A hora de cada um
©Manuel Cardoso
Bolsas a descer, paralisia nalguns
negócios, o dólar a perder, o ouro a subir: o palco destes dias parece ser todo
dos líderes do medo e do pânico. E estes líderes dizem que é tudo por causa de
Trump. E que as medidas de Trump se irão voltar contra os americanos. E estes
líderes irão continuar a mais inventar a partir dos factos do dia a dia para nos
meter medo, para criar cenários que nos causem espanto e desorientação e eles consigam
manter-se… a continuar a ser os nossos líderes do pânico e do nosso dia a dia.
Ora, as medidas que Trump tomou
iriam ser, mais dia ou menos dia, tomadas por outro líder americano cujo bom
senso aconselhasse a mudar o rumo do seu país. E pena é que não tenha sido a
Europa a dar início à mudança de rumo das coisas e a fazer sair dos discursos
os absurdos que têm inquinado as nossas decisões políticas. A Europa é que
criou o problema ao permitir o cocktail que nos trouxe aqui: a ilusão do comércio
mundial sem limites, das migrações mundiais sem limites, do green deal (caríssimo
green deal a troco de ilusões de pouca coisa), do tudo para todos e para já,
gerando para tudo isto umas máquinas burocráticas que nos tiram para si, a cada
consumidor europeu, mais de metade do que auferimos com o nosso trabalho, e nos
impõem regras e normas de conduta contra as quais os nossos maiores pensadores,
desde há séculos e até hoje, nos avisaram ser cerceadoras da liberdade.
Chegados aqui, devemos começar
por fazer o nosso exame de consciência. É incrível como nós pudemos construir o
embrulho absurdo de ideias e os labirintos legais com que nos oprimimos a nós
próprios no dia a dia. Ao ponto de chegarmos a pôr em causa a nossa liberdade
de expressão rotulando de desinformadores fascistas (pasme-se!) este e
aquele, querendo calar os que pensem diferente!
Toda a vida vi políticos e
movimentos a agitarem papões para justificarem a sua razão de ser: o medo do
desaparecimento da camada do ozono, o medo da bomba atómica, o medo das
tempestades apocalípticas, o medo de que o petróleo está para acabar, o medo
das epidemias de grande mortalidade, o medo do avanço rápido da desertificação,
o medo da subida do nível do mar, o medo das pragas de gafanhotos, o medo das
grandes invasões, o medo do dióxido de carbono, o medo do mar submergir a
terra, o medo dos microplásticos, o medo das coisas que causam o cancro e as
doenças. Sempre o medo. E agora, também, o medo de Trump e das medidas de Trump!
Não tenho nenhum medo de Trump,
até sinto afinidades com ele: reza a Deus, ao mesmo Deus que eu, gosta de
mulheres bonitas, gosta de proteger a sua família, gosta de ganhar dinheiro e
de o dar a ganhar e distribuir pelos seus próximos, gosta de viajar, gosta do
seu país. E gosta de premiar o mérito, não se poupa a elogios aos que se conseguem
fazer triunfar dum objectivo na vida. Terá defeitos, como todos nós, mas não o
de me querer meter medo, porque não mete. Conheço alguma coisa da história do
mundo e dos Estados Unidos e de Portugal para compreender um pouco do que se
passa. E o que se passa não é um momento para ter medo, de modo algum. É um
momento para aproveitar a oportunidade. A oportunidade de haver um Trump com o
qual se pode falar e a oportunidade de haver um país com regras claras para com
ele se poder ganhar dinheiro. Vendendo coisas para lá. A começar pelo nosso
vinho.
A Europa, a Península Ibérica,
Portugal e o Douro estão com um problema enorme no vinho. Deixo para a Comissão
Europeia a resolução do seu problema europeu (se a sua imaginação para o
resolver se fica pelas podas em verde e pelo arranque de vinhas, deixa muito a
desejar), deixo para os governos de Espanha e de Portugal a resolução do seu
problema (se a sua imaginação para o resolver se fica pelas podas em verde,
pelo arranque de vinhas e pela intervenção a destilar stocks, também deixa
muito a desejar), deixo para o governo português a resolução do problema de
Portugal (se a sua imaginação para o resolver se fica pelas podas em verde,
pelo absurdo arranque de vinhas, pela intervenção a destilar stocks e pelas
miragens de o venderem mais para o Oriente e para África, também deixa muito a
desejar) mas já não deixo de querer escrever aqui algumas linhas gerais para discussão
da resolução dos problemas (que são vários) do Douro.
