem uma boa oportunidade de facturação e acima do preço médio! Aumentarmos o consumo interno e valorizarmos o preço por litro devem ser dois dos objectivos a atingir nos próximos anos – os anos do tudo ou nada!

Porquê “os anos do tudo ou nada”? Porque a convulsão da economia é certa e imprevisível: é da História e é dos livros.

As mudanças a que estamos a assistir, desde a tecnologia na vinha; a emergência de novas regiões vitícolas em Inglaterra, Países Baixos e Países Nórdicos; a tendência de novos gostos por vinhos fáceis, acessíveis, que saibam bem; o acesso a informação na garrafa/embalagem e a partir desta, com os QRcodes, os códigos de barras, os selos inteligentes; as novas embalagens… tudo isto irá acelerar nos próximos anos e determinará a sobrevivência de muitas das empresas que conhecemos ou a sua absorção por outras. Por isso a importância do incremento do valor, da sustentabilidade, da visão holística de toda a actividade de produção, comercialização, consumo e informação sobre o vinho.

É importantíssimo que o sector se vire para as novas gerações de consumidores e as entenda. Como é bom ver a surpresa, o prazer e uma certa cintilação do olhar de visitantes de quintas ao perceberem o processo que faz com que se possa beber dum copo o líquido onde estão o chão, a luz, o calor, a frescura e o perfume daquele local. Descobrir nesse copo um certo sentido de vida. Porque irá depender também destas novas gerações manterem-se as paisagens de vinha na Região dos Vinhos Verdes, em Trás-os-Montes, em Portugal.

Não sabemos como será a vindima deste ano, mas podemos ter a certeza de que este próximo ano vitivinícola será muito diferente dos anteriores. Os próximos anos vitivinícolas. Que, para Portugal, para muitos dos nossos operadores do sector, serão os anos do tudo ou nada. Há que trabalhar para que sejam os anos do tudo – e dum tudo extraordinário! – que o podem ser! Será difícil - mas será possível!