Porque me têm chegado do Douro
vários SOS aflitíssimos e sinto o dever de partilhar o que, em brainstorm, se pode
e deve discutir para tentar chegar às soluções diferentes para os diferentes problemas
colocados. Que têm uns sintomas, uma síndrome geral: há vinho a mais no Douro (Porto,
Douro, duriense e sabe-se lá que mais…) e esse vinho, o autóctone, é
proveniente de uvas mal pagas, no geral, e está na mão de grandes e pequenos
produtores (que o não conseguiram vender aos grandes e, previsivelmente,
continuarão a não conseguir na próxima ou nas próximas vindimas).
Os vários centros de discussão
dos problemas relacionados deveriam, sem limites, saber conversar sobre cada um
dos termos da sua equação, já que há séculos os andam a enunciar e de vez em
quando têm sabido resolvê-los.
Compete ao Estado, IVV e IVDP, de
forma proactiva e com urgência, começar por dar os passos necessários para, em
tempo record, dar solução a todos os problemas administrativos eventualmente pendentes
de empresas ou produtores, rever os que não tiveram solução até hoje e dar-lhes
uma conclusão administrativamente possível. De forma expedita. Porque
administrativamente, quando se quere, consegue-se dar solução a muitos processos
aparentemente insolúveis, os juristas e advogados servem para isso. Compete aos
fóruns interprofissionais a discussão e decisões sobre a produtividade por
hectare; o número de pipas para benefício e se este deve ser fixado para uma
vindima ou para um triénio ou um quinquénio de vindimas; se o caderno de
especificações deve ser alterado e permitir o engarrafamento no destino fora da
região quando se trate de destinos longínquos ou nas situações que o conselho
interprofissional decidir; se a lei do terço deve ser mantida ou se deve ser
modificada ou, até, abandonada pelas empresas que o queiram fazer, ficando de modo
facultativo e podendo recorrer a financiamentos desenhados para o efeito com um
calendário pré-estabelecido; deixar de discutir mitos e regressos a passados
míticos que nunca existiram a não ser na imaginação de quem não estuda com
atenção a história do Douro e da sua produção de vinho e de aguardente; fazer
uma promoção moderna e inovadora dos vinhos que aumente o seu consumo e faça
frente aos lóbis anti-vinho (porque os lóbis anti-álcool, com peles de cordeiro
de salvaguarda da saúde pública, só o são em título, na realidade são lóbis
anti-vinho que protegem os mercados da cerveja e das outras bebidas); discussão
e acerto com o governo duma intervenção para destilação de vinhos em excesso mas
que permita uma tábua rasa a empresas que o necessitem para relançamento da sua
actividade e a um preço suficiente (os déficits ou recurso a montantes
extraordinários devem ser criados quando servem para nos livrar de dificuldades
e reerguer e não apenas para as maquilhagens das situações das TAP ou da
banca!). Tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias.
Os tempos não estão para demoras
em decisões nem para lamúrias anti-Trump. Os tempos estão para negócios a sério
de quem queira perfilar-se para continuar a mandar e vender vinho para o
mercado mais promissor (o das Américas, incluindo os Estados Unidos da América),
sem descurar o mercado nacional e o europeu, especialmente os nossos
tradicionais ingleses cujos negócios, como numa música em baixo-contínuo, se
têm mantido apesar de todas as vicissitudes ao longo dos séculos.
Muitos estarão a sorrir destas
linhas e das medidas propostas (haveria ainda outras, que tenho sugerido a
empresas e que, por isso, não seria ético estar aqui a descrevê-las) ou a
achá-las absurdas. Serão. Também vi esse sorriso e esse achar absurdo a muitos que
imaginavam as medidas de Donald Trump – e o que é facto é que estão aí! Todas
serão discutíveis, todas são discutíveis, umas terão mais bondade, outras
exigem mais esforço, algumas nem serão de aprovar, eventualmente. Mas devem ser
discutidas, analisadas, avaliadas. Ficar parado e não fazer nada, é que não.
As bolsas e o dólar vão voltar a
subir, os Estados Unidos vão continuar a comprar. Saibamos vender. Saibamos
exportar. Saibamos trabalhar bem para vender e exportar bem.
Começando por produzir melhor, vinho da melhor qualidade, arrumando a casa, premiando o mérito, não tendo medo. O medo nunca foi bom
conselheiro. Agora é a hora de cada um!
Saúde.
Ah, já estou mesmo a ver o sorriso mordaz e de desprezo com que os do costume comentam o que eu digo ou escrevo – je m’en fous! 😊 😊 😊